sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA.José Maurício de Carvalho















Como anunciamos, a partir de agora teremos a colaboração do Professor José Maurício de Carvalho que leciona na Universidade Federal de São João del-Rei. É graduado em Psicologia, Filosofia e Pedagogia. Na pós-graduação possui especialização, mestrado e Doutorado. Concluiu estágio de Pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade federal do Rio de Janeiro. É membro do Instituto de Filosofia Luso-brasileira, com sede em Lisboa. Atua também como consultor de diversas revistas científicas. Destaca-se como professor de filosofia, ética e cultura. Segue o artigo.


"RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA
A semana começou com notícias duras para a humanidade: acirrou a crise econômica na Europa, o Paquistão testou com sucesso um míssil capaz de levar ogivas nucleares, aumentou o desmatamento da Mata Atlântica na costa brasileira, ocorreu novo massacre de crianças e mulheres na revolta popular contra o governo da Síria e houve intoxicação criminosa de jovens estudantes afegãs. A última notícia choca tanto pela novidade, quanto pela justificativa.
Grupos radicais islâmicos que não aceitam a educação da mulher e sua dignidade promoveram o atentado que quase levou a morte 150 jovens. Socorridas às pressas e levadas ao hospital, elas estão em tratamento, mas ainda não há notícias das seqüelas físicas e psíquicas do atentado covarde. Estes grupos encontram justificativa na interpretação limitada do livro sagrado, para considerar a mulher um ser inferior, devendo permanecer sem educação, reclusa em casa e coberta por um manto da cabeça aos pés. 
Os americanos que invadiram o país depois do atentado de 11 de setembro, em luta contra o terrorismo religioso, abriram as escolas para a mulher e levaram para lá o padrão de vida ocidental, rejeitado imediatamente pelos radicais religiosos. O que vemos ali desde então? Um país que já foi sede de brilhante civilização influenciada pela Grécia e Índia, tornou-se, em nosso tempo, território de atraso e barbarismo. Para isto contribuiu o interesse da Guerra Fria, quando os russos, com o propósito de aumentar sua área de influência, invadiram o país em 1979. Naqueles dias, os americanos apoiaram os grupos de radicais religiosos que se fortaleceram com o apoio e enfrentaram os russos. Durante doze anos uma guerra brutal teve por palco as belas planícies e muitas montanhas do país. A guerra durou até que as tropas soviéticas deixaram o país em 1989, quando, por conta da deterioração do regime comunista, esgotou-se o modelo imperialista da Antiga União Soviética. Os grupos de radicais religiosos que haviam lutado para expulsar os russos encontravam-se então bem armados para expandir o que acreditam seja o projeto de Deus para a humanidade. E foi assim que a pobre população, nos dois sentidos, viu-se dominada por fanáticos armados e os americanos provaram o resultado de suas políticas pragmáticas.
Não sabemos se o novo governo que ali se formou na última década terá força para enfrentar tais grupos radicais ou se com a saída dos americanos eles voltarão a controlar o país. O pior do episódio das jovens contaminadas é a justificação religiosa do atentado, mostrando o desastre que significa a religião ser é usada para escravizar a humanidade. O ocidente também não teve dias de elevação espiritual durante a Idade Média quando vigorou a intolerância religiosa, a perseguição aos judeus, à condenação das bruxas, as fogueiras, a inquisição.
Felizmente, a combinação da filosofia grega com o cristianismo e o código civil romano permitiu o reconhecimento da dignidade humana, favoreceu a tolerância, erradicou a perseguição religiosa e deu origem a movimentos pacíficos e ao retorno à pregação de Cristo. Estamos ainda muito longe da elevação humana pretendida por Jesus de Nazaré: igualdade em dignidade de homens e mulheres, fim da escravidão do homem pela religião, estímulo ao amor fraterno entre as pessoas, tolerância entre os homens, espiritualização crescente, etc. No entanto, parece um despropósito a religião contribuir para obstaculizar a elevação espiritual do homem.
O atentado contra as jovens é um alerta à consciência religiosa no sentido de que o que há de mais sagrado na mensagem religiosa é o  respeito humano, é o cuidado com as pessoas, é a educação que eleva seus interesses, educa seu egoísmo natural e fortalece a fé. A religião, como diálogo com Deus, se aceita e admitida, é convite de elevação espiritual e não instrumento de dominação. É o que a consciência moral aponta como diretriz nos dias que vivemos."