sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Discurso de formatura 2015. José Maurício de Carvalho



Magnífica Reitora Valéria Kemp
Senhores pró-Reitores, colegas professores, caros pais e familiares, queridos alunos a quem me dirijo neste momento de conclusão do curso.  

1. Começo recordando. Era dezembro de 1981. Éramos pouco mais que trinta colegas na alegria de concluir o ensino universitário. No velho teatro do campus Dom Bosco, com suas cadeiras de madeira, suas paredes amarelas, portas abertas para o pátio, tela suspensa sobre o palco enfeitado, diante da congregação reunida, nós nos apresentamos. Havia naquela hora um clima de ansiosa expectativa. Soprava o vento quente das noites de verão, acima do pátio o céu estrelado e poucas nuvens formavam a moldura de um dia mágico que terminava. Ele fora precedido de uma véspera de abraços e de um emocionante almoço de despedida. Nunca esqueci o olhar de cada colega naquela hora de despedida. Todos estavam ali de corpo e alma. Começar recordando aquele momento inesquecível para mim foi a melhor forma que encontrei de introduzir esse discurso.  Acredito que esse momento seja para vocês tão feliz quanto foi para mim aquele dia de dezembro de 1981. Vivíamos, melhor dizendo, um misto de alegria, apreensão e tristeza, felizes pela conclusão dos estudos, ansiosos pelo início da vida profissional e tristes pela separação irremediável dos colegas. E havia mais razão para essa mistura de sentimentos, aqueles colegas que havíamos conhecido adolescentes e estavam então crescidos estariam longe de nossos olhos em poucas horas. Dificilmente nos encontraríamos novamente, pelo menos todos nós. Previsão concretizada, mesmo nos encontros de turma sempre faltaram alguns e hoje nem todos estão mais entre nós. E se antes sem dificuldade podíamos escutar todos eles, depois da formatura já não era mais possível. Ficou hoje a dor da ausência dos que ficaram na memória.  E por isso, em meio a alegria de nossos pais e familiares, da sensação de dever cumprido, corria uma lágrima escondida nos olhos já saudosos pela despedida que se aproximava.  

2. Janeiro de 2015. Encontram-se vocês neste teatro como turma  pela última vez, com o desafio próximo de trabalhar ou continuar os estudos. De todo modo, o que os espera agora que deixam a graduação universitária para se apresentarem à sociedade como professores de Filosofia? Que mundo os aguarda? Já não a guerra fria, o mundo pós Segunda Grande Guerra, os tempos da ditadura, como foi o mundo encontrado por minha turma. Vocês encontrarão um mundo novo, um século novo, um milênio novo. Um mundo com outros problemas e dificuldades. Um mundo onde as guerras setoriais substituíram as guerras mundiais, um mundo com a nova família construída mais pelo afeto que pelo sangue, um mundo com nova composição política, com novos países, um mundo em que nosso país ainda permanece mais à margem que no centro dos grandes acontecimentos. Um mundo em que explodiu o vício da droga e a violência urbana, no qual ressurgiu o terrorismo religioso, onde reapareceu o fanatismo religioso que escraviza ao invés de libertar. Um mundo onde se corta cabeça das pessoas em nome da fé. Um mundo assim precisa de Filosofia.

3. E para esse país que espera tanto e precisa tanto de seus jovens, o que vocês podem oferecer? É hora de se perguntarem o que farão pela sociedade que lhes pagou o estudo, como colaborarão com aqueles que com o suor do seu imposto mantiveram abertas as portas da universidade, custearam as bolsas que receberam, encheram de livros a biblioteca onde pesquisaram, pagaram a limpeza do ambiente, ajudaram nas viagens de estudo que vocês fizeram. O que vocês podem realizar como professores de Filosofia para esse nosso país e seu povo? O principal da missão de vocês parece ser levar para as escolas a fé na razão e na capacidade humana de respeitá-la, mesmo quando os fatos vividos, a irracionalidade e a violência sugerem que devemos perder as esperanças na humanidade e no futuro. Um país em que se tortura crianças, em que se mata com a facilidade que hoje vemos, onde os velhos não são objeto de cuidado, onde a diferença social coloca alguns à margem da dignidade. Não há dúvida, esse país precisa de Filosofia. Necessita cultivar os produtos da inteligência, incluída a inteligência prática da moralidade.

4. Vocês são chamados a refletir nas escolas e fora delas sobre a vida e seu sentido, a dar à realidade um sentido e a falar de esperança para nossos jovens. Viver é experiência que compartilhamos com as plantas e animais. A nossa vida, contudo, tem algo diferente dessas vidas e a Filosofia retrata esta singularidade. Vocês estudaram o que a tradição filosófica pensou de nossa existência, pelo menos o mais importante. Pode ser que a algum homem possa parecer possível deixar passar a vida como se ele fosse um pé de feijão germinando nos dias de sol e chuva. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é o crescimento mecânico e inconsciente do feijão, ela implica em pontos de perspectiva e um sentido. E vocês terão que trabalhar esses assuntos com seus futuros alunos. A referência aos grandes pensadores da humanidade que vocês estudaram é o instrumento para fazer isso. E nossos jovens vão precisar de vocês, a nossa escola precisa de seus professores filósofos. Nossas crianças precisarão aprender a viver uma vida singularmente humana, a olhar o outro com respeito, aprender não só o conteúdo das unidades pedagógicas, mas o significado da ciência e do seu uso, entender os limites do homem, aprender a conter os próprios impulsos e cultivar valores. Enfim, a levar as lições da Filosofia para o dia a dia. E quem de vocês não for para a escola deverá fazer da sociedade seu objeto de atuação e refletir diariamente sobre o sentido de uma vida autenticamente humana para essa nossa sociedade tão carente de humanidade.

