sexta-feira, 10 de julho de 2015

Evangelii Gaudium, a Igreja do Papa Francisco.José Mauricio de Carvalho - UFSJ





O Papa Francisco resumiu os desafios da Igreja de nosso tempo na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. No documento o Pontífice toca num aspecto sensível e atual: a necessidade de uma nova presença da Instituição no mundo. O nosso tempo, com seus desafios, pede uma atuação singular da Igreja. Embora dirigida a todos os cristãos, a exortação do Papa Francisco dirige-se principalmente ao clero, estimulado a adotar uma atitude que o Pontífice denomina missionária. Poderíamos traduzir Igreja Missionária como aquela que vive no espírito acolhedor e amoroso do Fundador. Simples assim, o Papa quer uma Igreja que se entusiasme na singela alegria de anunciar o Senhor. Uma Instituição que saiba separar o que é essencial na sua missão dos acessórios incorporados ao longo de sua história.
O essencial da exortação do Papa Francisco encontra-se no início do documento: aqueles que se deixam tocar por Jesus "são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria" (p. 3). E essa maravilhosa relação pessoal de sentido em razão do encontro com Cristo, no entendimento do Papa, a resposta para o sofrimento dos homens de hoje. Esta Igreja está desafiada anunciar a "doce alegria do amor de Deus" (p. 4).
A alegria do anúncio vem da fidelidade ao Evangelho. Se o convite para anunciar o Senhor for deixado de lado em nome de outras doutrinas e procedimentos a Igreja se afasta do essencial. Escreve o Papa: "Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo: é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter o perfume do Evangelho" (p. 34/35).
Para anunciar com alegria o Evangelho a Igreja, principalmente seus ministros, precisam distinguir o fundamental do acessório. Como diz o Papa Francisco, esta distinção é necessária "tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral" (p. 32). Separar o principal do secundário é desafio permanente da Igreja, que tem que transmitir a eterna boa nova em meio aos ruídos do mundo. Logo o anúncio precisa ganhar a forma dos tempos, para que o ensinamento conserve o eterno frescor da formulação original. Explica Francisco: "as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade" (p. 36).
Para efetivar tal desafio é importante refletir sobre a verdade com liberdade apoiando-se na Filosofia, Teologia e na prática pastoral livremente tratadas. Essa atitude "ajuda a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da palavra" (p. 36). A deixar que as circunstâncias histórico-culturais limitem a transmissão da verdade corre-se o risco de falseá-la, mesmo quando a verdade circunstanciada carrega a melhor das intenções.
O Papa é realista. Entende que as pessoas não são, de modo geral, santas e perfeitas, frequentemente vivem um longo e difícil caminho de aperfeiçoamento pessoal. Para essas pessoas Cristo é esperança de crescimento e salvação. Porém, é necessário anunciar Cristo "com misericórdia e paciência, às possíveis etapas do crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia" (p. 39). De tal modo que o confessionário deve ser o lugar da misericórdia, não da tortura. Creio que se pode dizer o mesmo das homilias. E aqui palavras do Papa em seu esforço de aproximar-se de Jesus: "um pequeno passo, no meio das grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre seus dias sem enfrentar sérias dificuldades" (p. 39/40).
É essa Igreja renovada pelo amor misericordioso de Deus que o Papa anuncia em seu documento. Ela não pode permanecer intra-muros, mas deve sair para o mundo para renová-lo. Indo ao mundo não deve se ocupar da autopreservação, com a suposta segurança doutrinal, que estigmatiza as pessoas e as condena. Uma Igreja de saída para o mundo é uma Igreja sensível às dores. Capaz de ir até onde está o mal sem se deixar contaminar por ele. Não se pode ocupar com a glória, títulos, bem-estar, segurança material e teórica, narcisismo e elitismo do clero.
E se essa Igreja errar ao sair para o mundo, esse erro parece ao Pontífice menos grave do que permanecer preso "em um emaranhado de obsessões e procedimentos" (p. 43) que emperram a instituição de viver na alegria e graça do Senhor.
Se este é o tempo e tantas são as faces do mal que nele surge, o homem deste tempo precisa de pastores alegres, generosos e acolhedores. Pastores encantados com o Evangelho e que o vivam e o apresentem com alegria. E é na alegria do Evangelho que a Igreja trará resposta às dúvidas, incertezas e inseguranças do homem de hoje.
Pois bem se as palavras de Francisco servirem para tornar a Instituição mais carinhosa, amiga e generosa, mais atenta ao sofrimento humano, elas soprarão como a voz do Espírito Santo a renovar e trazer vida nova à Igreja de Jesus. Creio que a compreensão de Francisco está próxima do que diz o filósofo alemão Immanuel Kant no ensaio O fim de todas as coisas (1985): "o amor é então, enquanto livre acolhimento da vontade de um outro, submetido a suas máximas, um indispensável complemento da imperfeição da natureza humana (para tornar necessário aquilo que a razão prescreve mediante a lei)" (p. 176). E completa: "Nunca se deve desprezar o fato de que somente a dignidade moral do amor que o cristianismo traz consigo (...), poderia conservar-lhe também no futuro os corações dos homens" (idem, p. 180).