sexta-feira, 21 de julho de 2017

A vida como encontro. José Mauricio de Carvalho




Não há fato mais banal que o reconhecimento de que a vida humana se tece nos relacionamentos. Essa é uma realidade decorrente do caráter social do homem. No entanto, quando pensamos a vida humana como encontro queremos dizer mais do que simplesmente que estamos ao lado dos outros e que nos tocamos mutuamente. Autores importantes como Ortega y Gasset e Martin Buber, embora pensem a vida humana diversamente, destacam relevância da vida como encontro.
Buber pensará o tu como um mundo próprio, diante de quem é possível estabelecer o encontro. Seu olhar perspicaz se dirige para o que ocorre no momento do encontro e ele destacará a importância do que ocorre entre os dois eus, ambos serão moldados pelo entre que surge entre eles. E ainda mais significativo é o fato de cada Eu descobrir que esse Tu a quem cada qual dirige a palavra pode ser o próprio Deus. Esse Deus que Buber insiste devemos chamar de Tu, ou Grande Tu, é o mesmo que Jesus de Nazaré chamou de Pai. Nesses dois casos o que se destaca é a relevância da intimidade desse encontro com Deus. E Buber destacará o fato de que num mundo em que Deus não se mostra facilmente a construção de uma vida autenticamente humana fica dificultada e a relação com outros homens como Tu fica prejudicada. O horizonte existencial do homem se limita ao encontro o isso, que é a forma do pensador se referir às coisas.
De modo semelhante Ortega destacará o encontro com o Tu na vida pessoal, mas o foco para Ortega não é o entre os interlocutores, mas a experiência da outra perspectiva na minha vida. Cada qual vive a própria existência e a experimenta como radical solidão. O que se passa com o outro é um episódio a que assisto, sua dor de dente dói nele. Posso imaginar que sofre, mas não posso vivê-la por ele, mas posso me educar assim. Apenas o indivíduo pode ocupar seu lugar no espaço e apenas ele pode escolher sua própria trajetória existencial. Sua referência fundamental é a cultura como a realidade de referência que é capaz de orientar a existência de forma autêntica pelo balizamento do que o pensador denomina fidelidade ao núcleo mais íntimo de si e respeito aos outros.
É importante destacar que em ambos os pensadores o encontro é a base de uma existência autenticamente humana e em ambos a presença do outro (Tu para Buber e o Nós para Ortega) é anterior à consciência subjetiva, isto é, à descoberta de nossa vida singular ou de nosso eu. E assim, num e noutro caso a educação é o elemento decisivo na construção de uma vida humana, educação não apenas como aprendizagem do funcionamento do mundo natural, mas educação enquanto preparo para viver em sociedade como cidadão e para conviver humanamente.
Os esclarecimentos e aprofundamentos desses pensadores confirmam o que a Psicologia identificou, percebe-se a enorme importância de encontros pessoais e intensos como parte de uma vida humana. Encontros que são fundamentais na infância, embora conservem sempre esse caráter pedagógico. Encontro não significa a destruição de cada eu, mas sua afirmação diante do Tu, como diz o poeta: “que tenho de ver-te e não te posso ver, de ti separado por meus próprios olhos; que estás aí sentada, nascida tão totalmente fora de mim, isso me dói, como dores de parto”. Assim, de um lado é importante cuidarmos da educação de nossas crianças na formação de sua humanidade, por outro esse é processo de que devemos sempre nos ocupar. Esses encontros fundamentais são pautados na ética e no amor, ou em ambos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Agradecimentos. José Mauricio de Carvalho




