sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Alimentar a confiança e a esperança. José Maurício de Carvalho





Nos final dos anos cinquenta, o filósofo alemão Karl Jaspers fez uma conferência radiofônica intitulada A bomba atômica e o futuro do homem. O texto foi publicado na Alemanha em 1958 e traduzido, no Brasil pela Agir, em 1960. Não foi a única experiência do  filósofo que fez várias conferências transmitidas pelo rádio, colocando o público alemão em contato com os mais sérios problemas do seu tempo. É admirável reconhecer os erros e meditar sobre o próprio destino. A meditação não redime os erros cometidos, mas fortalece a responsabilidade e os futuros compromissos. A outra iniciativa no gênero deu origem a uma coletânea de doze conferências publicada em Lisboa, pela Guimarães, 1987 com o título Iniciação Filosófica.
No texto A bomba atômica e o futuro do homem Jaspers examinou um tema que provocava enorme angústia na sua geração, o risco de uma guerra entre potências que culminasse na completa destruição da vida na terra. Como forma de erradicar esse risco concebeu uma política de controle recíproco entre potências que levasse a desativação das bombas atômicas. Na época apenas Rússia, Estados Unidos e Inglaterra detinham a tecnologia para produzir a bomba. Ele postulava ainda o reconhecimento internacional dos tratados de paz, o ordenamento da ideia de direito dos povos, a liberdade de comunicação, tomar a violação dos direitos humanos, em qualquer lugar, como ofensa a todos os Estados e a superação da soberania absoluta dos Estados.
O mundo mudou muito desde os anos sessenta e as questões políticas apresentadas na famosa conferência já não fazem sentido. No entanto, o risco atômico ainda existe se artefatos nucleares caírem nas mãos de grupos terroristas ou de fundamentalistas, se pequenas guerras regionais se ampliarem com conflitos maiores envolvendo grandes Estados ou se for ameaçado algum Estado que ainda vive sob controle de grupos totalitários.
As angústias de hoje estão centradas na violência urbana, no poder das máfias das drogas, na falta de desenvolvimento de muitas sociedades, no fundamentalismo religioso e terrorismo fanático, na rápida deterioração das condições ambientais. No entanto, se mudaram os riscos de nossa geração, a raiz dos males de ontem apontada pelo filósofo "na violência, falta de escrúpulos, coragem cega para a luta, e paralelamente, o comodismo, indiferença, descaso e a falta de preocupação previdente" (p. 32) parece ainda muito viva. Assim, se os compromissos éticos não virão de forma impositiva, somente a meditação sobre o futuro do homem pelas diferentes instituições sociais poderão mudar, para melhor, o padrão social. Se também parece inútil acreditar que o homem possa alcançar pela meditação ética um futuro de paz definitiva, talvez o caminho que reste seja ainda aquele que o filósofo vislumbrava com os olhos cheios de admiração no velho Emmanuel Kant: "viver em nosso mundo pela razão, não somente pelo entendimento, mas sim através da esclarecedora razão, e com ela dirigir nossos pensamentos, impulsos, esforços, a começar pelas atividades quotidianas, na superação da catástrofe ameaçadora" (p. 48).

 A linda reflexão de Jaspers sobre as angústias de sua geração encontrarão lugar e sentido em nossos dias se nos dermos conta da necessidade de pensar filosoficamente para não perder o rumo da vida nas rotinas e nas trivialidades quotidianas. Só superando as insinceridades e subterfúgios com que nos enganamos e aumentando o sentido da responsabilidade por nossos atos e escolhas, podemos assegurar confiança e esperança no futuro do homem.