5. Voltemos ao ponto de perspectiva que falamos atrás, o que ele é? Um tal ponto é um momento especialíssimo da nossa existência. Temos poucos deles durante nossos dias nessa terra. As pessoas mais privilegiadas talvez experimentem umas quatro ou cinco ocasiões assim. Esses momentos especiais são aqueles nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha. Que melhor exemplo de um momento desses que o batismo de Jesus de Nazaré. Ele viveu um momento de perspectiva quando foi batizado por João e saiu transformado das águas do Rio Jordão. Naquele momento iniciou sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e construtor de cidades que o ocupara antes de se tornar um mestre da humanidade, o filho de Deus na fé de milhões de homens.

6. Ocorre uma mudança semelhante na vida quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza para viver o sonho de um trabalho libertador; ou superamos um relacionamento conveniente, mas que não nos faz feliz; ou ainda quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que ou quem a vida não teria gosto.  A rigor, o ponto de perspectiva mais importante é o momento da morte. Nesse momento tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, naquele instante em que a vida vivida revela seu ponto de chegada. Nessas ocasiões extraordinárias, o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham quando foram vividas. As escolhas feitas tornaram-se parte de nós, mesmo que não tivéssemos consciência do fato quando as fizemos. Aqueles momentos vividos estão grudados em nós e não podem ser removidos, nos apropriamos deles e agora fazem parte de nossa história, do que somos, do que nos tornamos.

7. O sentido da vida é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não se assemelha a fazer um bolo seguindo uma receita, a questão do sentido é sempre surpreendente pelo ineditismo que representa. Como nosso que fazer nessa vida não tem roteiro prévio, vivemos inseguros nas escolhas. Inseguros dos resultados obtidos, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido o relacionamento com aquele amor adolescente de tantos sonhos, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largá-lo para tentar algo novo. Enfim, um Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, o leão segue seus instintos para fazer filhotes e para lhes levar o alimento caçado nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva. Por isso em meio a suas dúvidas há necessidade do exercício da razão da qual vocês se tornaram guardiães.

8. É a razão que nos deve guiar na busca de resposta para as perguntas: até quando continuaremos a usar mal a natureza a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando felizes se somos os beneficiados da mamata, aspirando coisas imerecidas, querendo aposentadoria sem trabalho e/ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando lutaremos por direitos sem deveres ou aceitaremos a violência como solução para os problemas? Até quando compactuaremos com o saque em caminhões acidentados? Até quando desrespeitaremos as leis de trânsito quando não há um policial para fiscalizar? Até quando sujaremos nossas ruas e picharemos os muros de nossas cidades com frases e rabiscos sem sentido?

9. Dúvidas não nos faltam, e há aquelas que não tem significado moral, mas metafísico ou gnosiológico: será que já conhecemos com precisão o mundo, ou poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido aos elementos que lhe dão fundamento? Podemos pensar um fundamento para o mundo? E diante dessas questões cabe ainda indagar: até quando aceitaremos uma vida sem reflexão que nos afasta e nos faz esquecer de nós mesmos? Até quando viveremos longe da Filosofia e do efeito benfazejo que ela traz quando desperta em nós a pergunta pelo fundamento e nos oferece um rumo na vida?

10. Enfim, para tudo isso com que lidamos e, em última instância, e para tratar da vida mesma, a Filosofia não pode faltar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas nos obriga a fazê-la melhor. Pode ajudar a fazer escolhas mais responsáveis, a entender o caminho a seguir. Não há como ensinar uma Filosofia distanciada da ciência, mas uma feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia ao lado da ciência, mas que, diferentemente dela, se obriga a sempre renascer ao pensar o fundamento, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida e o propósito de tratá-lo mais corretamente. O problema filosófico nunca se esgota, ele se renova, ele é como a vida.


11. A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma forma de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que há. E quando pensa sobre sua vida, a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva. Fazer esse trabalho, dialogando com a tradição filosófica, ajudando a pensar, permitindo a cada pessoa descobrir o significado da vida e fazer dela algo que valha a pena não é tarefa fácil, mas é imprescindível. Creio que é isso o que a sociedade espera de vocês, creio que é essa a missão do professor de filosofia e do filósofo, trabalhar a razão como  alimento da ação. E fazendo isso vocês estarão no centro do processo educativo e a escola não se imaginará sem vocês, nosso país não abrirá mão do vosso trabalho. E a sociedade, algumas vezes sem entender bem, acabará percebendo ser imprescindível o filósofo no cultivo de uma nova humanidade pela racionalidade, pelo treino e exercício de obter e dar razão.