sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Que bubiça, um conceito para nossos dias. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.












Estudos de Filosofia e sobre a atual crise de cultura mostraram que não se pode perder o contato com a inspiração inicial para pensar, aquele encantamento com o mundo descrito pelos gregos, ou se mergulha em bobices. Os filósofos mostraram que há grande distância entre o que se pretende e o que se consegue exprimir. É que, ao mergulhar na realidade mesma, percebe-se o mistério que a envolve. Flusser em A dúvida escreveu que, quando se pretende tocar o núcleo da realidade (FLUSSER, 2011, p. 91): trememos, porque essa é a tentativa de uma descida até as nossas raízes. É o que Goethe chama, em Fausto, de descida para junto das mães.”
Cada pensador encontrou um modo de descrever a dificuldade de tocar o real e das bobices que emergem quando não se faz isso. Ortega y Gasset, no livro Que és Filosofia? escreveu que somente se consegue falar do essencial por aproximação. Ele comparou o esforço para dizer o essencial com o episódio bíblico do cerco de Jericó, resumido como se segue (CARVALHO, 2016, p. 117): “Na caminhada para Canaã os hebreus, em fuga do Egito, deparam-se com a cidade de Jericó, que impedia a continuidade da jornada. Josué orientou ao povo a orar em volta de muralha durante sete dias, cada dia apertando mais o cerco. Eles esperavam que as muralhas caíssem no sétimo dia.” Foi o que ocorreu. Ao usar o cerco de Jericó como metáfora do dizer o essencial, Ortega ensinou que é necessário pensar várias vezes os mesmos assuntos e, assim, aperfeiçoar a comunicação do que importa. Outro autor, Rodolfo Mondolfo, diferenciou a verdade mesma da forma como ela é retratada e o alemão Karl Jaspers dizia que não podemos abandonar a terra firme, mas devemos alçar voo ao transcendente para falar do que vale a pena.
Houve ainda quem cuidasse mais diretamente da linguagem para não dizer bobices inúteis. Os estudos de lógica de Wittgenstein e Carnap e as análises fenomenológicas da fala feitas por Heidegger e Sartre são exemplos disso. Eles advertem que se deve cuidar do que se diz para não falar bobices.
Um pouco menos metafísica, mas igualmente profunda, a filósofa guaraniense, Dona Maria lavadeira, também examinou o assunto. Depois de viver quarenta anos com o Sr. José foi convidada, num esforço de moralização local, a casar-se oficialmente com o companheiro e, no meio da cerimônia, quando se deu conta do seu objetivo, exclamou: que bubiça é essa? Completou assim o insight de lógicos e gramáticos de que não somente se deve evitar o que não toca o essencial, mas que é melhor não dizer, ou fazer, o que, por ridículo, é desnecessário ou pura bobice.
A lei áurea dessa filósofa guaraniense foi sucessivamente posta à prova no portal de notícias de uma das maiores redes de comunicação do país nesse carnaval. Durante os dias de festa essa rede estampou, como notícias nacionais, entre outras de igual valor, as seguintes pérolas: Anita deixa bumbum de fora em visual para brincar na Sapucaí; famosos curtem carnaval e beijam muito; use o superzoom e veja mais detalhes de várias musas; musa do tapa sexo de 5 cm volta a avenida; Marcella Rica e Vitória Strada dançam juntas na Sapucaí; se eu pudesse ousar mais eu ousaria, diz Nicole Bahls; Sato usa biquíni de banana inspirado em Josephine Baker; Jojo Todynho ousa com topless na Sapucaí; Vivi Araújo beija namorado e relaxa: agora vou curtir mais; de férias Gentil e mulher fingem ser só amigas em Dubai.
Diante dessas assertivas, houve quem visse Dona Maria lavadeira cabisbaixa resmungando: o mundo está perdido, a bubiça está crescendo.


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