sexta-feira, 21 de novembro de 2014

José Mindlin e a vocação de reunir livros. José Maurício de Carvalho



No dia 28 de fevereiro do ano de 2010 morreu aos noventa e cinco anos o empresário, advogado e jornalista José Mindlin. É uma pena que homens extraordinários morram. O país perdeu um deles e dono de um dom raríssimo: era amigo dos livros.  E ele possuía uma amizade bonita que ia além das palavras, era uma espécie de devoção aos livros que Midlin alimentou durante toda sua vida. No final de sua longa existência conseguiu reunir cerca de 45000 volumes dos mais representativos da cultura ocidental e brasileira. Por este trabalho em defesa da cultura e das letras foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2006, um dos raros momentos de reconhecimento ao seu amor à cultura.
Quem foi José Mindlin? Ele nasceu em São Paulo em 1914 quando o mundo assistia o início da I Grande Guerra. Era filho de judeus russos cuja família mudou para o Brasil (São Paulo) em busca de paz e segurança. Do pai aprendeu o amor pela cultura e a dedicação aos livros, paixão que alimentou em toda sua vida. Trabalhou desde cedo, começando a atividade profissional como jornalista no Estado de São Paulo quando ainda não tinha quinze anos de idade. Concluído o ensino médio fez Direito na Universidade de São Paulo e, posteriormente, cursos na área jurídica nos Estados Unidos da América. Largou a carreira brilhante de advogado que se iniciava em 1949 para se dedicar a sua vocação empresarial tendo organizado a Metal Leve. A empresa se dedicava à fabricação de peças para automóveis e chegou a ter 7000 mil funcionários e duas fábricas nos Estados Unidos. Ser empresário não é uma vocação fácil, mais difícil quando se lidera 7000 pessoas. Em 1996, com mais de oitenta anos de idade vendeu a empresa para a Mahle e se entregou por inteiro à outra vocação que o consumira vida afora: descobrir e adquirir livros importantes da cultura ocidental e brasileira. Para se ter uma noção do que ele reuniu basta mencionar o exemplar dos Lusíadas de Camões da primeira edição (1572), os originais do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e a primeira edição ilustrada dos Triunfos (1488), de Petrarca, livro mais antigo que o Brasil. Uma vida plena é a realização de uma vocação e pode ser mais de uma como no caso de Mindlin.
Um fato que nos mostra a dimensão moral desta vocação. Ele doou 25000 livros que tratavam da cultura brasileira para a Universidade de São Paulo. Os livros são para os homens e para enriquecer o espírito. Ao fazê-lo adotou a atitude típica e generosa dos filantropos norte-americanos que deixam parte de sua fortuna ou bens para obras de caridade ou para instituições culturais. Isto é quase uma regra entre eles, o sentimento de gratidão à nação e o espírito público da vida bem sucedida. Atitudes assim são ainda raras entre nós, mas começam a acontecer.
Outro episódio marcante que dá a dimensão moral desta vida foi o pedido de demissão da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 1975, depois da morte na prisão do jornalista Vladimir Herzog, que ele havia indicado pessoalmente para chefiar o jornalismo da TV Cultura.

 Mesmo sem conhecer a intimidade deste intelectual amigo dos livros, empresário de sucesso, advogado por formação, benemérito da USP e imortal da Academia de Letras, estas linhas são o reconhecimento das vocações importantes que ele cultivou e homenagem a um homem da cultura que colocou sua vida a serviço da sociedade brasileira. Que nosso país possa ter, cada vez mais, homens dedicados aos diferentes aspectos da cultura, como Mindlin foi no cuidado com os livros, sem precisar deixar de ser advogado e empresário.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Talian como Referência Cultural Brasileira. Selvino Antonio Malfatti.























