sexta-feira, 24 de julho de 2026

As ameaça ao sonho da igualdade social e politica. José Mauricio de Carvalho

 


Na antiguidade, quando ocorreu o desenvolvimento da agricultura, ela mudou o modo de viver dos primeiros grupos humanos, crianças com menos leite materno e mais mingau desenvolveram um sistema imunológico pior, e, em épocas de seca, a fome crescia e na abundância das colheitas fartas havia risco de sague. Muitas coisas novas com que se preocupar trouxe a revolução agrícola.

Quando a reunião de agricultores deu origens a cidades poderosas e até reinos fortes foi necessário criar elementos que assegurassem a reunião dessa gente. Isso se fez a partir de crenças comuns e mitos compartilhados por todos ou por grande parte dos membros do grupo. O aparecimento de grandes civilizações propiciou o desenvolvimento de uma legislação que fortalecia essa ordem imaginária, ou mesmo de instituições com um ethos próprio nos diz o historiador Yuval Harari em 21 lições para o século 21 (2018, p. 120): “é impossível organizar um exército unicamente por meio de coerção. Pelo menos alguns dos comandantes e soldados precisam acreditar realmente em alguma coisa: pode ser Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro.” Não é possível manter um grupo unido sem uma crença comum.

O Código de Hamurabi, elaborado em 1754 a.C., foi o primeiro da História e pretendeu consolidar uma organização social. Ele privilegiava o homem superior, ou um sistema hierárquico de classe. Nessas sociedades a desigualdade parecia natural e alguns tinham uma vida melhor que outros. Os criadores da pátria americana alimentaram crença diversa: o da igualdade dos homens em função de sua filiação divina. Essa crença encontra-se atualmente bastante ameaçada com o desenvolvimento da inteligência artificial e com a globalização da economia. 

Se pensamos nas consequências atuais da revolução agrícola, a saber o desenvolvimento da noção de propriedade e a efetiva posse de objetos, nós chegamos ao desenvolvimento de algo assim. Com a propriedade afirmou Harari (id., p. 103): “surgiram rígidas sociedades hierarquizadas, nas quais pequenas elites monopolizavam a maior parte da riqueza e poder, geração após geração.” E foi dessa forma que a posse da terra, de animais, plantas e ferramentas passaram a alimentar uma sociedade crescentemente desigual, sob a aparência de ser essa a natural vontade de Deus.  E dentro dessa mesma lógica a sociedade do século XXI pode estar caminhando para a organização mais desigual da História. Seria isso uma evolução natural? Pelo menos podemos contrapor que a consciência humana considerou que, de uma perspectiva axiológica, que é desejável uma sociedade humana não tão desigual. E o que faz esse fato tão estranho em nossos dias? O que se passou nos últimos séculos quando a modernidade alimentou o sonho de se criar uma sociedade menos desigual? Porque fomos criados na crença de que era possível uma sociedade mais justa?

No capítulo 4 de 21 lições para o século 21, Harari tentou responder e começou lembrando que (id., p. 103): “a igualdade tornou-se um ideal em quase todas as sociedades humanas.” Poderíamos dizer mais realisticamente, esse ideal é não de igualdade, mas de uma sociedade não tão profundamente desigual. O historiador recordou e resumiu o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização, observando que esse fenômeno e o fim da sociedade industrial desidrataram o estado do bem-estar social. |Isso porque o Estado e os empresários antes precisavam de (ibidem): “milhões de trabalhadores saudáveis para operar as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas trincheiras.” Precisavam, mas não precisam mais, pois com a globalização o capital voa livre de um local para o outro e não necessita de muitos trabalhadores, além dos drones substituírem centenas de homens nas guerras atuais. As máquinas inteligentes, as novas matérias-primas e a pulverização da produção garantem produzir sem grandes custos. O resultado do menor investimento social é que (id., p. 104): “o 1% mais rico é dono da metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, a cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres.”

E há ainda algo mais perverso nesse mundo que se avizinha de biotecnologia avançada. Os muito ricos poderão pagar tratamentos e procedimentos que garantam maiores habilidades físicas e condições mentais superiores aos demais. Isso que hoje não é real, ainda que amplamente veiculado, poderá mesmo vir a ser a realidade. Um outro aspecto desse processo é que pode ser que em alguns lugares do mundo, a elite nacional econômica continue a cuidar da população local, mas na maioria dos países, inclusive nos Estados Unidos, a avaliação do historiador é que a elite aproveite (id., p. 105): “a primeira oportunidade para desmantelar o que restava do Estado do bem-estar social.” Nos países considerados em desenvolvimento isso será ainda mais dramático porque o nível de pobreza é maior.

Em resumo, a democracia e uma sociedade menos injusta encontra-se sendo esvaziada, tal como o estudo das humanidades e o desprestígio da intelectualidade.

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