sexta-feira, 10 de maio de 2013

CULPA. Selvino Antonio Malfatti.





Estamos vivendo sob a égide da culpa. As pessoas estão se culpando por que não se prepararam mais, não trabalharam mais, não se qualificaram mais. As famílias estão se culpando. Perguntando onde erraram, por que não deram mais atenção ao companheiro ou companheira, aos filhos. Por que só se preocuparam com o trabalho, o dinheiro, o bem estar material? A sociedade se culpa por que não previu o futuro, não se modernizou, descurou de infra-estruturas. A culpa invade nosso organismo social, o imobiliza, engessa e o mata. Ela destrói as famílias quando um lança a culpa no outro. Enlouquece o indivíduo quando não a supera.
A culpa é inerente à natureza humana. Há uma culpa originária que todas as culturas a enunciam. A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata por dentro a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído pelo remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se podem desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou na sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões e entregar-se à felicidade da vida, sem culpa. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Embora todos esteja mortos - monarcas, nobres, inclusive Deus -  Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E os filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.
O que fazer para se livrar da culpa? Diz o cristianismo que a culpa originária pode ser banida pelo batismo. Mas quanto às demais culpas? Por mais que se queira apagar elas subsistem. É como o mito da Hidra de Lerna que, a cada cabeça que Hércules cortasse, nasciam duas. Contudo, se esta é a condição humana de viver acompanhado de culpa, terá que fazer como Hércules: continuar cortando as cabeças até que a última cicatrize.