sexta-feira, 21 de novembro de 2014

José Mindlin e a vocação de reunir livros. José Maurício de Carvalho



No dia 28 de fevereiro do ano de 2010 morreu aos noventa e cinco anos o empresário, advogado e jornalista José Mindlin. É uma pena que homens extraordinários morram. O país perdeu um deles e dono de um dom raríssimo: era amigo dos livros.  E ele possuía uma amizade bonita que ia além das palavras, era uma espécie de devoção aos livros que Midlin alimentou durante toda sua vida. No final de sua longa existência conseguiu reunir cerca de 45000 volumes dos mais representativos da cultura ocidental e brasileira. Por este trabalho em defesa da cultura e das letras foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2006, um dos raros momentos de reconhecimento ao seu amor à cultura.
Quem foi José Mindlin? Ele nasceu em São Paulo em 1914 quando o mundo assistia o início da I Grande Guerra. Era filho de judeus russos cuja família mudou para o Brasil (São Paulo) em busca de paz e segurança. Do pai aprendeu o amor pela cultura e a dedicação aos livros, paixão que alimentou em toda sua vida. Trabalhou desde cedo, começando a atividade profissional como jornalista no Estado de São Paulo quando ainda não tinha quinze anos de idade. Concluído o ensino médio fez Direito na Universidade de São Paulo e, posteriormente, cursos na área jurídica nos Estados Unidos da América. Largou a carreira brilhante de advogado que se iniciava em 1949 para se dedicar a sua vocação empresarial tendo organizado a Metal Leve. A empresa se dedicava à fabricação de peças para automóveis e chegou a ter 7000 mil funcionários e duas fábricas nos Estados Unidos. Ser empresário não é uma vocação fácil, mais difícil quando se lidera 7000 pessoas. Em 1996, com mais de oitenta anos de idade vendeu a empresa para a Mahle e se entregou por inteiro à outra vocação que o consumira vida afora: descobrir e adquirir livros importantes da cultura ocidental e brasileira. Para se ter uma noção do que ele reuniu basta mencionar o exemplar dos Lusíadas de Camões da primeira edição (1572), os originais do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e a primeira edição ilustrada dos Triunfos (1488), de Petrarca, livro mais antigo que o Brasil. Uma vida plena é a realização de uma vocação e pode ser mais de uma como no caso de Mindlin.
Um fato que nos mostra a dimensão moral desta vocação. Ele doou 25000 livros que tratavam da cultura brasileira para a Universidade de São Paulo. Os livros são para os homens e para enriquecer o espírito. Ao fazê-lo adotou a atitude típica e generosa dos filantropos norte-americanos que deixam parte de sua fortuna ou bens para obras de caridade ou para instituições culturais. Isto é quase uma regra entre eles, o sentimento de gratidão à nação e o espírito público da vida bem sucedida. Atitudes assim são ainda raras entre nós, mas começam a acontecer.
Outro episódio marcante que dá a dimensão moral desta vida foi o pedido de demissão da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 1975, depois da morte na prisão do jornalista Vladimir Herzog, que ele havia indicado pessoalmente para chefiar o jornalismo da TV Cultura.

 Mesmo sem conhecer a intimidade deste intelectual amigo dos livros, empresário de sucesso, advogado por formação, benemérito da USP e imortal da Academia de Letras, estas linhas são o reconhecimento das vocações importantes que ele cultivou e homenagem a um homem da cultura que colocou sua vida a serviço da sociedade brasileira. Que nosso país possa ter, cada vez mais, homens dedicados aos diferentes aspectos da cultura, como Mindlin foi no cuidado com os livros, sem precisar deixar de ser advogado e empresário.