Entre os dias 17 e 20 de novembro no Seminário Ibero-Americano da Diversidade Linguística, em Foz do Iguaçu – PR, será assinada Certificação do Talian como Referência Cultural Brasileira, junto com Assurini e Guarani Mbya.
O Talian não é propriamente um dialeto da língua italiana trazido pelos imigrantes italianos. Mas não se pode dizer que não seja um dialeto. Efetivamente existem vários dialetos como o Furlan, o Bergamasco, o Vêneto. Há indícios de que o Talian é um dialeto italiano autóctone brasileiro. Num estágio que fiz na Itália conheci uma família de Vêneto que falava praticamente igual ao Talian. Minha hipótese é de que nasceu na combinação de vários dialetos e mesmo com contribuição da língua portuguesa. 
Quando os imigrantes embarcavam na Itália, já iniciava outra realidade e era preciso adaptar-se e mesmo criar. Daí que várias palavras se moldaram e outras novas surgiram. 
A alimentação era diferente, os costumes variavam, a religiosidade não era igual. Enfim, era outro ambiente e os imigrantes precisavam comunicar-se. Desse novo conjunto de fatores, físicos e culturais, nasceu o Talian.
Por muito tempo foi a língua “oficial” dos descendes italianos principalmente no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e Paraná. Falava-se o Talian nas famílias, vizinhanças, reuniões comunitárias, até mesmo o Sermão do padre nas missas era em Italian.
O maior golpe do Talian aconteceu no governo de Getúlio Vargas porque o Brasil declarou Guerra à Itália e o Talian foi proibido de ser falado. Eu mesmo o aprendi por acaso. Nasci durante a 2ª guerra e meu pai foi convocado. Minha mãe e eu fomos morar com a nona (avó) que só se comunicava em Talian. Foi aí que aprendi. Os outros meus irmãos que nasceram depois não o aprenderam.
Como nossa comunidade de imigrantes residia praticamente no meio de colonizadores alemães – região de Lajeado no Rio Grande do Sul, cujos imigrantes alemães chegaram antes e já tinham núcleos urbanos - aprendíamos também alemão. Dizia-se que se deveria saber três línguas: o Talian usado em casa e com vizinhos, o alemão para ir à cidade e o português para a escola.
A aproximação do Talian com o italiano gramatical é visível. Haja vista que quem sabe o Talian rapidamente aprende o Italiano gramatical. Mas há expressões originais e peculiares que não têm tradução similar. Atualmente é pouco falado, só sendo usado por pessoas idosas que ainda o falam ou por quem se dedica a estudos lingüísticos. Há uma cidade gaúcha, Serafina Correa, que o adota como língua co-oficial.
No entanto  o que ainda o mantém vivo é que há uma literatura escrita no Talian. O mais famoso e conhecido livro é “Vita e Storia di Nanetto Pipetta (Vida e História de Joãozinho Cachimbinho). É um personagem que encarna o imigrante italiano e passa por todas as situações: trabalho na roça, vida familiar, religião, diversões, namoro e assim por diante. O livro sinteticamente se autodefine como “Ciacore e sfrotole”. ( Fofocas e causos). Foi escrito por um filho de imigrante, Aquiles Bernardi, frei capuchinho, em comemoração aos 50 anos da imigração italiana. Originalmente publicado em “Staffeta Riograndense” e depois, no período de Getúlio, no Correio Riograndense. O livro no período de Getúlio foi condenado e teve que abrigar-se na clandestinidade. Mas os imigrantes o liam nas rodas ou nos filós e o passavam de mão em mão. Quando chegava alguma autoridade do governo o escondiam até dentro do pão. Dessa forma conseguiu sobreviver e ainda atualmente há pessoas que escrevem em Talian.
O interessante é que o personagem Nanetto Pipetta no livro original havia se afogado no Rio das Antas, mas atualmente foi revivido e a história continua percorrendo os diversos municípios de colonização italiana. Novos escritores levam adiante a estória de Nanetto mantendo vivas as tradições dos imigrantes italianos e a língua Talian.
Abaixo um texto escrito por Silvino Santin, professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria. O trecho descreve uma cena típica nas localidades de imigração italiana do interior do Rio Grande do sul: confraternizações de vizinhos. No caso havia um prato especial: marrecões selvagens com sopa, bifes, massas e...tudo regado a vinho caseiro. Claro, cantos e discursos...Vejam um trecho em Talian do Nanetto, agora revivido nos dias atuais, numa cena descrita numa capela do interior e que culmina com uma festa de noivado de dois jovens.





