sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

NATAL E FÉ. Selvino Antônio Malfatti


                                                 

 Alegoria da , por L.S. Carmona

Pouco a pouco o clima natalino vai tomando conta dos cenários. Inicia com as chamadas comerciais, com a ornamentação, com a música, TV, rádios, jornais revistas. Expande-se e envolve todo o ambiente e quando se vê se está dentro do Natal.
Não é deste Natal, porém, que queremos falar, mas do outro, daquele da Fé. Esta entendida como uma aceitação de outra dimensão da realidade. Pela fé se acredita no sobrenatural. É a mensagem deixada por Bento XVI em Porta Fidei - por ocasião do anúncio do Ano da Féconvidando o mundo para ingressar na fé proclamada pelo Cristianismo.                   
Há diversos modos de chegar à fé e também de perdê-la. A primeira forma de fé é aquela que se instala nas pessoas ao natural. Quando se dá conta faz parte da vida. Ela penetra na alma através do leite materno, do ambiente familiar e social. Esta fé não se adquire, nasce-se com ela. É uma fé sem ruptura, pacífica. As decorrências e conseqüências seguem um fluxo normal dentro do meio que se vive. É uma fé de Santo Tomás, de São Francisco, de Santa Clara e de Santa Ana.
A outra se origina do conflito. Há um passado que precisa ser sepultado para poder dar espaço a ela. Esta fé nasce da violência consigo mesmo e com o meio. A partir da opção pela fé passa-se a queimar os antigos deuses e adorar o que se queimou no passado. É uma fé de São Paulo e de Santo Agostinho.
Há então duas direções na relação entre fé e razão: uma que parte da fé para a razão e outra da razão para a fé. Geralmente quando se chega à fé pelo segundo caminho, ao da razão para a fé, esta não se a perde jamais. O primeiro caminho, o da fé para a razão, é aquele que mais leva a perda da fé. Pelo segundo, a razão sente-se insatisfeita, inquieta, frustrada pelas respostas às questões existenciais. Pela primeira, a razão se sente quase traída pelas soluções propostas pela fé. A razão que busca a fé dificilmente voltará atrás, mas a fé que busca a razão às vezes retrocede e se torna descrente ou ao menos sente mais dificuldade para conciliar razão e fé.
A fé é a transposição da incerteza do fenômeno para a certeza da verdade. A razão é a dúvida da certeza perante o fenômeno. A fé faz a passagem daquilo que é apenas uma hipótese, uma aparência, um indício para uma certeza. A razão se nega a atravessar o mundo do fenômeno e acatar a certeza. A certeza para a razão nunca existe a não ser a certeza da incerteza. A fé faz a passagem e após ela encontra a razão. A razão não encontra a fé, mas esta encontra a razão. A fé é uma antinomia da razão, mas a razão não o é da fé.
Feita a transposição da razão para a fé, tudo se torna mais fácil. A mente parece iluminar-se e a razão passa a perscrutar com infinita liberdade as magnas questões da ciência. A discussão atual, por exemplo, sobre a origem do universo através do Big Bang foi antevista por Santo Agostinho há quase dois mil anos: a ausência de tempo e espaço antes da criação. Tudo era nada e Deus não fazia nada e não, como diziam os céticos, preparava o inferno para os descrentes, como alguns queriam brincar com questões tão sérias. Se a fé precede a razão cronologicamente, a razão, posteriormente, fundamente cientificamente a fé. E enquanto houver fé, haverá sempre esperança de caridade.
O Natal é um ato de fé, quer entendamos e cremos, quer cremos e entendamos, numa nova relação entre Deus e o homem.