sábado, 27 de junho de 2015

Identidade de Gênero e Cristianismo, o conflito desde dentro.José Mauríci de Cavalho - UFSJ




Esta semana a Câmara Municipal viveu um clima de disputa envolvendo o Plano Municipal de Educação. Infelizmente não se entrou, em profundidade, nos elementos constitutivos plano, o problema ficou restrito à chamada identidade de gênero. Na tentativa de evitar a evasão por discriminação de pessoas de orientação sexual diferente da tradicional, aquela no qual as pessoas se sentem homens e mulheres, identificados com o sexo biológico e atraídos pelo sexo oposto, o Plano Municipal de Educação trouxe a expressão identidade de gênero. A expressão sugere que todas as vivências sexuais tenham o mesmo peso, o que numa lógica simples impede a discriminação, já que independente da orientação sexual todas teriam o mesmo valor. Nenhuma novidade no que tange à confusão, uma vez que a questão vem gerando o mesmo tipo de embate em diferentes Prefeituras pelo país afora.  A divergência revela um conflito no entendimento da condição humana, pois a expressão identidade de gênero afronta elementos da tradição cristã estruturadoras de nossa sociedade.
A questão do gênero é complexa, ela envolve a sexualidade no sentido amplo, isto é, o sexo biológico, psicológico, a orientação e o ato sexual. Uma pessoa que nasce mulher, por exemplo, é  biologicamente do sexo feminino, mas pode ser psiquicamente identificada com o sexo masculino (sente-se, portanto, como homem apesar de ter corpo feminino), pode não ter vida sexual com nenhum parceiro, nem masculino, nem feminino. Neste caso porta-se como pessoa assexuada. Pode, diferentemente, orientar-se sexualmente para ter relações com outras mulheres, com homens, ou com os dois sexos. Viverá a sexualidade de modo diferente em qualquer dos casos. O mesmo acontece com homens que tenham identidade feminina (sentem-se como mulheres) e podem se relacionar com mulheres, com homens ou com pessoas dos dois sexos. Essas são as possibilidades estatísticas que poderiam ser representadas numa árvore de eventos, contemplando muitas possibilidades. Creio que se poderia resumir o problema ao entendimento de que nem sempre a identificação sexual (sentir-se psicologicamente como) coincide com o sexo biológico e nem sempre essa identidade reflete-se num comportamento padrão esperado, ensejando todas as variações acima indicadas.
Desde o início do século passado, a Psicologia, especialmente devido à contribuição da psicanálise, explicou como ocorre a identificação sexual mostrando que, no menino, ela procede de identificação complexa com o pai (ou outro representante do gênero masculino, um avô, tio, conhecido, etc.), mas que por diferentes razões, em circunstâncias especiais, a identidade pode também se dar com a mãe (ou outro representante do gênero feminino uma avó, tia, conhecida, etc.). Com a menina o processo tem a mesma complexidade, embora com elementos diferentes que seriam muito difíceis de serem explicados no pequeno texto.
A Bíblia judaico-cristã que tem no seu início um lindo poema sobre a criação do homem, refere-se à criação do gênero masculino e feminino, não contemplando variações, quer em virtude da enorme maioria das pessoas terem sua identidade e orientação sexual coincidente com o sexo biológico, quer porque foi escrita num tempo em que era necessário o nascimento de muitas crianças, pois curta era a vida colocando em risco a sobrevivência do grupo. Assim parecia ser o que prescrevia a natureza e, portanto, o desejo do seu Criador. Esse entendimento, fortalecido pela visão filosófica grego medieval que entendia serem fixos os processos essenciais da vida, prevaleceu durante séculos e construiu a lógica da exclusão. Acabou-se dizendo que o poema bíblico referia-se à natureza do homem, não podendo ser ela diferente em nada, consistindo qualquer desvio em pecado e aberração.
Pois bem, o sentido essencial do poema bíblico parece ser que Deus ao criar o homem da terra (e a mulher de sua costela) e lhes soprar nas narinas uma alma imortal colocou em cada uma dessas suas criaturas uma fagulha indestrutível de sua Presença. Não é o fato de suas criaturas terem dois sexos exclusivos o fundamental no texto. E além disso, a noção de pessoa que nasce do evangelho de Cristo, proclama que os homens (e mulheres) são iguais em dignidade, na capacidade de fazer escolhas livres, responsáveis, criativas e abertas à transcendência ou ao diálogo com Deus. A noção de pessoa atribuída inicialmente aos três indivíduos da trindade divina trouxe, por extensão, de Deus para a criatura humana que Ele fez a Sua imagem a referência, essa mesma condição. Portanto, embora em algumas passagens, a Bíblia condene a relação homossexual, não quer dizer que alguém perca sua condição humana ou de Filho de Deus por isso. O fato merece atenção e precisa ser melhor pensado num tempo em que se entende que a homossexualidade é fruto de um processo psicológico complexo e inconsciente (colocado fora do campo das escolhas pessoais) e que, portanto, não parece razoável discriminar ninguém ou privá-lo da vida social ou de se educar por isso. Nem parece cristão condenar as pessoas por conta de sua identidade sexual, deixemos a Deus essa dificílima tarefa.

Por outro lado, o respeito proclamado no parágrafo anterior não significa que todas as orientações sexuais são igualmente boas e desejáveis. Colocá-las dessa forma numa proclamada identidade de gênero não parece a melhor forma de tratar a dignidade da pessoa humana. Porém, ainda mais importante são os aspectos morais da sexualidade. Em sentido amplo a sexualidade envolve as dimensões biológicas, psicológicas e comportamental, isto é, para que seja verdadeiramente humana, a vida sexual precisa ser integralmente vivida na liberdade possível, responsabilidade, no respeito e amor ao outro. E mais, nas relações humanas em geral, que incluem outras dimensões além da sexual, o respeito ao outro (ou outros) é valor que precisa ser cultivado com o mesmo zelo que se dedicou ao problema do gênero. Num tempo de tanta violência, irresponsabilidade, egoísmo, isso parece o essencial.