Nanetto Pipetta
Mareconi de tute le maniere e de tuti i gusti
Silvino Santin
Santa Maria - RS


Ma ndemo ai mareconi. Romai i gera tuti pronti. I pi grossi e veci i noea rento el brondon par la supa o la menestra de agnolini. Ghe manchea sol quei del menarosto, che suito el nono Minelo el se ga messo a taiarli, salarli e consarli. Nanetto el ga proà giutarghe, ma no’l ghe tirea rento. Genarino, al veder la bona voia del tosato, lo ga mandà giutarghe a Narciso ndar su al salon dela cesa pareciar le tàole par la doménega de mesdì.
Dopo tuto pronto, tuti stufi, ma contenti, i ze ndai ognuno a casa sua par riposar.
Doménega de matina, verso le oto e meda, le campane le ga sonà i tre segni, de meda in meda ora, come de costume. L’è vero che messa no ghin saria, ma, quando no ghe gera el prete, la ministra Zelinda, che tuti i la cognossea par zia Linda, la tirea le orassion e la ledea le Sacre Scriture e, come la gera stà na bona maestra de scola, la fea anca na predicheta. No ocor dirlo, tuti i ghe piasea parché la parlea ciaro e fianco, e, anca, se qualchedun el volesse parlar, tuti i lo scoltava. No se pol smentegar che i cantori no i ghe manchea. Novo Treviso el gavea la tradission de ver sempre brai cantori. Mantégnerla la gera una question d’onore. El comadante dei canti, da tanti ani, l’era Genarino.
Finie le serimónie, le otanta o sento persone, sensa prèssia, le va fora dela cesa e drite rento el salon. Magnar ghinera par tuti, e d’avanso. Gente, disposta a giutar par finir de meter su la tola, no ghin manchea. Là in fondo la cosina se vedea el nono Minelo comandando quei che i girava el menarosto. Insieme se vedea Nanetto, pi parlando che menando la manivela.
Tuto pronto e tuti a tola. Prima de scomissiar, la zia Linda la ga tirà na pìcola orassion. Ma na sorpresa, Gugelmo, el compare de Genarino e bon de s-ciopetade, el leva su e el dise:
– Vanti scomissiar, Nanetto el ga da far un discorso.
Abramo, el paron dela risera, l’è ndà d’acordo e i tosatei i ga scomissià osar:
– Nanetto! Nanetto! Nanetto!
No ghe gera altro da far. Nanetto, che romai el gavea ciapà coraio co un par de bicereti, el salta su e el scomìssia:
– Sarò corto, parché la fame la ze longa. Vardì in tàola, i mareconi, in vita zolando e magnando riso, valtri lo savì, i par tuti compagni, ma qua in tàola i se presenta de tante maniere. I mareconi i deventa brodo, carne lessa, col col pien, menestra de agnolini, bifi milanesi de peto, carne in tòcio e, sora tuto, gràssie al nono Minelo, mareconi al menarosto. E adesso, cosa che no i ghenavea mai proà, i sentirà el gusto del vin. E bon apetito a tuti.
Tuti i se ga maraveià dele parole de Nanetto e le man le ga s-ciocà de sgorlar i biceri vodi.
Da qua in vanti, poche parole e tanto mastegamento. La léngua, fata par parlar, adesso la laorea par parar do mareconi, polenta e vin.
A mesura che i piati i se svodea, i biceri i se raversea e le mastegade le se fermea, le ciàcole le cressea. Piampianeto un batolamento.
Là par le tante, salta fora Abramo, el paron dela risera dei mareconi, e el osa:
– Narciso, ndove sito? Te sè che mi son vegnesto par via de altri afari.
Narciso, el ciama la Rosina, medo invergognà e sensa parole, el mostra le lianse, e i se le mete sul deo dela man drita. Dopo, el ciama Nanetto, invitando lu e la Gelina par esser i primi compari par le nosse del’ano che vien.
Tuti i volea un discorso, ma nissuni i se ga presentà. Nanetto suito el se tira fora parché lu romai el gavea discursà. Par finir le serimònie, Genarino el ghe ga dimandà, dà che no ghe gera preti, che la zia Linda la benedissa le lianse.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Brasil e Democracia. José Maurício de Carvalho.



