sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TROCAR PARTIDO NO PODER É PRECISO. Selvino Antonio Malfatti






Em sociedades democráticas, a alternância de partidos no poder é tão necessária como revezamento de culturas nos solo. Com efeito, o agricultor sabe por experiência que não pode por muito tempo continuar plantando a mesma espécie no mesmo solo. A partir da segunda colheita a terra enfraquece e a produtividade vai caindo sempre mais. Da mesma forma acontece com partidos políticos ou grupos de poder. Eles se desgastam e deixam de cumprir com seu propósito.

Com efeito, quando assumem o poder o fazem com entusiasmo, com ideal, dando o melhor de si. Mas, à medida que o tempo passa, o entusiasmo esmorece e é substituído pela rotina, o ideal dá lugar aos interesses privados e o melhor de si que antes era dedicado público passa a ser mínimo.

Além da anterior, eis algumas razões da necessidade de troca de partidos no poder:
Primeiro. Esvaziamento do programa. Quando o partido assume o poder apresenta-se com um programa que a sociedade o aprovou. Implantado e bem sucedido cumpriu seu papel e a partir de então deve ser ou criado outro ou substituído por outro. O partido que está no poder não criará nada e, portanto, continuará na mesma. Então, é necessário chamar outro partido que oferecerá outro programa. Da mesma forma este, depois de cumprir o que prometeu deverá ceder o lugar a outro. Isto é alternância, indispensáveis em democracias.

Segundo. Frouxidão ética. Diz o ditado que a “ocasião faz o ladrão”, isto é, a proximidade do poder e a facilidade para usá-lo amanteigam a ética pessoal e  desvios de condutas e corrupção se tornam rotineiros. É preciso não só convicção, mas também certa dose de medo de perder o poder para evitar sobrepor o interesse geral ao pessoal. Como diz Maquiavel: não é preciso que o Príncipe seja amado, basta que seja temido. Isto acontece numa é autocracia. Numa democracia os papéis se invertem: o povo não precisa ser amado pelo príncipe, basta que o príncipe tema o povo.

Terceiro. Torneiras sempre mais abertas. Partidos que se perpetuam no poder, para se manterem no poder, sempre mais prometem, concedem e cedem para poderem atender a demanda eleitoral. Aquilo que antes era apenas uma promessa agora deve ser convertido em dinheiro vivo. Se o partido prometeu 40 milhões, depois do segundo mandato no poder deve entregar 80 milhões.

Quarto. Espírito democrático esquecido.  Governos muito prolongados esmorecem o gênio democrático dando lugar ao autoritarismo. Os ocupantes do poder vão achando natural serem bajulados, reverenciados e mesmo louvados. Começam a se convencerem que realmente são indispensáveis, os melhores e que os demais são segunda categoria. É preciso chamá-los à realidade e tomar um chá de humildade.

Quinto. A perseguição aos adversários. A permanência de partidos no poder provoca uma confusão entre competidores e inimigos políticos. Com a crítica da oposição surge o espírito de caça às bruxas. Falam em: “os inimigos da pátria, os vendidos ao capitalismo ou socialismo, os inimigos do povo...” Enfim, quem não está com o partido no poder é antipatriota".

Sexto. Esta é a mais nefasta para a democracia: transfiguração da “parte” no “todo”. Um partido em permanência prolongada no poder escamoteia a realidade de “parte” que é, e passa a exibir-se como todo. Para tanto promove as reformas, como do ensino, da constituição, partidária, eleitoral, segurança inoculando o pensar, agir e sentir da democracia. Quando atingiu a totalidade faz crer que o totalitarismo é a genuína democracia, tal como o desfecho de A Revolução dos Bichos"