sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

UMA SOCIEDADE DE CIDADÃOS-PROPRIETÁRIOS EM JOHN RAWLS. SELVINO ANTONIO MALFATTI - professor titular da UFSM

 



Para Rawls a justiça social não pode ser atingida nem pelo capitalismo do laissez-faire, nem pelo welfare state e nem pelo socialismo. O que de fato pode propiciar a justiça no âmbito social é a democracia de cidadãos-proprietários. Sugere que também pode ser alcançada através do socialismo liberal.

Privilegiamos para nossa análise a democracia dos cidadãos-proprietários, visto que esta ideia encontra guarida em John Locke ao afirmar que somente o proprietário é um membro pleno da sociedade (full member). Para ele, a propriedade e somente ela, pode propiciar liberdade ao indivíduo. Mas, o que é a propriedade para Locke? Diz ele que a primeira propriedade e da qual se originam todas as demais é a própria pessoa. Minha pessoa é minha primeira propriedade e com ela adquiro as demais.

O que Rawls entende cidadãos proprietários? A ideia de cidadão proprietário não contempla a distribuição equitativa da propriedade privada dentre os cidadãos, ou a abolição da propriedade privada com a instituição da pública, mas uma dispersão da propriedade privada entre os cidadãos através da redistribuição de riquezas presentes no mercado. Conforme Rawls:

“a  democracia  de  cidadãos-proprietários  garante  as  liberdades básicas  juntamente  com  o  valor  equitativo  das  liberdades  políticas  e  a  igualdade  de oportunidades,  e  regula  as  desigualdades  econômicas  e  sociais  por  um  princípio  de mutualidade,  se  não  pelo  princípio  da  diferença”.

Rawls procede uma crítica aos sistemas econômicas e suas instituições: O capitalismo do laissez- faire somente proporciona garantias formais esquecendo-se das reais, liberdades políticas e liberdade equitativa de oportunidades. O socialismo estatal, por sua vez, timoneado por um partido, viola a igualdade de direitos e as liberdade públicas. A terceira opção, o capitalismo de bem estar social, em que pese preocupação com a igualdade de oportunidades e encampar provisões de mínimo social deixa à mercê dos grandes proprietários a propriedade real, ficando presa fácil desses conglomerados econômicos.

O que é, então, a democracia de cidadãos-proprietários em Rawls?

Primeiramente é necessário preencher três condições: 1. Ampla dispersão de capital, com cidadãos controlando parcelas substanciais e iguais do capital produtivo: humano e não humano. 2. Proibição de transmissão de capitais entre gerações como heranças e doações. 3. Salvaguardas contra a corrupção, com vigilância sobre financiamento público, partidos políticos, campanhas eleitorais, através de fóruns para debates políticos.

Através do sistema de cidadãos proprietários Rawls quer garantir a coexistência das liberdades básicas, da igualdade e da democracia, isto é, os valores da liberdade, a igualdade equitativa de oportunidades e regular as desigualdades econômicas e sociais pelo princípio da mutualidade ou pelo princípio da diferença. Ao dispersar a propriedade garante que ninguém possa se apossar do todo, como pode acontecer no capitalismo através de particulares ou no socialismo, através do público. O regime de cidadãos-proprietários situa-se entre ambos: nem domínio do privado, nem do público sobre a esfera do cidadão.

Num regime de cidadãos-proprietários é essencial que aja um sistema de assistência e saúde universal para atender ao princípio da igualdade equitativa de oportunidades.

Nesse modelo e outros os cidadãos não estão interessados apenas em seus salários, mas em todo o bem estar que possa dispor e gozar. Os próprios cidadãos sentir-se-ão responsáveis pelo entorno de seu trabalho: ordem, limpeza, organização entre outros. Por isso, zelam pela proteção de seus locais.

Para que ninguém se sinta excluído é preciso providenciar um mínimo a todos, além de evitar a dependência que poderia provocar a desigualdade. Uma das formas de dependência seria a exclusão do mercado de trabalho. Por isso, a necessidade de trabalhar seria universal para que nenhum cidadão se sinta inferior ao outro.

CONCLUSÃO

Em tese e na realidade, atualmente não seria impossível transformar todo cidadão em proprietário. A quantidade de bens disponíveis é incontável e por isso cada um poderia ser galhardeado na prática com um deles. Não são apenas bens materiais, mas culturais, de investimentos, ações, rendas, poupança, letras do tesouro, investimentos, propriedades imobiliárias, monetárias entre outros. Como na parábola do senhor que antes de viajar distribuiu moedas entre seus empregados:

“Antes de viajar, chamou dez dos seus empregados, deu a cada um uma moeda de ouro e disse: “Vejam o que vocês conseguem ganhar com este dinheiro, até a minha volta.”

Do mesmo modo, quando o cidadão entrasse no mercado de trabalho, deveria receber uma propriedade ficando responsável por ela e fazê-la render. De tempos em tempos haveria uma avaliação, e, conforme sugere a parábola, se merecesse maior investimento ou retirar o investido.

 

 

Postagens mais vistas