sexta-feira, 15 de julho de 2016

BRASIL. UMA SOCIEDADE NA UTI. Selvino Antonio Malfatti




A sociedade brasileira atualmente está como alguém em estado terminal na UTI.A análise não abrange a totalidade, mas o geral. Uma sociedade que está perdendo motivação, entusiasmo, espírito de equipe, e por isso está perdendo sua força vital. Demonstra diminuição, quase extinção, de esforço, vontade de trabalhar, energia: os órgãos responsáveis pela organização estão seriamente comprometidos, como raciocínio e memória. Eles são responsáveis pela direção. O país de modo geral perdeu o pensamento, o cérebro que dirige a sociedade. Falta acionar a mente para se colocar projetos de médio e longo alcance. Perdemos o coração, representado pelos recursos humanos, tanto pela evasão de capacidades como desperdício com recursos mal empregados. Os trabalhadores, os braços da sociedade, já não sentem aquele entusiasmo, ideal. Não diga com visão de todo, mas até para si e suas famílias. Trabalham somente pelos salários. As pesquisas, com projeções futuro, como o sistemas nervosos que garantem vida longa e saudável, deterioram-se e mal sobrevivem ao presente. A sociedade engessou o sistema circulatório com a falta de integração entre processos e pessoas. Com isso, o sistema imunológico, através dos órgãos linfáticos da vida social, parou de garantir a saúde social. Em consequência, o organismo social, está seriamente avariado. A vida social sofre com os processos sociais, verdadeiros sistemas circulatórios. Pois falta a integração entre as pessoas, instituições e sistema político. A sociedade, analogicamente, está sofrendo o stress, dores de cabeça, problemas psicológicos e desequilíbrios de toda sorte.  Evidentemente isto não tem nada a ver com a interpretação do avanço do Planeta Nibiru. 
Friso, não a totalidade da sociedade, mas a generalidade. Por isso, é preciso diagnosticá-la e promover um tratamento terapêutico tão rigoroso quanto caso merece. O que é preciso fazer para reverter o quadro o salvar o paciente? Voltar à educação cívica e ética.
Nenhuma pessoa isolada e nenhuma sociedade como um todo nascem com uma cultura cívica pronta. Ela é adquirida ao longo da vida e provavelmente por toda a existência. Em que momento se daria início a educação da cidadania? Há um consenso dos pensadores na resposta: desde o nascimento. É nos braços da mãe que o futuro cidadão está recebendo inconscientemente os hábitos elementares de cidadania. Por isso o cidadão ético começa a ser preparado desde a mais tenra idade. Começa pela família pela qual, conforme pensa Weber, as crianças aprendem as regras através da autoridade paterna ou materna. No momento em que as crianças ingressam na escola a ética é aprendida em sintonia com as habilidades cognitivas básicas tais como ter posturas corretas quer de pé, quer esteja sentados. Aprendem que é necessário respeitar regras como esperar a vez para falar e ouvir os demais em silêncio.
Numa segunda etapa as regras ético-morais são assimiladas nos grupos e associações, através de papéis que eles mesmos e os demais desempenham neles. Neste momento escola e comunidade interagem. Num clube de lazer o pré-adolescente é um “associado” e como tal lhe competem por lei direitos e deveres, mas há também regras éticas com seus iguais e superiores, tais como lealdade, honestidade, solidariedade, cooperação e outras. Além disso, podem desenvolver o senso crítico avaliando a própria conduta, de seus pares e de seus superiores. Se um superior não cumpre com suas obrigações ou cumprindo de tal forma que vai além delas isso servirá para refletir e discutir sobre o agir. Isto leva a despertar uma aspiração para agir de acordo com os princípios da justiça, pois se constata que o agir correto favorece a quem o pratica, tanto no aspecto pessoal como social. O agir correto começa a fazer parte do normal e o mal, o reverso. Passa-se a gostar do agir ético e sentir prazer com a justiça.
No terceiro momento, o indivíduo passa assimilar os princípios éticos em si, sem necessidade de ter pela frente um modelo material. Agora a justiça, a honestidade, solidariedade são valores em si e aceitos como bons porque racionalmente são bons. Quando tivermos cidadãos que amarem a justiça pela justiça quando se tornarem políticos teremos uma política ética. Este cidadão-político saberá respeitar as diferenças: étnicas, religiosas e ideológicas.  Gerenciará o patrimônio público: erário, prédios, artes. Distinguirá as esferas dos poderes: executivo, legislativo e judiciário, bem como sua hierarquia. Entende-se que, se obtivermos através da educação, um cidadão que é um colega solidário, um administrador fiel, um religioso devoto, um profissional competente, um burocrata compreensivo e também um político honesto.

A educação para ética deverá atingir o cidadão em três dimensões: sua vida, seu projeto e sua atividade profissional. A primeira questão é tipicamente existencial, isto é, está afeta ao âmbito íntimo. É uma cosmovisão pessoal diante da vida. A segunda diz respeito àquilo que cada um se propõe como ideal de vida, isto é, um objetivo que alcançado dará satisfação. E o terceiro, como decorrência do segundo, a vivência. Não há uma dissociação entre estas três dimensões. Elas estão assentadas sobre uma filosofia ética como ponto de partida, de trânsito e de chegada. A ética é o meio e o fim da vida, do projeto e da cidadania. Este será o cidadão projetado pela educação que trará, como consequência, o homem desejado para a polis..