A palavra inicial é de profunda gratidão aos professores Adelmo José da Silva, Paulo Roberto Andrade de Almeida e Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz, organizadores de Uma filosofia da cultura, escritos em homenagem a José Mauricio de Carvalho. Não o havia feito formalmente até aqui. Gratidão ainda aos outros treze colegas que completaram os capítulos e resenhas do livro e ao professor Tiago Adão Lara que preparou a apresentação. Dada a contribuição mais relevante dos colegas foi generosidade escreverem os capítulos e resenhas desse livro que mostra três eixos: 1. História da Filosofia Contemporânea, especialmente a Portuguesa e Brasileira; 2. Ética e Filosofia Política e 3. Psicologia e Filosofia Clínica.
O nexo que une os eixos é uma filosofia da cultura, inserida no culturalismo brasileiro, movimento que nasce do neokantismo e foi desenvolvido em diálogo com o culturalismo de Heidelberg, que entrou para a história da filosofia como Escola de Baden. A filosofia da cultura comentada nesse livro tem cinco pontos fundamentais que foram capturados no capítulo de Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz: 1. A cultura é objetivação de valores, embora produto coletivo ela se desenvolve e se renova pela ação de pessoas concretas; 2. A Filosofia penetra nos espaços culturais, identifica os problemas e propõe respostas, trata-se de concepção entre o neokantismo e as filosofias da existência; 3. Os valores estruturadores da cultura formam uma hierarquia entorno à pessoa humana que se aprofunda e ajusta às exigências da vida, mas também expressa um estilo de vida herdado da moral judaico-cristã, da herança racional da Grécia e da organização jurídico-política de Roma; 4. Sendo a cultura materialização de valores, o fim da existência se expressa como moralidade e 5. Se o valor nuclear da cultura permanece, os demais expressam uma época conforme estejam em plenitude ou ruína, segundo as palavras de Ortega y Gasset. A síntese desses pontos foi assim capturada por Mauro Sérgio (2016, p. 121): “O autor compreende que, enquanto vivente, o homem vai se modificando a partir do que projeta ser, de modo que seu objetivo é aproximar a função transcendental, inicialmente concebida pelo criticismo (kantiano), da espessura concreta da existência”. No capítulo que escreveu Anna Maria Moog também avaliou tratar-se da aproximação entre a perspectiva existencialista e a ótica neokantiana do culturalismo.
O livro O homem e a filosofia mereceu ainda resenha de Leônidas Hegenberg, notável lógico e professor no ITA.  Antônio Paim a partir da sua publicação, passou a falar de uma terceira geração de culturalistas na qual me insere, ao lado de Ricardo Vélez Rodriguez profundo conhecedor da filosofia brasileira. No capítulo que escreveu Ricardo Rodríguez, meu orientador no doutorado, fez brilhante síntese do culturalismo e do trabalho da nova geração de culturalistas da qual ele é o representante mais ilustre. Sua contribuição principal está em Tópicos especiais de filosofia contemporânea onde explica a problemática da cultura, da ciência contemporânea, da comunicação e da educação. Antônio Paim, por sua vez, estabeleceu a linha de desenvolvimento do culturalismo dizendo que a primeira geração dos culturalistas brasileiros foi liderada pelos jusfilósofos Tobias Barreto e Alcides Bezerra, e a segunda foi formada por Miguel Reale, Djacir Menezes e ele próprio. Também comenta, no capítulo que escreveu, a proposta de um curso de filosofia brasileira que está em Curso de Introdução à Filosofia Brasileira e menciona o trabalho de catalogação da produção filosófica nacional, tarefa de vários anos de investigação que rendeu os livros: Antologia do Culturalismo, onde se encontram textos raros de representantes da Escola e Contribuição contemporânea à filosofia brasileira, com três edições da EDUEL, a última em 2001.
Nesse primeiro eixo, ou da historiografia das ideias, quase tudo devo às orientações de Antônio Paim e Miguel Reale, o primeiro pela organização das ideias e ao segundo pelo método de investigação. Como observou Anna Maria em seu capítulo, a contribuição mais significativa dos estudos da filosofia luso-brasileira, além da catalogação, consiste num novo esquema interpretativo para o desenvolvimento da moralidade luso-brasileira da renascença ao século XVIII. Até então se distinguia dois ciclos: um barroco, que incluía parte dos séculos XVI e XVII e um segundo que ia até meados do século XVIII. Ao propor uma divisão em três ciclos tornou-se possível uma melhor compreensão do que se passava no Brasil, normalmente denominado de saber de salvação, que estava mais próximo do segundo ciclo português, embora estivesse cronologicamente ocorrendo durante o terceiro ciclo, mas do qual não se aproximava na mentalidade e problemas considerados. Além de esclarecer o fundamental da hipótese de Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira, Anna Maria resumiu a questão e concluiu (2016, p. 114): “na compreensão de José Mauricio, a tipificação do saber de salvação só se aplicaria ao que se passou no Brasil colônia, mas é pobre para referir ao que se passava em Portugal no mesmo período”. Esse livro comentado por Anna Maria foi trabalho de pós-doutorado feito sob orientação de José Esteves Pereira. No capítulo que escreveu o notável professor da Universidade Nova de Lisboa também analisou esse livro. Ele fez uma síntese do pensamento português, enriquecendo o que está no livro. Ele apontou detalhes importantes de como a abertura erasmiana fecundou e modificou o pensamento moral do período, dando clareza a sua construção lógica. Nesse comentário lembrou os estudos de José da Silva Dias, seu professor e outro grande conhecedor da história das ideias em Portugal. E mostrou, além do que havia dito Anna Maria, que o segundo capítulo onde se examina o legado político pombalino expresso no código jurídico escrito por Pascoal José de Melo Freire, ganha clareza com o entendimento ético-jurídico do período, assunto que ele desenvolveu no seu magnífico livro sobre Antônio Ribeiro dos Santos, tese de doutoramento, defendida em Coimbra, em 1980. O livro deixa claro que nossas dificuldades éticas se devem a uma modernização a partir do capitalismo ético normativo e do idealismo jurídico, com os quais a geração pombalina quis superar o debate moral. E nesses estudos sobre a filosofia portuguesa também devo muito a António Braz Teixeira, grande conhecedor do assunto, que sempre comentou as lacunas em meus estudos com elegância e generosidade.