Delfim Santos - filósofo portugês

O processo eleitoral terminou muito bem, depois de caminhar não tão bem. Tivemos uma eleição tranquila, o candidato Aécio Neves, com a elegância que lhe é habitual, cumprimentou a Presidente eleita e lhe desejou sorte, ela agradeceu o reconhecimento da maioria, convidou a oposição ao diálogo e entendeu que precisa melhorar a administração do país. Terminamos o pleito como as boas democracias, embora o debate político não tenha tido a qualidade que desejaríamos.
Disse certa vez o filósofo português Delfim Santos sobre os pleitos eleitorais: "A democracia é uma forma de governo e uma nação é democrática quando o respectivo partido (vencedor nas eleições) tem o poder" (Obras Completas, v. I, 1982, p. 39). Vencida a etapa eleitoral, fica para o nosso futuro o aperfeiçoamento do debate político. Ele deverá ser realizado em torno a pontos definidos dos programadas partidários, marcando as posições diferentes sobre os diferentes assuntos. Assim qualificaremos a política, fornecendo sua prática a antevisão do futuro, uma espécie de antecipação do destino nacional. Sem debate político qualificado não temos uma democracia que satisfaça seus membros, pois o que vence num processo eleitoral são teses e não pessoas.
A democracia liberal que adotamos é o regime da liberdade na escolha dos governantes, mas ela não só assegura a escolha pela maioria dos seus dirigentes,  também exige do vencedor o respeito as leis em vigor (estado de direito), à independência dos poderes e ao funcionamento das instituições, em suma, o convívio pacífico e o respeito às minorias na forma da lei. Ninguém está acima delas, se alguém a descumpre deve pagar na forma que a lei estabelece, seguido o ritual estabelecido.
Na hipótese contrária, isto é, se a minoria impor, por caminhos diferentes do voto, (incluídas todas as formas de violência) suas escolhas ou seu programa de governo, passaremos a um regime de autoridade, que nega os fundamentos da liberdade e do mercado. É necessário que isso fique claro. Um regime de autoridade é negação da vida e da luta permanente que a vida faz de adaptação à circunstância e aos problemas.
Não custa lembrar nessa hora pós eleitoral o jurista paulista Miguel Reale. Ele advertia em seus muitos trabalhos, que o liberalismo não é apenas expressão do capitalismo, pois a liberdade econômica por si só não assegura o bom funcionamento do mercado. Além disso, não se pode deixar de lado a liberdade dos menos favorecidos, para que possamos falar verdadeiramente de liberdade positiva. Parece que foi o que também quis dizer Tancredo Neves em lindo discurso de boas vindas feito para os pracinhas no final da Segunda Guerra. Nele Tancredo dizia que eles haviam lutado e vencido pela democracia e pergunta: por qual democracia nossos irmãos arriscaram suas vidas? E dá a seguinte resposta: "pela democracia social e econômica, em que todos quaisquer que sejam as suas origens, o seu credo e a sua cor, seja assegurado, segundo as suas aptidões, a igualdade de oportunidades em busca da felicidade. A democracia do ensino gratuito em todos os graus, inclusive profissional. De uma completa assistência médica e hospitalar para todos os que dela carecem e não possam arcar com as despesas. A miséria é uma afronta aos povos cultos" (São João del-Rei, O Correio, 04.10.1945).
Não há como gozar dos benefícios da democracia e não respeitar suas condições de existência, pois só se meditamos sobre cada um de seus pontos de sustentação entendemos a razão de todos eles. E na democracia liberal, pelo vínculo à tradição cristã do ocidente, proclama a solidariedade nacional pela qual a vida de alguns não se faz distanciada da vida dos restantes. Nada comove tanto a um estrangeiro do que ouvir de um suíço que eles não admitem ver um compatriota na indignidade.  É esse sentimento de solidariedade nacional que a democracia real cria.
Em razão de esse regime ser o sonho de mais de uma geração de brasileiros, da luta de nossos pais e avós por sua implantação, que hoje precisamos cuidar dele como de uma jóia que herdamos. Uma jóia para se lapidar é verdade, pois a democracia como a vida está em contínuo aperfeiçoamento. No entanto, não faz sentido falar em divisão do país, depois de um processo eleitoral maduro, muito menos em explodir Minas para transformar o Estado numa grande lagoa. Aliás de todas as divisões propostas na Internet, nenhuma corresponde completamente ao último quadro eleitoral. E não custa lembrar que Minas é o coração de ferro do Brasil, não seremos lagoa. Porém nossa água, não se preocupem os paulistas, vamos dá-la de graça se a tivermos, isto é, se acordarmos a tempo de impedir a destruição da floresta amazônica e lutarmos contra o aquecimento global.
Assim, concluído o processo eleitoral é hora de deixar de lado a histeria e voltar à rotina e ao trabalho, à seriedade nos compromissos e no amor a essa grande nação respeitando o grande território que herdamos dos portugueses.
Não seria fora de propósito lembrar de nossa história que o nordeste foi durante os primeiros séculos da colonização a região que mais gerou riquezas, as demais viveram em sua função. E quando o eixo da atividade econômica deslocou-se para Minas devido à descoberta do ouro, os paulistas não só fizeram aqui fortuna, mas construíram uma economia agrícola forte em seu Estado para alimentar as pessoas que trabalhavam nas Minas. Foi também o que fizeram os tropeiros do sul. Ao ouvir algumas pessoas se pronunciarem na Internet, os comparo ao irmão mais novo que acabando o curso superior e com bela proposta de emprego, vira as costas ao outro irmão arrimo da família que o sustentou e pagou seus estudos e a mãe que sacrificou para lhe dar o carro novo.

