sexta-feira, 13 de novembro de 2015

JUSTO MEIO ENTRE A XENOFOBIA E A SUBMISSÃO CULTURAL. José Maurício de Carvalho





Ontem bateu à porta de casa uma simpática menina vestida de bruxa. Ao ser atendida soltou logo: trick or treat. Consegui entender que era a festa de Halloween. De início fiquei surpreso com a simpática bruxinha. Preferi dar os doces já que não conhecia seu poder de fazer travessuras. Depois comecei a pensar em quantas vezes em minha vida passei por situação semelhante nesta antes cristã cidade de São João del-Rei. Não foi preciso muito tempo para concluir que em meus quase sessenta anos de vida jamais passei pessoalmente por semelhante situação. Vi coisas assim nos filmes norte americanos. As crianças daqui se fantasiavam de anjos e seguiam as procissões durante o ano (31 de outubro é o dia de Nossa Senhora do Rosário) ou de índios, odaliscas, piratas e personagens como esses no carnaval.

E o que é a festa de Halloween da simpática bruxinha? É uma comemoração de origem celta com mais ou menos 2500 anos de existência. Segundo a crença celta, em 31 de outubro, os espíritos saem do cemitério para se encarnar nos vivos e voltar a vida, ocupando um corpo que não lhes pertence. Tem origem celta os britânicos, norte americanos e canadenses. Pois bem, conta a lenda que para assustar esses espíritos invasores (e desocupados do além) os celtas decoravam as casas com o que acreditavam seria capaz de espantar essas almas penadas: ossos, caveiras, abóboras enfeitas com ossos e/ou representando figuras assustadoras. As crianças entravam na festa se fantasiando de bruxas, dráculas e outras coisinhas semelhantes com o mesmo propósito de espantar os espíritos vagantes. Como festa pagã jamais entrou na Europa católica, sendo as pessoas acusadas de bruxaria mortas nas fogueiras. Foi um triste capítulo do catolicismo medieval a queima das bruxas, espetáculo de ignorância que não pode se repetir. Explica,contudo, porque a festa não chegou a Europa continental e nem em suas colônias, pois representavam crenças contrárias aos ensinamentos das igrejas cristãs. De todas elas. Porém, sobreviveu entre os povos de origem celta, apesar de se converterem ao cristianismo. Ficou como parte do folclore local, coisas de esquizofrenia cultural, que também ocorre em outros povos. No caso, a festa é mais comemorada nos Estados Unidos do que entre outros países de origem celta.

Nesses últimos anos, como forma de difundir a dominação cultural norte- americana, os cursinhos de inglês promovem entre seus alunos essa brincadeira macabra que nada tem a ver com a tradição cultural de nosso país e/ou com nossas crenças. Na internet houve uma reação tímida às comemorações do Halloween com referência ao dia do Saci. De fato 31 de outubro é o dia do Saci Perere, aquele moleque travesso criado pelo imaginário das tribos indígenas do sul do Brasil, que acabou sendo representado como negro, com gorrinho vermelho e cachimbo. Na transformação que sofreu o Saci perdeu uma perna jogando capoeira. O Saci é a encarnação do menino travesso que se diverte com animais e pessoas: queima o feijão da cozinheira, esconde objetos pelas casas, assusta crianças e animais, etc.

Achei criativa a lembrança do Saci, mas o foco, parece-me, deva ser outro. Não se trata de recusar tudo o que vem de fora, seria xenofobia. Nem queimar bruxas, seria fazer piada com um triste passado de que devemos pedir perdão. Porém é preciso receber os elementos culturais importados com crítica. Dos americanos, por exemplo, podemos aprender a limpeza, o amor ao trabalho, a seriedade nos compromissos, a  cidadania, o respeito aos símbolos nacionais. Seria ótimo. Eles têm também filósofos como Ralph Waldo Emerson, Ernst Nagel, Eric Voegelin, John Rawls e escritores criativos como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Trumam Capote e John Hersey. Todos merecem ser lidos e estudados. Há também músicos e cantores de talentos como Nat King Cole, Whitney Houston e Sinatra que podemos apreciar. Nesse sentido, conclamo o cursinhos de língua inglesa de nosso país a divulgar essa face universal da cultura americana, além da língua inglesa, que é importante veículo de comunicação. Universal é aquilo que atinge o mais alto e nobre do humano, para além da circunstância em que foi produzido. Quanto a festa de Halloween melhor deixar os espíritos vagantes dos celtas para lá. Temos coisas mais interessantes para aprender e viver.