Como parte dos estudos sobre o pensamento brasileiro, mas também integrado ao eixo de ética e política está o livro O pensamento filosófico e político de Tancredo Neves. Esse livro foi examinado por Paulo Roberto Andrade de Almeida. Também integra esse eixo o livro A vida é um mistério resenhado por Paulo Margutti, onde se estuda o tradicionalismo brasileiro e a contribuição de Severiano de Resende. Ambos os livros são caros ao coração são-joanense porque resgatam contribuições de conterrâneos ou pessoas ligadas à nossa terra que se tornaram figuras nacionais. Na resenha de A vida é um mistério, Paulo Margutti resume os quatro ciclos do tradicionalismo brasileiro e mostra a inserção de Severiano de Resende no último, destacando o estudo que fez dos temas mistério e existência e a aproximação com as teses de Henri Bergson, hipótese de que desconfia. No capítulo sobre Tancredo, Paulo Roberto resumiu, com maestria, a trajetória intelectual de Tancredo que fundamentava a liberdade humana e política na metafísica cristã. Ele mostra como foi construído o projeto liberal de Tancredo associado às sólidas noções da democracia cristã. Tancredo também defendeu o estado de direito, as políticas sociais, justificou teoricamente a opção nacional pela República, e o papel da religião na vida das pessoas e Estados. Paulo delineou o fundamental do que está no livro.
Sobre a tradição filosófica contemporânea, os estudos que dediquei a Ortega y Gasset e Karl Jaspers foram examinados por vários professores. Antônio Paim fez a resenha do livro sobre Karl Jaspers, Mauro Sérgio e Constança Marcondes Cesar comentaram o livro Ortega y Gasset e o nosso tempo. Adelmo José da Silva também comentou os estudos sobre Ortega. Os trabalhos dedicados aos fenomenólogos portugueses Delfim Santos e Joaquim de Carvalho foram mencionados no capítulo de Anna Maria Moog. No cuidadoso comentário do livro Ortega e o nosso tempo, Constança Marcondes Cesar reconheceu a importância do autor e as atualizações feitas nos conceitos criados pelo filósofo espanhol, como o de homem massa.
Nas resenhas de Mônica Aiub sobre o livro Diálogos em Filosofia Clínica, de João Bosco Batista a Estudos de filosofia clínica, uma abordagem fenomenológica ao lado das resenhas de Antônio Paim, à já mencionada obra Filosofia e Psicologia, o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers e Subjetividade e corporeidade na Filosofia e na Psicologia estão representados os estudos de Psicologia e Filosofia Clínica. Fica assinalado nesses e em outros livros não comentados que, por conta de sua especificidade como técnica psicoterápica, a Filosofia Clínica não é parte da chamada filosofia prática, em moda na Europa. Ela é uma técnica psicoterápica próxima as da Psicologia fenomenológica, embora dialogando singularmente com a tradição filosófica. Como faz a Psicologia Fenomenológica, a Filosofia Clínica confere destaque à história de vida em circunstância da pessoa. Há ainda o reconhecimento da singularidade existencial, a abordagem do sentido da vida, a confiança de que o homem pode reestruturar sua estrutura de pensamento, superando as dores da alma. São pressupostos que a psicologia fenomenológica buscou na filosofia existencial. Os movimentos inerciais da estrutura de pensamento recordam os deslocamentos dos campos da Psicologia da Gestalt, a identificação dos elementos com os quais cada pessoa aprende a fazer a analgesia da alma e a superar os choques da EP se aproxima das técnicas da psicologia fenomenológica. Diferenças existem, mas as psicologias fenomenológicas têm diferenças entre si.
Por sua vez, as resenhas dos livros Ética, feitas por Selvino Malfatti, Ética e Filosofia do Direito, por Arsênio Eduardo Correia e Mauá e a ética saint-simoniana elaborada por Shirley Dau integram o eixo de ética e política. O comentário de Arsênio contempla o principal livro que dediquei a Miguel Reale, observa o que há de singular no tridimensionalismo jurídico dele e sua contribuição ao culturalismo. No comentário ao livro Ética, levado a cabo por Selvino Malfatti fica claro que tomamos a moralidade judaico-cristã como base nos modelos éticos prevalentes no ocidente, mas que eles também dependem do debate moral da Antiga Grécia e dos jusfilósofos romanos. Além dessa raiz cultural profunda, Selvino identificou os grandes momentos do debate ético do ocidente e mostrou que hoje em dia não é possível discutir valores fora dos procedimentos consagrados pela moral social, laica e consensual. E concluiu Selvino (2016, p. 151): “Pudemos constatar que a hipótese de José Mauricio de Carvalho de que um conjunto de valores afetos à individualidade do homem, também denominados direitos do homem, evidenciou-se como consciência deles nas diversas experiências do Ocidente. Através de contínuas assimilações de legados de povos diversos e em tempos históricos diferentes, a consciência dos valores do homem constitui uma confluência cultural fazendo parte dos valores da pessoa humana”. Finalmente, na resenha que elaborou, a Professora Shirley Dau estudou o livro sobre o socialismo de Saint-Simon e sua repercussão no Brasil. Ela apreendeu tanto a inspiração culturalista da análise, a interpretação da ideia de história do século XIX, quanto a inspiração ético-política do socialismo de competência do filósofo francês.
Essa rápida referência aos capítulos e resenhas do livro é uma forma sincera de agradecer aos autores e organizadores. Todos os participantes desse empreendimento o fizeram mais por amizade que pelos méritos dessas teses. Esses livros singelos e seus problemas nasceram da pesquisa acadêmica que a Universidade Pública proporciona aos seus docentes. Assim, nesse agradecimento não poderia faltar uma palavra de gratidão à UFSJ e seus dirigentes, inclusive ao Prof. João Bosco de Castro Teixeira, Presidente dessa Academia e seu primeiro Diretor. Foi ele também o diretor no antigo Colégio São João, um espaço inesquecível de cultura, esporte e amizade, instituto destinado a formar o cristão e o cidadão e onde se encontram, ao lado da família, as raízes de minha formação humanista e cristã.