O Brasil é uma só e grande nação. Com limites e grandezas compartilhadas. Somos o que somos juntos. Seremos a nação dos sonhos de nossos heróis se os honrarmos no nosso compromisso diário de superar os desafios que a vida traz. E há por certo muito a fazer.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O NOVO QUADRO POLÍTICO-PARTIDÁRIO DO BRASIL A PARTIR DE 2015. Selvino Antonio Malfatti.



Lembro-me que, quando crianças meus filhos ao lhes comprar algum livro, perguntavam:
- Tem desenhos? 
Se a resposta fosse positiva, vibravam.
 - Oba!

Nesta postagem vou apresentar um artigo em forma de "desenhos". Espero agradá-los e ouvir as interpretações

1.Para a Presidência.
Reelege-se Dilma Rousseff, - do Partido dos Trabalhadores – PT-  com uma pequena e apertada maioria: 51,6%. Portanto, praticamente metade dos brasileiros a apóia e outra metade é oposição. Por isso, tem uma maioria muito restrita. Para governar terá que não só ouvir seus aliados, mas prestar atenção no que a oposição reivindica. 
Pelo mapa vê-se que é incrível como persiste a constatação sociológica de Roger Bastide: Os Dois Brasil.





2.Governadores.
Os partidos que mais elegeram governadores nesta eleição para 2015 foram o PMDB (7), PSDB (4), PT (4) E PSB (4).


