sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O SACRO EM RENÉ GIRARD. Selvino Antonio Malfatti.




René Girard nasceu em Avignon em 1823 e falece nos Estados Unidos em 2015.  Inicia sua carreira acadêmica como paleógrafo de inspiração medieval analisando a vida privada do século XV, em torno de 1923, num ambiente de Paris da Liberação. Logo, porém, muda-se para os Estados Unidos onde encontra acolhimento cultural como professor de literatura francesa e constitui uma família.
O arcabouço de seu pensamento reside na teoria do mimetismo, origem da violência. Esta faz um duplo trabalho: estrutura e desestrutura as sociedades. Por sua vez, esta dinâmica fundamenta o sentimento religioso mitológico.
A tese, que é pano de fundo de seu pensamento, é a descoberta do desejo mimético. É desejar o que o outro deseja de uma forma triangular entre o objeto do desejo, o outro desejoso e o sujeito desejoso. Há uma convergência de desejos e isto provoca a violência. Para superá-la é preciso encontrar uma “vítima”, um bode expiatório que assuma a culpa da violência de todos e assim abre caminho para a convivência pacífica. No entanto, este processo não se extingue, mas cada vez se renova e por isso sempre é necessário uma nova vítima para sacrificá-la em nome de todos.
De posse desse arcabouço teórico inicia a elaboração da gênese da religião, iniciando com a mitologia. Depara-se como ato inicial o ocultamento que disfarça a violência. O sacro absorve a violência através do sacrifício. Desta forma o “bode expiatório” imanta os desejos de violência, concentrado nele como único culpado e por isso possibilita a convivência. Temos então o mimetismo quando todos desejam a paz, cada um renunciando a violência, depositando-a no “bode expiatório” e o sacrificando.
Para Girard no novo testamento há uma nova forma de “vítima”. Aquele Jesus histórico se transmuda na vítima que assume a unanimidade da violência para depositá-la na sua pessoa e possibilitar viver em paz. Jesus não só substitui o bode expiatório como o neutraliza. A violência não é mais física, mas simbólica. Não há necessidade de um sacrifício cruento físico, mas de fé.
Girard se dá conta que de que o “Cordeiro de Deus”, vítima, emerge de sua passividade reguladora e o homem percebe a transformação da violência, o religioso a própria imanência e Deus a transcendência. O Jesus de Nazaré é a “vítima” perfeita e inocente que coloca a marca de uma história de responsabilidade. Diante disso o homem reencaminha a violência, o divino se torna imanente e junto com Deus atinge a transcendência.
Não por nada que o cristianismo é a única religião que previu seu próprio fim como está escrito no Apocalipse.  Neste a palavra de Deus é enérgica, repudia os erros e as culpas humanas as quais no fundo são violências. Na mesma proporção que persistimos nos erros a voz de Deus se torna mais forte, emersa da devastação da violência. Esta tem por fundamento nossas diferenças quando de fato a ênfase deveria ser na identidade. A diferença, na verdade, é o sacro corrompido, representado na figura de Satanás, causa de todos os males e de todos os extremismos. Este procura sempre o conforto e quem o segue em vez de buscar o melhor, opta pelo pior. 
É considerado o Darwin das ciências humanas.
Algumas obras:

Mensonge romantique et vérité romanesque (1961)
Dostoïevski : du double à l'unité (1963)
La Violence et le sacré (1972)
Critiques dans un souterrain (1976)
Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978
Le Bouc émissaire (1982)
La Route antique des hommes pervers (1985)
Shakespeare : les feux de l'envie (1990)
Quand ces choses commenceront (1994)
Je vois Satan tomber comme l'éclair (1999)
Celui par qui le scandale arrive (2001)
La voix méconnue du réel: Une théorie des mythes archaïques et modernes
Le sacrifice (2003
Les origines de la culture (2004
Anorexie et désir mimétique (2008).
Mimesis and Theory: Essays on Literature and Criticism, 1953-2005.
La Conversion de l'art. (2008)