sábado, 8 de julho de 2017

AS SERVAS. .Selvino Antonio Malfatti.


















O livro The Handmaid's Tale (A Serva) vem vencendo décadas de publicações e republicações sucessivamente. Depois de ser encenado para cinema, agora será levado à TV italiana como novela com o título: La Ancella.

Pergunta-se: por que levar à TV uma obra que já carrega algumas décadas? Evidentemente a cima de tudo pelo seu valor cultural. Mas se pode ler nas entrelinhas outras razões. Estou pensando que se se mostrar um lado da moeda pode- se indagar pelo outro. Refiro-me à escalada de atos terroristas acontecendo na Europa devido ao fanatismo de um grupo religioso. No livro citado o fanatismo imaginariamente proveio de cristãos, mas, na Europa, concretamente, o que está acontecendo hoje é com muçulmanos. No livro o regime decorrente é totalitário, direcionado contra as mulheres. No entanto, em minhas viagens pelo mundo de civilização islâmica, no mínimo, de fato que se constata é a desigualdade escancarada em relação ao homem e à mulher.  Elas não são portadoras dos mesmos direitos que os homens. A começar que aos homens é permitida a poligamia, mas as mulheres estão proibidas de poliandria. Ao estupro, por exemplo, é plicada a pena de apedrejamento.  Os homens podem ocupar todos os cargos, as mulheres um mínimo. Não se vê contato entre homens e mulheres.É dificílimo ver mulheres trabalharem no comércio, praticamente só homens. Na dimensão religiosa nem se pode falar. 
São algumas hipóteses que se podem levantar sobre as razões levar a obra aos canais de televisão. Mas parece que a mais provável é um alerta.

A trama é relativamente simples, mas as questões abordadas envolvem a ética, a política, e o direito e, evidentemente, a filosofia.
Desenvolve-se tendo como cenário os Estados Unidos da América, país devastado pelas guerras e radiações atômicas. Os sobreviventes são raros, mormente as mulheres. Os que detêm o poder resolvem impor a procriação obrigando as mulheres a gerarem. Para tanto estabelecem um total controle sobre o sexo feminino nos moldes de um Estado totalitário. As poucas mulheres que sobraram com capacidade para procriarem, as servas, são constrangidas à procriação coercitiva, enquanto as demais são reduzidas à escravidão. A mulher, sem nome, passa a ser denominada de “Offred” , isto é,  “Dofred”, seu patrão, e apenas se sabe que vive na República de Gilead e que pode afastar-se de casa somente uma vez por mês, para ir ao mercado. Os produtos comprados não têm nomes, mas apenas desenhos, pois não é permitido às mulheres lerem. Aparentemente, “Dofred” está resignada ao seu destino. Internamente, porém, lembra-se de seu passado, sabe seu verdadeiro nome, e para sacudir o jugo pede para engravidar, pois esta é a única esperança de salvação.
O livro pode ser dividido em cinco itens:

11. O Enredo.

A devastação das guerras e a poluição são os elementos predominantes. Neste ambiente, um grupo de extremistas cristãos toma o poder e implanta um estado totalitário em que as mulheres são despojadas de todos os direitos.
São divididas em categorias: esposas, filhas, não-mulheres e servas., todas propriedade dos homens e a eles submetidas. Não podem ler, sair sozinhas de casa e proibidas de trabalharem. As que recebem o pior tratamento são as servas, as únicas férteis de todas das categorias, reduzidas a animais de procriação.
No topo da hierarquia social e política do Gilead está o Comandante da República. Calcado no preceito bíblico, segundo o qual, os maridos que tivessem mulheres estéreis poderiam relacionar-se com as próprias servas para gerarem filhos. Louvados neste preceito bíblico os Comandantes apropriavam-se de servas, mulheres férteis, num regime de completa escravidão com o único objetivo de procriação.