 3. Deputados.

O Partido dos Trabalhadores - PT, continua com a maior bancada de deputdos:70 deputados, embora perdesse 18 cadeiras. O segundo é o PMDB com 66, seguido pelo PSDB, com 54. deputados. Em seguida vem o PSD com 37 deputados.






 4. Senadores
O PMDB diminuiu um senador, de 19 passou para 18, assim mesmo terá o maior número deles. O PT também perde um senador e ficará, portanto, com 12 senadores. O PSDB terá 10 senadores, contras os 12 anteriores.




Por isso, bem se poderia concluir que quantitativamente:
"TUDO COMO DANTES NO QUARTEL D´ABRANTES".
embora nas entrelinhas se possa fazer outras leituras.









sábado, 25 de outubro de 2014

O valor ecológico para além do discurso eleitoral. José Maurício de Carvalho


A história mostrou que não é boa prática sonhar com um mundo ideal deixando de lado a vida que brota nos fatos. Em verdade, quando se é um pouco mais vivido, um pouco mais experimentado, aprende-se a cultivar a transcendência que brota da fé na história. A própria Bíblia foi fruto de uma fé assim encarnada, expressão de uma inspiração religiosa que brotou da vida. Contudo, não podemos deixar de lamentar que os candidatos à Presidência da República tenham perdido a oportunidade de explicar o que pretendem realizar para fazer uma revolução no modo de lidar com a natureza. Talvez não queiram fazer nada e isso é um desastre ou produzirá um.
Qualquer pessoa minimamente informada fica inconformada com o modo como a seca no sudeste foi explorada nessa campanha eleitoral, se não diretamente pelos candidatos, pela militância espalhada nas redes sociais e por assessores, escondidos do palco principal. É claro que a responsabilidade da seca não é isoladamente do governo paulista ou do governo federal hoje administrado pelo PT. Não faz sentido frases como as que se encontram nas redes sociais: "no governo do PT nem chove" ou "Nem a chuva gosta do governo do PSDB". Frases assim desviam a atenção do que verdadeiramente importa, construir uma nova relação com a natureza. Na raiz de qualquer ação futura tem de estar o reconhecimento da preservação como um novo valor que brota no horizonte da história.
Estabelecer com urgência um programa de desmatamento zero e começar um responsável projeto de reflorestamento é o que se espera de qualquer governo sério, não importa a sigla partidária, diante da enormidade do desafio que estamos enfrentando. E como é muito fácil e lucrativo derrubar árvores centenárias para vender sua caríssima a madeira, o enfrentamento dessa ação imoral e ilegal só se consegue com monitoriamente efetivo e uma força policial eficiente e ágil.
Para vivermos uma esperança razoável não podemos contar com nenhum movimento automático das forças da sociedade, nem esperar a boa vontade dos exploradores dessa madeira ilegal, nem contar  com a revolta de ecologistas enfurecidos para atacar os madeireiros. Nenhum desses movimentos produzirá resultado satisfatório além de algumas mortes indesejáveis e a continuidade da exploração pelos mesmos (se matarem os ativistas) ou por outros madeireiros (se forem mortos pelos ativistas).

Se a esperança racional no reconhecimento do valor é o que se espera de todo homem e a moral é o fundamento último para resguardar a natureza e o futuro do homem, é razoável nossa fé e esperança. No entanto, para aqueles que não reconhecem o limite moral da ação, nem as leis já existentes, é necessário ter uma resposta capaz de  mudar o rumo dessa história. Até agora nenhum governo federal ou estadual levou a sério a questão, não importa o que digam em suas propagandas. E se não formos sensíveis aos apelos da razão e aos comunicados dos sentidos, seremos com certeza quando a falta de água chegar a nossas torneiras. Esperemos que então não seja tarde demais para começar a agir.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O SENADOR GAÚCHO PEDRO SIMON. Selvino Antonio Malfatti





A forma como é exercido um mandato político varia de uma pessoa para outra dependendo de várias circunstâncias. A mais marcante, no entanto, é o caráter da pessoa ou a pessoalidade própria de cada uma. 

