Uma pesquisa no Brasil sobre o
feminicídio mostra números terríveis e crescentes. Uma chaga social que merece
o repúdio da sociedade. De 2024 para o ano seguinte os números subiram de 1492
para 1568 feminicídio e as tentativas cresceram de 5150 para 6904. Como avaliar
esse fenômeno? Pretendo considerá-lo em três atos.
O primeiro ato é a mudança dos valores
resultante da crise de cultura que estamos passando. O pano de fundo é um mundo
globalizado em que tudo muda e nada está garantido, descrito pelo sociólogo
Zygmunt Bauman como tempo líquido. No livro Vida líquida esse assunto foi
examinado e também em Globalização; as consequências humanas e em outras tantas
obras de Bauman foi repetido. Vida líquida nos transporta para um mundo onde
tudo muda todo o tempo e onde nada parece seguro. Os valores são apenas uma
parte da cultura sob pressão, mesmo quando defendemos que os valores possuem
uma raiz permanente, ele demanda atualização e novas justificativas. A falta de
debate ou reconhecimento do problema apenas o agrava. As mudanças na cultura
afetam a experiência ou vivência de valores que até pouco eram estruturantes,
mas que recentemente tiveram o reconhecimento enfraquecido. A dignidade da
pessoa e a racionalidade estão entre esses valores que precisam ser
revitalizados e ensinados. Esse é o principal legado da Aufkärung e ele
continua necessário, isto é, permanece, como disse o filósofo Emanuel Kant
(1984): “um grande bem que o gênero humano deve extrair da vida” (p. 38). Sem
essa compreensão de que a vida humana é o maior valor que temos o homicídio
ganha força e a misoginia e feminicídio são parte disso.
Parte desse processo são também as mudanças que
afetam os relacionamentos. Eles perderam força e solidez contra tudo o que até
pouco se vivia. Bauman descreveu amplamente o fenômeno em Amor Líquido, depois
de o considerar em Modernidade Líquida e no último capítulo de Vida a Crédito.
No primeiro as características fundamentais dos novos dias já aparecem e somos
apresentados a um fenômeno que significa falta de garantia, insegurança e
incerteza. Assim, relações começam e terminam com uma rapidez enorme deixando
sem chão e sem rumo pessoas que não entendem o que está ocorrendo. É preciso
educar essas pessoas que lidar com essa nova realidade.
O segundo ato é o desprestígio das ciências
humanas na modernidade líquida inclusive a Filosofia e seu legado para o
ocidente: a valorização da razão para encontrar um fundamento e referências
para a vida. A Filosofia ensina a valorizar a razão e a própria ciência
moderna, justificada por submeter à experiência verificável suas leis. A
Filosofia e a Ciência Moderna ensinaram a não tomar por absolutos a experiência
pessoal não objetivada, uma vez que nossa capacidade de traduzir o real é
incompleta. É o esforço racional que justifica valores como a dignidade da
pessoa. A dignidade não deixou de ser valor, mas com o desprestígio das
humanidades teve desidratado seu fundamento racional. Assim teve reconhecimento
dificultado num mundo líquido e globalizado, que é um lugar de contínuas
mudanças, um espaço amplo onde não há ponto de parada para respirar. Não só os
valores deixaram de ser considerados, quase tudo no universo da cultura o foi.
Essas mudanças deixaram de lado as considerações sobre a realidade definitiva
do amor.
O terceiro ato é uma sociedade com
características patriarcais que não fez uma autoavaliação dos seus erros e das
mudanças necessárias. Uma obra que aborda de forma profunda a história social,
racial e cultural do Brasil durante quase todo o período colonial mostra como
era a vida numa sociedade patriarcal e escravocrata. O livro de Gilberto Freyre
intitulado Casa-Grande & Senzala, faz referência à divisão da sociedade
colonial brasileira entre a “casa-grande”, a casa principal dos senhores de
engenho e seus descendentes, e a “senzala”, como habitações dos escravos
africanos. Essa divisão espacial descrevia hierarquias sociais rígidas e
raciais que caracterizaram o Brasil colonial, permitindo entender como se
organizou a sociedade patriarcal durante muitos séculos. A mudança dessa
realidade não é simples e às vezes permanece inconsciente em muitos, mesmo
depois da realidade social haver mudado internamente muitos permanecem sendo
coronéis de engenho, racistas e machistas, que é a versão rural do macho alfa.