 2. A Serva
Em torno da figura de Offred e seu patrão, o Comandante, é contado o relacionamento com as demais servas e do Comandante com sua esposa.
Offfred, a Serva, lembra como era a vida anterior e está determinada não somente sobreviver como encontrar a filha desaparecida.
 3. Cenas chocantes
Logo após a publicação do livro algumas escolas simplesmente rejeitaram o livro e o proibiram devido a cenas de realismo por demais cruéis como é a cena da mutilação sexual.
 4. A questão do feminismo
Após a publicação, o livro tornou-se um baluarte do feminismo, inclusive algumas mulheres tatuavam-se com frases recorrentes do livro. Contudo os próprios intérpretes das figuras feministas, como de Offred, negam a intenção, afirmando que a personagem é apenas uma figura humana, sem nenhuma conotação política.
 5.  Conteúdos
5.1.        Política.
Enquanto numa utopia do tipo platônica ou de Morus se imagina um estado imaginário ideal, na Gilead se vive em extrema opressão, por isso pode ser caracterizada como uma distopia. Os comandantes, mais precisamente, o Comandante, têm a todos submetidos, mormente as mulheres. Estas, até mesmo religiosamente, devem ser rezar para que o Comandante engravide o máximo de servas.
5.2.        Ética
Esta é absoluta, pois não há meio termo ou a possibilidade de consenso. É uma ética só, a qual todos devem praticá-la. Tem como pano de fundo de que os fins justificam os meios.  As mulheres não podem trabalhar, não podem aprender a ler, não podem possuir nada. Para cada categoria de mulheres havia uma cor nas vestimentas e era absolutamente proibido usar outra cor.
5.3.        Direito
A antiga constituição foi queimada. Em vez de Estado de direito é Estado de dever, isto é, policialesco. As mulheres férteis, as servas, são obrigadas a gerarem filhos. É um Estado totalitário no qual ninguém tem direito algum.




sábado, 1 de julho de 2017

O caminhar do povo brasileiro pela história. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei












O Brasil mergulhou, nestes últimos anos, numa crise política que levou, inicialmente, ao afastamento da Presidente da República e, agora, mostra como a corrupção alimenta o processo eleitoral e o enriquecimento dos políticos. As coisas chegaram a um ponto insustentável nos governos do PT, mas é ilusão acreditar que o problema não existisse antes ou que não fosse tão extenso. Essa crença nasce do discurso antipetista, parte da polarização danosa que tomou conta do país. O afastamento do projeto social democrata e a implantação do projeto liberal conservador nem livrou o país da corrupção, nem promoveu a retomada do desenvolvimento. E as coisas pouco mudaram porque o que alimenta a corrupção e a crise econômica são fatores complexos inclusive o ambiente internacional dos negócios. O surto de desenvolvimento da era Lula, por exemplo, não ocorreria num ambiente externo desfavorável como o de agora. E internamente ainda se vive a tradição patrimonialista que mistura as coisas do Estado com a dos mandatários, fazendo com que o mal feito seja verificado desde as prefeituras mais pequeninas até a união federal, roubo democraticamente distribuído por todos os partidos. E esse ambiente, que se deteriorou nos últimos anos, foi alimentado pelo financiamento empresarial das campanhas e a multiplicação das legendas de aluguel. Para que se dimensione o absoluto descalabro a que isso chegou basta mencionar o Partido da Mulher Brasileira. Qual o projeto político desse partido? E igual a ele há um bom número de pequenas legendas feitas para vender apoio ou alimentar vaidades. O conjunto de fatores mencionados agravou o estado geral de corrupção que não resulta de nenhum Partido isoladamente, mas desse ambiente favorável alimentado por todos eles.
Para que se reduza significativamente a corrupção e se resgate a dignidade da atividade política será necessário mudar muita coisa: acabar com o financiamento empresarial das campanhas (que parece feito, mas que pode ser ressuscitado), eliminar os privilégios parlamentares e reduzir o número de políticos, baratear as campanhas, reduzir os partidos (para no máximo uns seis ou sete), punir as autoridades corrompidas e seus corruptores. Sem essas ações a corrupção ou ficará oculta ou reduzirá pouco. É também fundamental elevar o nível educacional da população e discutir a moralidade nas escolas e fora delas.
O ambiente suprapartidário de falcatruas não é aceito internacionalmente. Assim, a gestão pública horrorosa das coisas do Estado (os problemas de segurança pública: explosão dos bancos, bandos de marginais armados aterrorizando a população, número enorme de crimes, péssima gestão da saúde, má qualidade da educação, os ridículos transportes públicos, as estradas inqualificáveis, etc.) tudo com que aceitamos, mas que não é admitida internacionalmente. Essa má administração foi punida pelos americanos com a interrupção da compra da carne e a perda da ajuda internacional para a manutenção da floresta amazônica. Pouca coisa funciona bem.
Esse ambiente de corrupção e má gestão tirou o foco da noção de pátria como casa do povo. Casa entendida como ambiente cultural.Esse ambiente é sustentado por crença comum, que é uma fé, religiosa ou não. Pode ser um princípio fundador que esteja na origem do povo, ou um projeto político em que a sociedade se engaje por acreditar. De todos os modos precisará ser um ethos, uma casa comum que nasce da convivência e da crença compartilhada que amarra a vida do povo, que o instiga a vencer as dificuldades enquanto enfrenta as lides diárias.
Esse ethos é espaço compartilhado de crenças que liga cada um a terra dos avós e dos filhos. Essa noção de espaço nacional perdeu-se e é vilipendiada pela atual geração de políticos corruptos e empresários bandidos (ressalvadas as exceções). Reativar esse ethos que nos liga aos heróis conhecidos, ao trabalhador que sucumbe no esforço diário e ao militar anônimo que morre pela pátria, confiando num futuro melhor, numa democracia mais justa e num país bom para viver. E há muitos que assim fizeram e fazem. São esses heróis conhecidos ou não que precisam inspirar nosso destino em dias como esses que passamos.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

