sexta-feira, 27 de abril de 2012

ASSENTOS NAS ARQUIBANCADAS X LEITOS NOS HOSPITAIS. Selvino Antonio Malfatti.













                                                                  

RESUMO: Enquanto o problema da saúde não bater à porta de sua casa, os assentos nas arquibancadas dos estádios são mais importantes que as vagas dos leitos hospitalares.

Penso que a Comissão da Verdade, oriunda do governo atual, deveria em primeiro lugar investigar os políticos envolvidos em corrupção. Este é câncer maligno que mata a sociedade brasileira, corroendo-lhe as energias. Digo isto por que a verdade do passado, a histórica, deve ser obra dos historiadores e o futuro somente a Deus pertence.
Em segundo lugar mapear o complexo da saúde no Brasil. O caos que impera extrapola todo bom senso e chega às raias da irracionalidade.  
Em contrapartida, todos os esforços parecem estar voltados para terminar estádios de futebol e garantir vagas nas arquibancadas. Não há mais licitações, nem obediência a prazos. As leis são deixadas de lado e paralelamente o que funciona são os conchavos políticos para ver quanto cada um vai ganhar. As empreiteiras combinam o que cabe a cada uma e os políticos recebem as suas cotas. Está tudo liberado. Apagou-se a luz que podia dar transparência aos atos governamentais e privados. O espaço para a participação dos indivíduos desapareceu. Os liames que possibilitavam a vigilância sobre o que é do interesse coletivo romperam-se.  Ninguém mais controla nada. É como diz o ditado: bem como diabo gosta. Neste ambiente prospera a corrupção e o desvio de dinheiro corre solto. 
Enquanto isto, nos corredores dos hospitais, apinha-se doentes, enfartados, acidentados e terminais. Uns gemem, outros choram e outros morrem. Morrem nos corredores dos hospitais aguardando uma vaga. Morrem esperando anos por exame, cirurgia ou por doador. Morrem tentando em vão a justiça. Esta não pode fazer nada, simplesmente por que não há o que se pleiteia.  A justiça pode determinar alguma coisa, mas se não houver disponibilidade nada pode ser feito. Do nada, nada se tira
Está aí a realidade escancarada. Para construir hospitais, criar novas vagas, proporcionar alívio ao sofrimento da população não há verbas. Para os estádios não falta dinheiro do governo, subvenções de organismos internacionais e mesmo doações de particulares. A própria mídia corrobora ao passar a idéia de que o mais importante agora é concluir os estádios. E o povo acredita! Enquanto o problema da saúde não bater à porta de sua casa, as vagas nas arquibancadas dos estádios são mais importantes que as vagas dos leitos hospitalares.
Os países desenvolvidos têm uma relação população/leito entre 7 e 5 por 1.000, no Brasil é de 2,4 por 1.000 habitantes. Isto sem levar em conta que nos primeiros a população tem uma assistência médica permanente, caracterizando-se por uma medicina mais preventiva que terapêutica – e por isso com menos internações. No Brasil ainda a medicina é essencialmente terapêutica e por isso a necessidade de leitos é premente.
Por isso, é preciso urgentemente inverter as prioridades: primeiro leitos de hospitais, depois assentos nas arquibancadas.