sexta-feira, 3 de março de 2017

As limitações da reforma do ensino médio. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei






Há um ponto de partida inevitável quando tratamos projetos pedagógicos. Como dissemos na Introdução à filosofia da razão vital de Ortega y Gasset (Londrina, Cefil, 2002, p. 461): “Qualquer sistema pedagógico vincula-se a uma filosofia, começando pela metafísica que ele admite. De fato, toda atividade docente contém uma teoria da realidade, parte de uma imagem e apreciação do mundo e do homem. As teses educacionais costuram, portanto, melhor ou pior, uma estrutura formal e um conteúdo axiológico. Além da raiz metafísica, o sistema pedagógico considera também os aspectos específicos da atividade educativa: relação entre docente e discente, contribuição da instituição de ensino para o processo de aprendizagem, limites da autoridade do mestre e finalidade da educação”.  A atual proposta do MEC para o ensino médio também tem sua filosofia, que precisamos entender, uma filosofia que tangencia os assuntos próprios da atividade educativa e restringe a formação geral. Um projeto educativo que limita o processo pedagógico à formação técnica do aluno de ensino médio, ou oferece um ensino fatiado em áreas. O avanço do conhecimento impede que se saiba tudo, é inevitável uma seleção, mas é um desastre considerar que o aluno não deva saber nada das áreas não escolhidas por ele. Nessa proposta, se ele escolhe uma área pouco vê das outras.  
Vivemos um momento da história humana em que uma proposta pedagógica para ser formar pessoas precisa somar a preparação técnica a uma formação humanística ampla. Essa formação é base da consciência cidadã e crítica. A atual proposta de reforma realiza exatamente o oposto, ela quer separar a preparação técnica da formação humanística. Sem uma combinação bem pensada desses elementos teremos uma proposta pedagógica incapaz de humanizar o uso da técnica, uma reforma que não prepara o educando para a fruição dos bens do espírito marcantes numa civilização que está superando os problemas da sobrevivência material.
O que filósofos como o espanhol Ortega y Gasset e o português Eduardo Soveral ensinaram em profundas análises sobre o processo pedagógico é que somente “uma educação articulada sob tais diretrizes, (competência técnica e formação humanística juntas) impedirá a imbecilização das pessoas ou a generalização da incultura, outro nome para o fenômeno social que Ortega y Gasset denominou de a revolução das massas” (Ibidem). O tempo das massas é o tempo da incultura, do senhorio satisfeito, que é quem espera da vida o que ela não pode dar.
O que esses pensadores e tantos outros educadores mostraram é que a preparação do homem do século XXI não pode prescindir dessas duas pilastras: um bom conhecimento da ciência e um bom conhecimento das humanidades. E aqui está um nó difícil de ser desatado. Como um aluno que se prepara no ensino técnico, nos moldes da proposta em curso, desenvolverá consciência cidadã ou crítica, onde ele debaterá os problemas da sociedade, como entenderá a moralidade, o fio de ouro que amarra a cultura, como falava Tobias Barreto.
Essa é uma questão fundamental. Podemos dizer com Ortega que a existência humana é uma aventura situada. Assim (id. p. 462): “o problema da cultura aparece como muito importante porque o homem vive num meio cultural que ele faz, mas que também o faz. Para viver num meio complexo de exigências e sofisticação crescentes, o homem necessita se educar não apenas desenvolvendo habilidades para trabalhar e sobreviver, mas também se preparar para responder às exigências éticas e estéticas de seu grupo social”.
Ao enfatizar os diversos aspectos da formação humana e nem mencionei uma cuidada preparação física ao lado da intelectual, um preparo para entender e viver a arte que também parece uma experiência humana essencial, queremos dizer que a preparação do jovem precisa ser para viver, para se inserir numa comunidade e não simplesmente para trabalhar.
Mesmo quando não trata do ensino técnico a proposta possui as mesmas fragilidades. Ao considerar que existam cinco grandes áreas para o aluno do ensino médio estudar aquela que lhe pareça mais adequada a sua futura carreira, a proposta permanece falha. Quem vai estudar Teologia, Filosofia, Artes, por exemplo, com certeza espera ter mais ênfases nesses conteúdos, mas não pode prescindir de uma boa síntese das outras áreas. Sem excelência na escrita e comunicação não se vai longe nas áreas acima, mas também não é possível pensar filosoficamente ou teologicamente sem o conhecimento da ciência dos dias em que se vive. Da modernidade para cá a ciência é imprescindível, mas não suficiente. A questão não é retirar esses conteúdos, mas oferecer boa síntese dele. E essa síntese precisa ser feita por um especialista e não qualquer um. E a proposta de afunilamento dos conteúdos mostra outro de seus limites. Como alguém que não estudou um conteúdo vai ministrar tais conteúdos considerados obrigatórios pela própria lei que limita a oferta das disciplinas. Como separar o conteúdo para dilui-lo nas demais unidades pedagógicas? Enfim, a proposta é semelhante a outras patrocinadas por algumas sociedades e grandes grupos econômicos com o propósito de preparar mão de obra pouco crítica para atender o mercado.