Como numa equipe de futebol em que uns são atacantes, outros meio-de-campo, outros pontas e ainda há os da defesa. Na política ocorre algo análogo. Uns se destacam por realizar, outros por ter idéias, outras por mandar ou comandar Ha os cobativos, os apaziguadores...Mas há uns poucos que possuem um carisma especial: a vigilância ou a defesa. Estes estão sempre atentos ao que aconteceu, acontece ou poderá acontecer. Estes estão de prontidão sempre, como o quero-quero nos pampas gaúchos. Uma dessas figuras, de vigilantes, de defensores, de vigias na política certamente é o senador gaúcho Pedro Simon. Toda sua trajetória política foi “em defesa de...” Ele não realizou grandes obras, mas impediu que as ruins acontecessem, o que já é muito.

Natural do Rio Grade do Sul cujo estado sempre contribuiu com destacados estadistas tanto no Império como na República. No primeiro período podemos citar Gaspar Silveira Martins, já no segundo a participação do Rio Grade do Sul é mais acentuada tanto pelo número de governantes, como pelo tempo de ocupação de cargos e até mesmo pelas realizações dos governos. Bastaria mencionar Pinheiro Machado, Getúlio Vargas, João Goulart, Paulo Brossard e evidentemente Pedro Simon.
Pedro Simon

Ele foi senador da República por 32 anos. Natural de uma colônia de imigrantes italianos, Caxias do Sul, nasceu no ano da revolução de um conterrâneo, Getúlio Vargas. O ingresso na política através das eleições, dá-se em 1959, como vereador em Caxias do Sul. Em seguida, 1962, elege-se deputado estadual permanecendo neste cargo por quatro mandatos. Em 1978 é eleito senador. Exerce a função de ministro, 1985, passando a governador do Estado em 1987, quando, em 1990, inicia os sucessivos cargos de senador, exercendo esta função ao todo por 4 mandatos. Neste pleito de 2014 não consegue reeleger-se e deixará o senado em 2015, encerrando sua carreira política como representante.

Talvez o período de maior participação de Simon como parlamentar e defensor do estado de direito tenha sido na vigência do AI-5, em 1968 e ano seguinte. O Congresso e as Assembleias estaduais foram fechados com exceção da Assembléia riograndense. O estado gaúcho tornou-se o único estado com tribuna. Havia também apenas dois partidos permitidos: MDB e ARENA. O MDB abrigava todos os que faziam oposição: liberais-democratas, socialistas, comunistas, guerrilheiros etc. A ARENA congregava os que davam sustentação ao governo, deste a extrema direita até democratas sinceros que queriam um estado de direito. Num Congresso do partido MDB, no Rio Grande do Sul, que teve a participação marcante de Simon foi decidido que lançariam a campanha pelas “Diretas Já”, o fim da tortura, a liberdade de imprensa e a Assembleia Nacional Constituinte. Se o objetivo primeiro, das Diretas, não foi alcançado, contudo foi possível o lançamento da candidatura de Tancredo Neves que venceu o candidato da ARENA e possibilitou a Abertura Política pondo fim ao regime militar. Durante seus mandatos de senador, Pedro Simon sempre esteve presente na defesa da ética, nas decisões referentes à economia, na defesa dos direitos humanos e promovendo os interesses de seu estado.

Atualmente Simon está ressentido com os rumos que seu partido tomou após a morte de Tancredo Neves. Antes, quando MDB, pautava-se pela ética, não fazia o jogo mercantil, não pactuava com corrupção. Agora o PMDB, pensa, gostou do poder, se incrustou nele e não quer largar mais.
Abaixo alguns cargos exercidos por Simon, sempre na busca do respeito à pessoa humana e na defesa do estado de direito.

