sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Os valores e a imprensa. José Maurício de Carvalho




Continuando a alternância de postagens, o professor José Maurício de Carvalho aborda uma questão já levantada neste espaço: o dinheiro pode comprar tudo?

Os valores e a imprensa

Os conflitos entre Israelenses e Palestinos da faixa de Gaza (irmãos que se matam), a lembrança das Guerras do Iraque e Afeganistão, os atentados terroristas em Nova York, Londres e Madrid, além da violência que hoje em dia povoa o noticiário sobre São Paulo, todos são episódios que nos colocam diante da quebra da moralidade. Há quem argumente sem surpresa: o homem se mata desde que está na terra. E isto é verdade, a moralidade é conquista íntima e não coisa da natureza. Contudo, em outros tempos, não se tinha tanta consciência de que a vida humana é nosso maior valor. Também não era claro que ideias divergentes sobre Deus não justificam matar ninguém. E para este reconhecimento contribuiu não só os dois milênios de cristianismo e outro tanto de tempo das religiões presentes entre os homens, mas os dois mil e seiscentos anos de Filosofia. Todo este reconhecimento converge para a dignidade humana consolidada na Carta dos Direitos Humanos, em outros documentos da ONU e nas filosofias do Direito que embasam as Cartas Constitucionais da maioria dos povos.
Além da violência um outro episódio recente jogou pó de mico na mídia: a venda da virgindade, pela internet, por uma jovem catarinense (reportagem da Veja de número 47/2012). O assunto colocou em evidência a incomoda questão da venda de tudo, num mundo que mergulhou, desde o último século, no materialismo e hedonismo angustiado. Enfim, de repente a imprensa ficou tocada com a prostituição, embora milhões de jovens se vendam diariamente. Até agora o fato preocupava pouco. Mulheres vendem seus corpos há tanto tempo, apesar do fato ferir a humanidade delas, como os filósofos ensinam desde a antiga Grécia. Cristo, que não era filósofo, protagonizou um encontro maravilhoso com uma prostituta, salvando-a de morrer apedrejada, mas orientou-a a não continuar a vender o corpo. Muitas vezes é a miséria que leva as mulheres à prostituição e no caso não faz sentido falar de desumanidade, pois é a sobrevivência que está em jogo, a própria e a da família.
Dar-se conta, como novidade, de que nem tudo em nossa existência pode ser colocado à venda é deparar-se com uma questão tão velha como a humanidade. Entretanto se isto chama atenção agora este é um bom momento para voltar ao assunto. Popularizou-se o dito que tempo é dinheiro, mas só é no mercado. Tempo é o tecido de nossas vidas, é do que dispomos para amar e construir o sentido de nossa existência.
Não custa recordar que, como ensinou Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo, o capitalismo floresceu associado à uma visão religiosa de mundo. Portanto, marxistas de plantão, nada de culpar o sistema e desviar a atenção das escolhas. A justificativa para o trabalho árduo e quotidiano não era, no início dos tempos modernos, o enriquecimento, mas completar a criação divina. E se o enriquecimento vinha ele era indício de salvação. Porém se o dinheiro levasse ao luxo suntuário ou luxuria o sujeito estava embarcado na primeira classe para o inferno.
Há muitas coisas que o dinheiro não compra: a dignidade, a honestidade, a amizade, a veracidade e outros valores fundamentais para a vida social. O dinheiro pode levar à indignidade, inverdade ou a desonestidade, pois muitos valores não são assegurados pelo dinheiro. O dinheiro não assegura, por exemplo, o respeito e a amizade, só a bajulação. O respeito nasce na consciência. Quem precisa do dinheiro para respeitar o outro não reconheceu nele dignidade e mostra sua própria vileza.  A riqueza é um tipo de valor, ajuda a melhorar a vida, mas não guia todas as relações entre os homens, pelo menos não quando pensamos eticamente. E a moral não é descartável, mas o que firma o tecido social. Mesmo que alguém pague um médico para fazer um procedimento delicado ou ao psicólogo para tirá-lo da lama existencial o que garante, em última instância, que o profissional dará o melhor de si é a sua consciência moral.