sábado, 1 de julho de 2017

O caminhar do povo brasileiro pela história. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei












O Brasil mergulhou, nestes últimos anos, numa crise política que levou, inicialmente, ao afastamento da Presidente da República e, agora, mostra como a corrupção alimenta o processo eleitoral e o enriquecimento dos políticos. As coisas chegaram a um ponto insustentável nos governos do PT, mas é ilusão acreditar que o problema não existisse antes ou que não fosse tão extenso. Essa crença nasce do discurso antipetista, parte da polarização danosa que tomou conta do país. O afastamento do projeto social democrata e a implantação do projeto liberal conservador nem livrou o país da corrupção, nem promoveu a retomada do desenvolvimento. E as coisas pouco mudaram porque o que alimenta a corrupção e a crise econômica são fatores complexos inclusive o ambiente internacional dos negócios. O surto de desenvolvimento da era Lula, por exemplo, não ocorreria num ambiente externo desfavorável como o de agora. E internamente ainda se vive a tradição patrimonialista que mistura as coisas do Estado com a dos mandatários, fazendo com que o mal feito seja verificado desde as prefeituras mais pequeninas até a união federal, roubo democraticamente distribuído por todos os partidos. E esse ambiente, que se deteriorou nos últimos anos, foi alimentado pelo financiamento empresarial das campanhas e a multiplicação das legendas de aluguel. Para que se dimensione o absoluto descalabro a que isso chegou basta mencionar o Partido da Mulher Brasileira. Qual o projeto político desse partido? E igual a ele há um bom número de pequenas legendas feitas para vender apoio ou alimentar vaidades. O conjunto de fatores mencionados agravou o estado geral de corrupção que não resulta de nenhum Partido isoladamente, mas desse ambiente favorável alimentado por todos eles.
Para que se reduza significativamente a corrupção e se resgate a dignidade da atividade política será necessário mudar muita coisa: acabar com o financiamento empresarial das campanhas (que parece feito, mas que pode ser ressuscitado), eliminar os privilégios parlamentares e reduzir o número de políticos, baratear as campanhas, reduzir os partidos (para no máximo uns seis ou sete), punir as autoridades corrompidas e seus corruptores. Sem essas ações a corrupção ou ficará oculta ou reduzirá pouco. É também fundamental elevar o nível educacional da população e discutir a moralidade nas escolas e fora delas.
O ambiente suprapartidário de falcatruas não é aceito internacionalmente. Assim, a gestão pública horrorosa das coisas do Estado (os problemas de segurança pública: explosão dos bancos, bandos de marginais armados aterrorizando a população, número enorme de crimes, péssima gestão da saúde, má qualidade da educação, os ridículos transportes públicos, as estradas inqualificáveis, etc.) tudo com que aceitamos, mas que não é admitida internacionalmente. Essa má administração foi punida pelos americanos com a interrupção da compra da carne e a perda da ajuda internacional para a manutenção da floresta amazônica. Pouca coisa funciona bem.
Esse ambiente de corrupção e má gestão tirou o foco da noção de pátria como casa do povo. Casa entendida como ambiente cultural.Esse ambiente é sustentado por crença comum, que é uma fé, religiosa ou não. Pode ser um princípio fundador que esteja na origem do povo, ou um projeto político em que a sociedade se engaje por acreditar. De todos os modos precisará ser um ethos, uma casa comum que nasce da convivência e da crença compartilhada que amarra a vida do povo, que o instiga a vencer as dificuldades enquanto enfrenta as lides diárias.
Esse ethos é espaço compartilhado de crenças que liga cada um a terra dos avós e dos filhos. Essa noção de espaço nacional perdeu-se e é vilipendiada pela atual geração de políticos corruptos e empresários bandidos (ressalvadas as exceções). Reativar esse ethos que nos liga aos heróis conhecidos, ao trabalhador que sucumbe no esforço diário e ao militar anônimo que morre pela pátria, confiando num futuro melhor, numa democracia mais justa e num país bom para viver. E há muitos que assim fizeram e fazem. São esses heróis conhecidos ou não que precisam inspirar nosso destino em dias como esses que passamos.