sexta-feira, 4 de julho de 2014

O mundo da bola e a vida. José Maurício de Carvalho.













A notícia da semana no cenário esportivo nacional foi o centenário do Santos Futebol Clube completado no último dia 14 às 12 horas. E o centenário do Santos nos coloca diante da lembrança de um dos mais fantásticos times que já surgiu. O time mágico foi bicampeão das Américas, bicampeão do mundo e a base da seleção bicampeã do mundo. O Santos de Pelé, Gilmar, Pepe, Edu e de tantos outros artistas da bola, jogava brincando, fazia o jogo parecer fácil com sua rotina de vitórias. Ver aquele time jogar lançava o expectador numa dimensão lúdica, onde viver é o exercício da mais perfeita prática esportiva com a completa entrega ao jogo. E as torcidas de todo mundo corriam para ver o time do Santos jogar.
Naquele tempo em que o Santos vencia em qualquer parte do mundo e as pessoas aguardavam ansiosas o dia de vê-lo jogar, as torcidas não se matavam na expressão mais completa da animalidade humana. Os embates esportivos não levam à morte porque a vida vivida segundo seus impulsos e desafios profundos não é expressão da agressividade e destruição. Em contraste com a alegria da comemoração do centenário do Santos ainda perturba e assusta o recente confronto entre as torcidas do Palmeiras e do Corinthians que resultou na morte de dois palmerenses. Neste outro jogo da brutalidade não há vencedores, todos perdem, não importa o lado dos mortos ou feridos. Ano passado conflitos parecidos resultaram na morte de um torcedor corintiano, nova derrota da vida.  Se algo merece ser celebrado neste centenário do Santos é como o seu futebol mágico tornou o time admirado entre todas as torcidas. Não havia nos anos sessenta torcedor que não fosse encantado pelo Santos de Pelé. O time maravilhou o mundo com o futebol bem jogado, com um futebol bonito de ver.
A vida possui uma a dimensão esportiva que o jogo de bola representa. Viver é dedicar-se integralmente a algo, a um projeto de existência com a mesma gana e dedicação com que o atleta deve jogar. Há regras, há objetivos, mas a vida mesmo só é interessante quando regras e objetivos são cumpridos com entrega. Com a mesma alegria que os treinadores cobram de seus atletas: jogar com alegria, com dedicação completa, do mesmo modo que se deve viver.

O Santos de Pelé protagonizou tempos mágicos de vitórias e de um futebol lindo. Algo que hoje vemos no Barcelona do argentino Leonel Messi. E o que faz o time catalão jogar tão bem e o argentino destacar, superando-se de modo cada vez mais extraordinário? A resposta é a dedicação completa do grupo de atletas que se entrega de forma apaixonada ao que faz. Não há registro de jogadores do Barça em baladas, ninguém está acima do peso, nem é flagrado com prostitutas, bandidos ou traficantes. É um time focado em sua missão, vencer no esporte e na vida. Jogam duas vezes por semana, ninguém fica lesionado ou tem cansaço muscular. O Barça é tão extraordinário em campo quanto fora dele quando treina e se prepara 24 horas para jogar, sete dias por semana.  Entregar-se apaixonado ao que se faz tornou Pelé o atleta do século, e é este o segredo de Messi que as revistas esportivas explicam com altos salários, talento do treinador, treinamentos físicos e táticos. Tudo isto somente tem o efeito que tem porque ali há alguém completamente entregue à sua missão de jogar bola, como somos desafiados a viver, com o mesmo entusiasmo e dedicação. É esta entrega que temos que ter, não importa se nossa missão é fazer pão, varrer rua, levantar pontes, administrar empresa, cuidar da saúde ou ensinar. Não importa o ofício, não importa o que se busca, não importa o que temos que fazer, devemos fazê-lo de forma completa. Viva o Santos de Pelé que é, na lembrança de quem o viu jogar, um exemplo do que é viver de forma apaixonada pelo que se faz e no respeito às regras do jogo e da vida.