NOVE PRINCÍPIOS PARA “MANTER-SE COM O FUTURO”. Selvino Antonio Malfatti




Há um instituto de pesquisa, nos Estados Unidos, chamado Escola de Arquitetura e Urbanismo do Massachutts Institute ol Technology – o Media Lab.  Neste, os mais renomados cientistas das várias áreas tecnológicas desenvolvem pesquisas para melhorar a vida humana: aperfeiçoar o que existe e suprir as deficiências. Procura constantemente avançar nos conhecimentos tecnológicos. O Instituto parte da premissa de que a tecnologia pode trazer mais felicidade ao homem.  Nos últimos dez anos, o Media Lab avançou sobremaneira nos conhecimentos da “revolução digital” e na expressão humana. Dele saíram as pesquisas sobre cognição e aprendizagem, música eletrônica e holografia, mas também em pesquisas que facilitam e suprem as deficiências humanas como Alzheimer, depressão e socialização .
Recentemente foi editado um livro de Joi Ito  - Mantendo-se com o Futuro - no qual apresenta Nove Princípios para se manter nos próximos anos. Estes são uma pauta filosófica para poder viver inserido no que vai acontecer proximamente.

OS NOVE PRINCÍPIOS

I – Emergência de base substitui Autoridade de cima.

Autoridade.

Sistema que abrange produção, organização e distribuição do conhecimento de cima para baixo. O pressuposto é que o conhecimento resida ao alcance de poucos e que sua socialização depende de sua decisão.
Emergência
Graças à internet o conhecimento emerge de baixo para cima. As ferramentas das redes fazem com que você mesmo decida provocando um movimento de disseminação coletiva do conhecimento.

II – Puxar substitui empurrar (Pull X push)

Empurrar

Modelo de gerenciamento pelo qual se adquirem e se armazenam recursos. O controle é global e se emitem ordens de centro para margens.

Puxar

Os recursos são exauridos do interior do projeto somente enquanto necessários. A partir daí afluem das bordas através de redes de relações amparadas nas novas tecnologias das comunicações.

3 -  Bússola substitui cartografias

Cartas

Modelo segundo qual, antes de agir, apresenta uma compreensão detalhada da situação e um trajeto pré-definido. Deparando-se com obstáculos, é redesenhado o mapa.

Bússola

Num mundo veloz e repleto de imprevisibilidade é necessário valer-se da criatividade e estar prontos para mudar a rota.  Diante de obstáculos se os contorna e prossegue.

4- O risco substitui segurança

Segurança

Para se ter segurança, quando o custo for elevado para se colocar um produto no mercado ou disseminar uma ideia ao grande público, é preciso conseguir um projeto com protocolos e aprovações.

Risco

Com ferramentas 3D, os processos de produção são rápidos e seu custo baixo. Por isso, esta opção é preferível para ideias e objetos embora sujeitos a falhas eventuais.

5– Desobediência substitui concordância

Concordância

Na sociedade industrializada e voltada para a produção acredita-se que somente um número restrito de pessoas tenha capacidade criativa. Os demais devem se concordar com as ordens vindas deles.

Desobediência

Novos processos, mormente os de automação, abrem-se novos cenários do trabalho. Diante deste quadro terá mais sucesso quem se fizer perguntas, fia-se no instinto e se nega a seguir as regras quando são empecilhos.

6- A prática substitui a teoria

Teoria

Abordagem assentada sobre rigorosas previsões e monitoramento dos processos concluídos. Nenhuma proposta será aprovada senão após rigoroso estudo.

Prática

Num futuro de alta velocidade, esperar acarreta custos mais elevados que improvisar. Por isso é melhor produzir imediatamente novos protótipos e mudar de rota, calcados no princípio “aprender fazendo”.

