quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Entre a esperança e a circunstância. José Mauricio de Carvalho





O ano de 26 já chegou. Todos os anos na época da virada, quando olhamos cada rosto, percebemos algo diferente nos olhares. De um lado, tudo o que se é, todas as limitações que estão na alma (sentimentos em geral) ou no corpo contrastam com os planos do espírito (pensamento) livres e esperançosos. E aí se revela uma distância entre essas dimensões do que se é e do que se projeta viver. Um misto de apreensão e alegria. Penso: no ano novo lidarei melhor com meus limites, os do corpo e também vou dialogar melhor com as dores da alma e com tudo aquilo que eu trouxe de meu passado. O espírito faz esses planos cheio de esperança.
E, nesse diálogo íntimo entre limites e sentido, encontra-se o eixo central de nossa existência. Trata-se de uma conversa íntima que se renova a cada passagem do ano. E isso porque a vida consiste em somar anos, uma conta de adição cuja soma diminui o tempo que resta para viver. Tempo para realizar, aprender, construir novas coisas, ressignificar e viver melhor. Ressignificar é atualizar o sentido, introduzindo nele uma leitura de mundo que o traga para mais perto da nossa compreensão atual das coisas. No entanto, essa conta de adição que termina em subtração mostra que a vida passa rápido e não teremos a eternidade para aprender a viver e olhar com mais generosidade nosso passado. Nesse sentido, trabalhamos na clínica para agilizar esses processos de aprendizagem e ressignificação. A vida pede paciência para entender e viver os processos, mas urgência para implementá-los.
E há uma grande relevância nessa aprendizagem, pois se passamos a ressignificar o que já passou podemos fazer isso várias vezes. Porque à medida que amadurecemos podemos olhar aquilo que nos machucou ou faltou com outros olhos. Assim, o desafio do amadurecimento nos coloca em permanente estado de reconstrução. A clínica é parte desse processo. Não apenas ajuda a ressignificar o passado, mas ressignificar de maneira contínua o passado, pois quanto mais maduros, mais íntegros nós somos, mais as coisas ficam diferentes do que nos pareceram no passado. A falta de um presente na infância pode ter sido uma grande frustração naqueles dias, um fato compreensível pela circunstância da família na meia idade e, na maturidade, uma lembrança de grande saudade dos tempos em que, mesmo na pobreza, a presença dos pais, o afeto dos irmãos, a força da juventude e a vitalidade da infância eram presentes da vida pouco conscientes. Tudo o que é essencial existia, mas só conseguimos ver o que mais conta com os olhos da experiência.
E, por imaturidade, esperamos demais para agradecer as pessoas que cuidaram de nós, esperamos muito para dar carinho aos que nos criaram e educaram. E as vezes fazemos o mesmo conosco, não nos mimamos com bons livros, não escutamos as canções que enchem nossa alma de alegria, estudamos menos do que queríamos e não alargamos o espírito, não usamos bem nossas experiências, não as utilizamos para alimentar a alma.
E também demoramos a enxergar aquelas coisas simples que Deus nos oferece e faz nossa vida ser boa. Somos desafiados a enxergar o que na vida mais vale, isso antes que a doença transforme em lembranças e culpa pelo não vivido, não rezado e não agradecido. Podemos usar essa compreensão para alimentar as orações de agradecimento por tudo o que nos foi dado e pelo que poderemos ser.
Enfim, o ano que entra é uma oportunidade renovada para nos tornarmos os protagonistas de nossa história e não os ajudantes de palco ou funcionários de bastidores do teatro de nossa existência.

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