sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Globalização e fronteiras. José Mauricio de Carvalho








A notícia da semana foi a autorização de Trump para a construção de um muro na fronteira americana com o México. O Presidente Americano prometeu durante a campanha eleitoral e autorizou esta semana. Surgiram críticas de todo lado. No entanto, esse muro já existe e se estende por boa parte da fronteira entre Estados Unidos e México. Ele está de pé há tempos. O que Trump quer fazer é estendê-lo mais um pouco. Não parece motivo nem de surpresa e nem de admiração. Também não faz sentido compará-lo com o muro que dividiu Berlim, aquele erguido com propósito político diverso, parte da Guerra Fria, levantado para dividir uma nação, separar famílias e amigos. Também não se pode compará-lo com o muro feito por Israel que proteger o país de inimigos que declaradamente tentam destruí-lo. O muro americano não se compara a esses, ele é materialização da exclusão do estrangeiro porque é estrangeiro e pobre.
O que é motivo de escândalo, se há algum, não é a construção de um muro para proteger fronteiras, afastar terroristas ou malfeitores, ou aindacontrolar a entrada de traficantes, armas, drogas, etc. É pena que nosso país não consiga controlar suas fronteiras, com ou sem muro,e com isso entrem diariamente no país drogas e armas. Elas destroem por dentro a sociedade pela violência das armas e pelo aniquilamento psíquico das pessoas. O motivo de escândalo não é o muro físico que, em parte, já existe, mas o muro do preconceito e da discriminação que nasce no coração dos homens quando eles não se sentem parte de uma humanidade comum. E esse muro que divide os homens não foi Trump que levantou, pelo menos não ele sozinho. Esse muro ele não tem poder de levantar nem de jogar no chão. Esse muro é erguido quando, por qualquer preconceito, alguém se julga melhor que outro, mais bonito, mais santo, mais digno. O mal do muro americano, que inclusive já existe, é que a edificação material, reflete o desejo de afastar o estrangeiro. É parecido com o muro que se levanta no Brasil quando os pobres (não estou me referindo a malfeitores) são excluídos dos lugares públicos em praias exclusivas, shoppings, etc. É o muro que se levanta contra o nordestino e o pobre. Esse muro é que deveria escandalizar.
O processo de globalização, que começou com as caravelas ibéricas e a colonização da África, América e Ásia, continua seu curso. Com alguns movimentos contrários, mas seguindo sempre em frente com as contradições que marcam a existência humana. A globalização cultural e econômica está padronizando padrões de consumo, está fabricando uma sociedade de massa universal que, paradoxalmente, alimenta o hiperindividualismo e o consumismo extremo. Nesse mundo de hoje as pessoas se identificam com marcas de roupa, bolsas, perfumes, joias, carros e sapatos. O muro é entre os que usam e os que não usam.Não se alimenta o diverso que pode ser diferente, a singularmemória coletiva dos povos, as tradições e produção cultural dos grupos nacionais. Esse muro enriquece os homens não porque os diferenciam, mas porque não os afastam. A diversidade cultural é riqueza que pode ser compartilhada e beneficiar as pessoas.
Não o pode o muro que exclui pela riqueza. Como são feitas as coisas? Um produto fabricado atualmente na Ásia, tem parafusos africanos, utiliza eletrônicos norte-americanos e demais componentes locais, mas rende 80 por cento para países ou organizações que o projetaram.Esse mundo global deu origem a cadeias globais de valor, produzindo em diferentes localidades eletrônicos, têxteis, veículos, equipamentos eletrônicos e até alimentos. A produção é global, mas a riqueza não é muito bem repartida.
Se o processo de globalização dos costumes e da produção é o atual caminho civilizatório da humanidade, se a todos vão ser oferecidos os mesmos filmes, bandas, costumes e produtos, o muro mais triste é o que separa os que podem e os que não tem acesso a esses bens. De tal modo que o muro físico dos americanos não parece ruim porque delimita uma sociedade com tradições e cultura próprias ou porque oferece segurança contra malfeitores, mas porque materializa a divisão nos corações dos homens.