sexta-feira, 23 de maio de 2014

A metamorfose da animalidade para a humanidade e politicidade. Selvino Antonio Malfatti




A atividade do homem se manifesta sob duas formas: a ativa e a contemplativa. A contemplativa, porém está condicionada à ativa. Para que possa se dedicar à contemplação o ser humano necessita de um satisfatório funcionamento biológico, de produção suficiente de coisas, ambiente, enfim, condições propícias para subsistir. O contemplativo está condicionado ao ativo.
O homem se torna homem na convivência com seus semelhantes. Ele, mentalmente, com cada ser humano, continuamente se faz ser humano. A evolução biológica aconteceu, e pronto. Mas a evolução da consciência acontece continuamente. E como acontece? Através da interação, da passagem cultural de uma geração para outra, de uma pessoa para outra.Embora ele possa laborar solitariamente, pode construir um mundo habitado só por ele no entanto,  o relacionar-se,  o interagir,  unicamente pode ocorrer com seus pares. Até mesmo para que possa alçar-se à condição contemplativa, necessita preencher a condição ativa, isto é, uma vida específica, um ambiente cultural e uma história. Estas três realidades constituem a condição humana, sem a qual, o ser humano não poderia desabrochar. Elas são as condições da sua existência,  que possibilitam transpor a vida ativa para a vida contemplativa.
Isto significa que os homens não nascem homens, mas se fazem no decurso de suas vidas. Eles são um eterno “fieri’ do nascimento à morte. A partir daí, o homem não faz parte das coisas, embora sua existência está condicionada a elas. É com elas que ele pode tornar-se distinto delas. As coisas são ferramentas para o homem desprender-se delas. O homem precisa de artefatos terrenos para abandonar a Terra’, Preenchida a condição ativa o homem pode lançar-se à contemplação. Esta se faz pela racionalidade ou representação. A racionalidade se propõe fins no agir humano. A racionalidade se opõe ao instinto que, ao invés de prever a ação humana, determina-o. Os instintos passam a substituir os valores ou os fins racionais. Eles deslocam o sentido racional e os valos que deles decorrem degradam o homem e substituem a humanidade pela animalidade, inclusive com a colaboração da razão. Nisso consiste a corrupção do homem. Da mesma forma que alguns fósseis vegetais, através do processo de mineralização, transformaram-se em pedras, alguns seres da natureza animal tornaram-se seres humano. Então, enquanto a evolução fisiológica aconteceu uma vez, a cultural acontece com cada ser humano.
A convivência humana é formada de relações e de passagens intermediárias, como vida familiar e a vida social e desta para a política. Evidentemente que, uma das mais significativas é a relação entre o homem-cidadão e o homem-político. Sobretudo porque são esferas distintas,  embora continuadas. O cidadão preexiste ao político. O político, inclusive, depende da  maneira que foi preparado como cidadão. Por isso, o conjunto e o resultado das ações que preparam o cidadão constituem a cultura cívica, O cidadão é um político potencial.

Como  cidadão, ele estende seu agir aos mais diversos espaços da vida humana: à economia, religião, profissão e política. Nessa ação, ele age, de acordo com a cultura na acepção kantiana que diz: “...a capacidade de escolher os próprios fins em geral (e, portanto, de ser livre) é a cultura.” Esse é o sentido da paidéia grega ou humanitas latina, a qual indica um agir específico do homem em oposição ao animal, criando um ethos cívico, ou o”animal político’ segundo Aristóteles.