Funções Políticas

A)   Executivas
- Governador do Rio Grande do Sul (1987-1990)
- Ministro da Agricultura (1885-1886)

B) Legislativas
            - Vereador por Caxias do Sul (1960-1962)
            - Deputado Estadual pelo Rio Grande do Sul (1962-1978)
            - Senador da República do Brasil (1979-1982, 1991-1999, 1999-2007,           
               2007 – em exercício - 2015 )

C)   Comissões e lideranças
- Líder da Bancada do PTB, Caxias do Sul (1960)
- Líder da Bancada do PTB, MDB e PMDB Rio Grande do Sul (1962)
- Líder do governo Itamar Franco, no Senado  (1992-1994)
- Membro da Comissão Educação, Assuntos Econômicos, Assuntos    
  Sociais e Constituição, Justiça e Cidadania (1992-1994)

- Presidente da Subcomissão do Senado de Análise das Causas da Impunidade (1993) entre outros.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Filosofia e a Vida. José Maurício de Carvalho







Viver é experiência comum a homens, plantas e animais. A vida do homem, contudo, tem algo diferente das outras vidas e muito já se disse desta singularidade. Há algum homem é possível deixar passar os dias como fazem plantas e animais, permitindo a vida fluir como se fosse a automática rotação da terra. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é um movimento inercial e ela implica em pontos de perspectiva e sentido para o que fazer.
Um ponto de perspectiva é um momento especialíssimo. Temos poucos deles em nossa existência. As pessoas mais amadurecidas talvez experimentem uns quatro ou cinco. São aqueles momentos nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha ou quando nossa existência dá uma reviravolta completa na direção de algo que parece maior e mais significativo. Jesus de Nazaré viveu um momento assim quando saiu das águas do Jordão depois de batizado por João. Ali inicia sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e os pequenos trabalhos que realizava em sua cidade e região.
Ocorre algo assim quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza; uma relação confortável, mas que não nos faz feliz; quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que a vida não valeria muito ser vivida.  A rigor o ponto de perspectiva mais importante é o do momento da morte, se ocorre quando estamos consciente, quando tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, quando a vida que tivemos mostra seu resultado. Nessas ocasiões o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham no momento vivido. As escolhas passaram a fazer parte de mim, mesmo que eu não tivesse consciência do fato no momento em que escolhia.
O sentido é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não é como seguir uma receita de bolo em que vamos adicionando ingredientes já selecionados para produzir uma mistura já conhecida e provada, a questão do sentido é sempre importante e se faz presente na vida, ao menos em ocasiões especiais. E como nosso que fazer não tem roteiro prévio, vivemos inseguros com nossas escolhas. Inseguros dos resultados, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido aquele relacionamento com a linda menina ou menino de olhos verdes que conhecemos na juventude, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largar para tentar algo novo. Enfim, o Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, se o leão segue seus instintos para fazer mais leãozinhos e para lhes levar o alimento caça nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva.
E entre as dúvidas que tem muitas referem-se a questões morais que a reflexão filosófica adensa e aprofunda. Por exemplo: até quando continuaremos a explorar nosso ambiente a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando pior não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando o lugar privilegiado nas filas, ganhando benefícios imerecidos, querendo aposentadoria sem trabalho e ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando aceitaremos a violência?
Dúvidas não nos faltam porque somos um feixe de perguntas, e há aquelas que não tem significado moral mais metafísico ou gnosiológico: será que conhecemos com precisão o mundo, poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido a alguns elementos que lhe dão fundamento? Como resolver nossos conflitos sociais?
Enfim, para tudo isso com o que lidamos em nossa vida e em última instância com ela mesma, a Filosofia pode ajudar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas pode torná-la melhor. Pode nos ajudar a fazer escolhas, a entender melhor. Não uma Filosofia distanciada da ciência moderna, mas feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia que ao lado da ciência, mas diferentemente dela se obriga a sempre renascer, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida.

A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma maneira de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que é e se relaciona com a realidade. E quando pensa sua vida a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva.

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