7 - Diversidades substitui capacidade

Capacidade

Acredita-se que as pessoas mais inteligentes e melhor qualificadas numa disciplina também são as mais preparadas para resolver os problemas de seus setores.
Diversidades
Em tempos complexos os grupos variados são os mais produtivos. A delegação de tarefas não segue o critério do título, mas a demonstração de maior aptidão para qualidades cognitivas.

8 – Resiliência substitui força

Força

Tradicionalmente as grandes empresas se blindam para s protegerem de possíveis falhas. Para tanto, rodeiam-se de recursos extras, programam estruturas de gestão hierárquicas e processos impenetráveis para terceiros.

Resiliência

As empresas empregam um investimento tal que, se falhar, no máximo não há grandes prejuízos, mas um aprendizado das falhas. Por isso, se pensa que é mais lucrativo desistir do que resistir.

9- O sistema substitui o objeto

Objeto

O quadro tradicional industrial calca-se sobre preços de produtos individuais e o lucro é uma consequência do valor individual ou corporativo.

Sistema

Hodiernamente é sempre mais urgente considerar o impacto de um objeto como um todo num sistema de relações entre as pessoas, suas comunidades e os ambientes culturais que vivem.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A falta do mestre Reale.. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei




O julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer terminou com frustração daqueles que desejam um país sem corrupção e, especialmente, onde valor e justiça caminhem juntas.
O raciocínio seguido pelos juízes que votaram pela absolvição da chapa vencedora no último pleito presidencial foi a desqualificação da denúncia inicial, para que o processo ficasse ao ponto da absolvição, ainda que para isso fosse necessário fechar os olhos para o enorme conjunto de provas agregadas ao processo com as gravíssimas denúncias dos executivos da JBS. Ainda que as provas contidas na petição inicial não fossem suficientes para condenar a chapa, o que é bastante duvidoso, o conjunto de provas agregadas ao processo seria certamente mais que suficiente para conduzir o julgamento nessa direção.
O caminho seguido pela maioria dos juízes foi desconsiderar os fatos na sua integralidade em nome, provavelmente, da estabilidade econômica. Esse parece um raciocínio limitado, somente válido para os superficiais e oportunistas, porque não parece que a aberta mentira possa assegurar a legitimidade e a estabilidade econômica no médio prazo. Se não tiver efeito ruim imediatamente o terá no futuro, no momento dos próximos pleitos quanto o eleito deverá assegurar apenas que governará, não importa o modo como atinja o poder. Essa atitude dos juízes provoca uma grande saudade do mestre Reale, que para além de jurista era filósofo e fazia com que fato, valor e norma estivessem atadas pela força da consciência histórica. Valores que a consciência nacional reconhece como fundamentais para a convivência pacífica e justa dos cidadãos como honestidade, integridade e coerência não podem ser desprezados, mesmo que provoquem dor no momento.
No livro Miguel Reale, ética e filosofia do direito pode-se ler (Carvalho, 2011, p. 186/7): “A compreensão tridimensional do Direito sugere que uma norma adquire validade objetiva integrando os fatos nos valores aceitos por certa comunidade num período específico de sua história. No momento de interpretar uma norma é necessário compreendê-la em função dos fatos que a condicionam e dos valores que a guiam. A conclusão que nos permite tal consideração é que o Direito é norma e, ao mesmo tempo, uma situação normatizada, “no sentido de que a regra do Direito não pode ser compreendida tão somente em razão de seus enlaces formais” (p. 242).
A questão essencial desse tridimensionalismo jurídico para Reale não é, portanto, mencionar a aproximação entre a norma e valor numa certa circunstância dada. Isso foi feito de muitos modos ao longo da história do Direito. O que há de inovador na contribuição de Reale é tratar fato, valor e norma como partes integrantes de um processo histórico unificado, conforme ele explicou no livro Fundamentos do Direito (1940).
Nessa visão tridimensional elaborada por Miguel Reale o modelo jurídico não é pensado apenas pela coerência interna da lei, sem comparação com outras normas que, estando em vigor, possam alterar a sua significação. Ao serem posicionadas ao lado das normas já existentes, as novas normas dão um outro entendimento ao modelo jurídico em vigor. Para que a elaboração de novas leis não crie um instituto incoerente é preciso entender o tridimensionalismo jurídico como uma relação dialética entre norma, fato e valor. Para nosso pensador, não é suficiente pensar o tridimensionalismo como o faz Gustav Radbruch ou Julius Stone, que estudam separadamente fato, valor e norma”.
Para o julgamento em questão fica-nos aquela lição, naturalmente esquecida, de que a regra do Direito não pode ser compreendida somente pelos seus laços formais e a decisão judicial não pode criar um instituto incoerente firmado em jurisprudência.
                                  


sexta-feira, 9 de junho de 2017

ISMAEL E ISAAC – IRMÃOS BRIGUENTOS. Selvino Antonio Malfatti.












