sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O DESASTRE DA CORRUPÇÃO. José Maurício de Carvalho.













O noticiário da semana chamou atenção para a ação escandalosa da quadrilha de auditores da Prefeitura paulista. O país assistiu bestificado mais este escândalo, quando ainda nem havia digerido o do desvio de verbas do metrô paulista. O grupo, apesar de receber salários que fariam inveja a qualquer servidor público da saúde ou educação, algo entre quatorze e trinta e sete mil reais, desviou enormes quantias do tesouro municipal de São Paulo. A quadrilha que subtraiu milhões de reais dos cofres públicos atuou livremente durante pelo menos sete anos. O que isso significa? Que o enorme aparato burocrático que inferniza empresários e funcionários públicos que atendem a população, não serve para impedir o furto quando quem deveria fiscalizar é quem lidera o mal feito.
O mais lamentável não é a pura constatação de que milhões foram desviados do governo da capital paulista, dificultando a concretização de políticas públicas, é que o triste fato é só mais um entre os que quase diariamente chegam aos noticiários. E os que não chegam? O que ocorreu em São Paulo não parece diferente do que acontece em outras Prefeituras pelo país afora. E enquanto se difunde livremente a noção de que o enriquecimento é fruto de um golpe de sorte (pela loteria ou herança), ou ainda pela corrupção, distancia-se do cidadão comum a percepção necessária a qualquer povo de que o enriquecimento é fruto do trabalho continuo, feito com qualidade e da poupança prolongada. Portanto, o maior desastre que a corrupção causa é a desvinculação entre trabalho e enriquecimento, o único caminho capaz de levar uma sociedade a enriquecer verdadeiramente e superar dificuldades financeiras.
O fato nos coloca diante da inevitável necessidade de desenvolver mecanismos de controle da máquina pública que infernizem menos quem trabalha corretamente, mas que impeçam o desvio de recursos enormes durante tanto tempo. Entre as estratégias a ser  desenvolvidas está não apenas o controle das movimentações financeiras e patrimônio desses altos funcionários e seus familiares, mas a multiplicação de entidades sociais que fiscalizam os gastos públicos. Tudo isso só fará sentido se a justiça punir rapidamente os responsáveis e recuperar tudo o que tiver sido desviado, assim como fizer pagar os prejuízos da turma que nos últimos tempos tem quebrado impunemente o patrimônio público e privado.
Considero, contudo, que além das medidas punitivas tão defendidas pela mídia é fundamental a formação moral das pessoas, pois boa parte delas, quando educadas, não se deixa facilmente corromper. E formação moral é a que se desenvolve nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nas instituições, etc. E a questão não se resume ao discurso ideal onde o mal feito seja condenado, mas combater suas causas profundas, que são o propósito do enriquecimento rápido e desvinculado do trabalho produtivo e honesto. Para essa mentalidade desastrada de enriquecimento fácil contribui  a propaganda da jogatina disfarçada em prêmios oferecidos nos títulos de capitalização. E mesmo as propagandas oficiais das loterias do governo quando divulgam os seus prêmios como forma de obter uma vida sem trabalho e esforço também favorecem a mentalidade mágica do enriquecimento sem dedicação ao trabalho. Essa mentalidade é parte da noção contemporânea de direitos sem deveres, mentalidade que o filósofo espanhol Ortega y Gasset entendia estar se formando na Europa desde a Revolução Francesa e ser a base da chamada sociedade de massa.

A internet, as novas tecnologias de ensino, as famílias, escolas e igrejas representam momento de ouro para estimular o enriquecimento ligado ao trabalho honesto. Essa mentalidade não se difunde entre nós enquanto houver um restinho da ética medieval do guerreiro que associava a riqueza ao botim e o crescimento da riqueza a apropriação do que estava pronto e feito por outrem.