sexta-feira, 19 de agosto de 2016

PAIS ÓRFÃOS DOS PRÓPRIOS FILHOS. Selvino Antonio Malfatti.



Nós seres humanos somos de tal natureza que representamos dois atores: num determinado ciclo um faz o papel de cuidador e o outro protegido. Em seguida se invertem os papéis: o cuidador se torna protegido.  No primeiro, os pais assistem seus filhos jovens crescerem, ficarem adultos e terem autonomia. E seus pais pouco a pouco envelhecem e se tornam anciãos.
Os anciãos nas civilizações antigas foram um estrato social sempre valorizado. Podem ser citadas as culturas hebraicas, egípcia, mesopotâmicas, gregas e romanas. Inclusive na Bíblia se fala em Anciãos do Povo. Nessas sociedades os anciãos eram revestidos de autoridade política, moral e religiosa por causa de sua experiência e sabedoria para dirigirem os negócios públicos do povo.
No ambiente familiar, até pouco, os anciãos eram amparados pelos filhos que cresciam junto ou próximos aos pais. Havia o ciclo de pais protetores dos filhos e filhos amparadores dos pais. As duas categorias sociais, anciãos e jovens, se completavam cada uma no seu tempo.
Atualmente, devido a diversos fatores, rompeu-se o ciclo natural. Pais chegam à velhice e não têm mais os filhos para ampará-los. Os filhos, uns por motivos profissionais, outros por problemas familiares, outros por dificuldades financeiras abandonam os pais. E há alguns que não têm nada disso e assim mesmo abandonam os pais. Basta visitar alguns “Lar dos Idosos”, “Lar dos Vovôs”, “Asilos”, e ouvir as histórias de vida dos internos. Contam história da vida olhando para longe, no horizonte, curtindo a dor, a saudade e remoendo lembranças.
E quando a tudo isso se junta a doença? Com toda experiência que os idosos acumularam sabem que não têm mais volta. Estão num túnel sem luz no final.
O que acontece com a velhice? Não é somente um estágio estritamente biológico que chega cronologicamente. Se não fosse agregar o que acompanha seria suportável. No entanto, com a velhice chega a vulnerabilidade perante o mundo, o sentir-se inseguro para enfrentar a realidade. Entender os novos tempos, a outra época que não a sua. Ter dificuldade de atualizar-se, acompanhar a nova tecnologia ou as novas ideias (a reação é: no meu tempo era assim...).  Mas uma das maiores dificuldades são as novas amizades. As de seu tempo, a maioria desapareceu. A reação é a clausura, o bloqueio – mental e físico. As limitações começam com a lentidão nos movimentos físicos e reflexos. Com isso ficam excluídos para certas atividades, pela inacessibilidade de certos lugares, em consequência, por exemplo, as companhias turísticas rejeitam idosos em excursões.
Em alguns países, como o Brasil, os idosos são considerados mentalmente ultrapassados, desatualizados e profissionalmente desqualificados. Quando deveria ser a melhor idade de se aproveitar pelos conhecimentos, experiência e maturidade jogam-se no ralo do desperdício. A maioria das universidades europeias e de países desenvolvidos possuem programas de aproveitamento de seus intelectuais. E o resultado todos constatam. Aqui os idosos são classificados simplesmente como “inativos aposentados”, isto é, não fazem nada e estão nos seus aposentos.
Sem falar na pouca consideração dos jovens. Tudo isso configura um quadro de isolamento e de desespero e o ancião se sente entre a bigorna e o martelo.
Na relação entre pais e idosos, é diferente a situação dos anciãos que tem filhos que assistem ou podem contratar profissionais. Conheço uma idosa de 92 anos cuja filha cuida da mãe. Não são ricos, classe média. A idosa aposentada pelo INSS e a filha professora aposentada. Esta providencia alimentação, medicação, higiene corporal, com a escova de dentes, banho externo até o íntimo. Cuida da saúde com consultas geriátricas. A idosa sente-se segura, amparada e demonstra alegria em viver. A comida com os ingredientes picados ou ralados. Evitam que faça coisas perigosas, pois na mente do idoso pode fazer tudo o que antes fazia só que a estrutura física não mais comporta. Mas, sobretudo, sobretudo mesmo, muito carinho.

Mas nem tudo é fácil. Existem idosos dóceis e outros raivosos, os violentos, teimosos e mesmo maus. Os que em vez de demonstrarem reconhecimento e segurança para seus filhos, os xingam, insultam e destratam. Neste caso, se pergunta: como pode um filho retribuir carinho aos maus tratos?  Evidentemente tal filho não se sentirá à vontade para assistir a seus pais. Neste caso, o melhor é apelar para uma terceira pessoa, como os cuidadores. Esta, uma profissão nova, que está se disseminando rapidamente para preencher o hiato formado entre pais idosos e filhos provedores, evitando que pais sejam órfãos de seus próprios filhos.