sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DA ESCASSEZ À PRIVAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.

 



Quando a sociedade se ressente de escassez de bens materiais, saúde, educação, segurança o primeiro setor afetado é a cultura. Constatei que quando se disseminou a pandemia do coronavirus ao mesmo tempo os itens culturais desapareceram das “prateleiras” culturais.

Ao preparar algum artigo costumava verificar na parte cultural de alguns jornais nacionais e estrangeiros bem como revistas, como revisão, conteúdos iguais ou afins. Fui constatando que à medida que o tempo ia passando e a epidemia aumentava e se alastrava as notícias escasseavam sempre mais. Jornais como Corriere, Le Monde e El Pais de artigos sempre abundantes na secção “cultura”, agora praticamente deixaram de existir. Fiz-me então a pergunta? Estaria relacionada à pandemia a este fenômeno? Teríamos entrado num período intermediário? Entre o “antes”, com sua cultura própria, e o período ainda “vazio”?

Evidentemente que o exemplo histórico acendeu a luz do alerta na mente. Como foi a produção intelectual na antiga Atenas na Guerra do Peloponeso? Roma na guerra com Cartago, a Europa nas Invasões dos Bárbaros, a Peste Negra na Europa, os Conflitos Mundiais?

Na Atenas clássica o florescer cultural se seguiu após o término das guerras médicas. Despontaram escritores, historiadores, escultores e filósofos. A cultura grega foi ao auge servindo de modelo para os demais povos que a copiavam e imitavam.

Aqui também se percebeu um período de retração, as guerras, e logo após o rebroto de uma nova cultura.

Não é outra a situação das invasões dos bárbaros na Europa. Além de destruírem o maior império da antiguidade, o substitui por outra cultura que dará seus frutos durante mil anos, a cultura cristã. Pelos poros da cultura antiga penetrou a cristã e paulatinamente substituiu seu conteúdo, embora muitas vezes tenha mantado a forma antiga, como a formação de novos reinos, novas línguas, nova arquitetura e oxigenados pelo sangue cristão.

“Queima o que adoraste e adora o que queimaste”, São Remígio, ao rei dos Francos, Clóvis.

Com igual intensidade devastadora foi a Peste na Europa. Curiosamente também inspirou obras culturais, evidentemente depois superada a crise. Da inspiração da Peste Negra surgiram obras primas da lava de Bocaccio, Petrarca, Chaucer e Pushkin e da pintura figuram Konrad Witz, Bernt Nötke e Hans Holbein.

Não será diferente do que irá acontecer após a pandemia do Coronavirus. Um novo mundo cultural despontará com as premissas culturais deflagradas pela crise.

O que a pandemia impôs sociologicamente? A ruptura da convivência social do indivíduo. Foi retirado da profissão e confinado na família, afastado do convívio cultural e isolado no seu Home Office, desligado de sua religião publicamente e abandonado a seu destino sem relação com ser superior. O distanciamento social- como o próprio nome designa - isolou-o como ser individual sem referências com os demais seres. Aconteceu a inversão da inserção social. Em vez do pacto social, aplicou-se o pacto individual. Em vez de o homem individual, natural, do pensamento de Rousseau, passar para o social, com a pandemia acontece a involução. Voltou o homem à natureza solitária, confinado no domicílio, sem ligações com seus semelhantes, sem desejo de prejudicar ninguém, sem reconhecer sua própria individualidade, autossuficiente e único, sem passado nem continuidade. O homem sempre criança. Neste estado, não há desigualdade. Foi o saldo inverso: da sociedade para a individualidade.

Agora vivemos o jejum cultural aguardando o novo rebroto civilizatório. Como será? Algumas constatações:

- A pandemia rompeu com as consagradas dinâmicas sociais e culturais em voga.

- Sufocamento da cidadania política do indivíduo transformando o trinômio do cidadão trabalho-renda-consumo em um mero homem-consumidor.

- A dinâmica do bem pessoal como favorecimento do bem comum, foi substituída pela dinâmica tão somente individualista.

- Como consequência o liame ético entre indivíduo-pessoa-cidadão-bem comum foi abandonado em prol de um liame solipsismo individualista.

- Os estratos sociais passaram a ser impulsionados somente por interesses econômicos e valores hedônicos, abandonando o bem comum.

- O homem foi despido do estrato social, nacionalidade, raça. Sele só existe como um número na rede virtual.

- A obrigatoriedade de “ficar em casa”, amputaram as conexões interpessoais, intergrupais, recreativas, esportivas, culturais. A própria presença em casa deixou de ser natural e se transformou em um habitat estranho a si mesmo, artificial.

 

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