sexta-feira, 1 de maio de 2026

DILEMA DA IGREJA:SALVAÇÃO ETERNA OU REDENÇÃO SOCIAL? Selvino Antonio Malfatti.



O filósofo italiano, Vittorio Messori, levantou a questão da prioridade da Igreja: o social ou o teológico? Com efeito, atualmente há amplos setores do clero eclesiástico que dá ênfase na missão social da Igreja. Isso ocorreu após o Concílio Vaticano II. O Concílio não negou, nem colocou em segundo plano a dimensão teológica, mas propôs que a Igreja se fizesse presente no mundo. Para tanto era preciso que atendesse a justiça social, dignidade humana, a paz e se preocupasse com a pobreza. O convite foi recebido com entusiasmo frenético entre setores do clero. Afinal era muito mais receptivo falar da promessa terrena do que a celestial. A partir de então surgiram até teorizações sendo a mais conhecida a Teologia da Libertação, surgida nas décadas de Sessenta e Setenta. A vivência cristã passou a ser pautada pelo olhar da pobreza e opressão. A proximidade com as teses marxistas levou grande parte dos seguidores ao marxismo, inclusive ao comunismo. A fé foi deixada para um segundo plano e o social assume a prioridade, pregando e atuando mirando na perspectiva de um reino dos céus na terra em detrimento da escatologia divina, o céu.

Vittorio Messori em “Hipóteses sobre Jesus” (Ipotesi su Gesù ), considera um grave erro da parte do clero enfatizar prioritariamente problemas sociais e políticos desconsiderando questões teológicas dos dogmas e a vida eterna. Isso porque as grandes questões teológicas como o mal, a morte, a salvação foram deixadis de lado da pregação.[i]

Para Messori o fim principal de mensagem cristã não reside na mudança das estruturas sócio-econômicas, mas no destino do ser humano. O núcleo da escatologia é a reflexão sobre a morte, o juízo final e a vida eterna. É nisso que se diferencia a fé cristã de outras formas de pensamento humanista ou ditos humanistas principalmente o marxista. Se a Igreja se abstiver destes temas perderá sua identidade se tornará mais uma instituição apenas social.

Parte do clero foi engolido pelo processo de secularização que oculta a morte e vida do além. Este clero doura a pílula e faz crer que ao se solucionar os problemas terrenos automaticamente se solucionam os espirituais como se a alma acompanhasse a salvação do corpo. Concorda-se que estes temas não são populares e confortáveis, mas são da essência da vida cristã, mormente o mistério da redenção. Sem eles as pessoas ficam privadas da opção radical da fé cristã. O dizer seu “sim”.

O problema discutido por Messori não é a questão social, mas o desiquilíbrio entre as questões sociais e as teológicas. As socias passaram a ser prioritárias, enquanto as teológicas praticamente esquecidas ou vistas somente na perspectiva social. Para a Igreja as questões socias estão inseridas nas teológicas, isto é, na caridade. O verdadeiro equilíbrio consiste no anúncio das verdades da fé – dogmas e vida eterna – e depois o compromisso com a justiça e solidariedade. O problema está na “mundanização” da Igreja. As pautas sociais se sobrepõem às transcendentes. A solução está na recentralização da escatologia complementada pela justiça social.



[i] “A cultura contemporânea tende a remover a morte, a escondê-la, a silenciá-la. Mas o cristianismo nasce precisamente como resposta à morte. Se se elimina essa questão, tudo o mais perde sentido: também a moral, também o compromisso social. Sem a perspectiva do além, o cristianismo se reduz a uma ética entre outras.” Vittorio Messori,  Scommessa sulla morte (A aposta na morte). 

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