Causa estupefação a narrativa bíblica sobre os filhos de Abraão. Diz o texto que os irmãos Isaac e Ismael brigavam muito e por isso Abraão resolveu pedir para Ismael e Agar irem embora.  Da descendência de Isaac veio a civilização judaico- cristã. Da descendência de Ismael, a árabe, e dela o islamismo. Os dois irmãos tinham a mesma identidade, eram filhos de Abraão, mas com certeza tinham as suas diferenças senão não brigariam. É o paradoxo das duas culturas judaico-cristã e árabe: conflitam pelas diferenças sem se lembrarem de suas identidades. O mesmo acontece analogamente entre as civilizações cristã e árabe, especificamente: europeia e complexo árabe.
Alguns salientam as diferenças entre as duas culturas. No entanto, não se dão conta de que, se existe diferença, é por que existe alguma identidade. Quando se pensa o Dois e o Múltiplo, no fundo ambos provém de suas identidades por que estão alicerçados no mesmo princípio:  o Um.  Da mesma forma há diferença entre um e outro por que há uma identidade. Somente posso me referir ao outro se houver algo que os une. Sempre é necessária a ponte para transitar de um para outro.
Isto vale para o cristianismo e islamismo. Quem será capaz de negar a importância para o ocidente da tradição árabe na matemática, arte, ciência, e filosofia? Platão e Aristóteles estavam mortos e sepultados se não fosse a contribuição da filosofia árabe. Nossos conhecimentos sobre estes dois pensadores chegaram à Europa através do árabe Averrois, culminando cinco séculos depois com o Iluminismo e anteriormente com a Renascença, com a volta às origens.
Contudo a noção de identidade e diferença persiste. A matéria de uma escultura pode ser a mesma, mas o que diferencia é a forma. A pedra bruta – matéria – é a mesma daquela da escultura de Davi. A matéria é a mesma, o que os que diferenciam –pedra e escultura - é a forma.
Da mesma forma as duas culturas, europeia e árabe, podem ter tido uma origem comum. No entanto, o resultado, a diferença as separa abissalmente. Somente para ilustrar, o humanismo ocidental, a concepção de humano, os distancia de tal forma que praticamente não se reconhecem mais. Os mistérios dos sentimentos e da própria consciência, âmago da civilização europeia, oriunda de uma vertente grega, a tragédia e a poesia, desprezadas pela cultura islâmica, relegando-as ao secundário. A afirmativa de que a cultura oriental, mormente a islâmica, é o coração da ocidental tropeça quando buscamos nela o direito e o logos. Ou que o peso da teologia islâmica tenha sido tão importante para Europa como a teologia hebraica e cristã. Embora possa se encontrar traços da filosofia de Averrois em Dante, não é o essencial em Dante que se apreende, por que onde está a Comédia em Averrois? Completamente ausente. São duas realidades de intensidade diversa.
Além disso, onde encontramos no Corão a coexistência dos distintos, o profundo significado da Trindade cristã? Não é por acaso que toda cultura ocidental reflete a presença simultânea dos opostos: do cosmos e do caos, da forma e do disforme, do finito e do infinito.
Nas diversas ramificações do conhecimento europeu como história, filosofia e política, todas se apoiam na ideia de limite, distanciando-se do ilimitado, do senso comum de que a decisão nasce do consenso. Ainda, a possibilidade da convivência civil, calcado sobre a ideia de limite, mormente no aspecto político. E neste caso a teoria do direito natural como farol e guia político. Disso nasceram as grandes distinções próprias da cultura europeia: entre poder, saber e lei, entre teologia, moral e política. Isto não é nada mais e nada menos que a criação do estado laico, da democracia. E aqui está o nó górdio: a separação da teologia da política. Confrontando-se com o islamismo, não só a dita política radical como a moderada, deitam suas raízes islâmismo.
Por isso, pretendendo-se explicar a cultura europeia por raízes islâmicas é uma aberração. Temos uma mesma identidade originária, qual seja o mesmo Pai Abraão, ou a Humanidade, mas a partir daí emergiram as diferenças, radicais e profundas, que surgiu algo novo: a cultura europeia diferente da árabe, embora se reconheça os traços de sua presença.
A convivência entre árabes – muçulmanos e europeus – cristãos – não teve nada de idílico. Sabe-se que a Europa, na península ibérica, foi ocupada pelos árabes por quinhentos anos. No Levante Mediterrâneo assistiu-se a um prolongado e sangrento conflito de Veneza com os turcos. As rapinas sarracenas no início do século XVIII nas costas italianas. A caça às mulheres, homens e saques. A ocupação otomana semi-milenar nos Bálcãs com opressões contra os cristãos, obrigados todos os anos entregar parte de seus filhos que seriam constrangidos a converter-se ao islamismo e educados em Istambul para servir os sultões.
E Infelizmente continuam os ataques terroristas na Europa por parte do mundo árabe: Paris, Londres, Roma, Bruxelas, Berlim, Madri entre outros. Ismael e Isaac continuam se agredindo.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Alimentando a esperança. José Mauricio de Carvalho




Ainda outro dia li um comentário que o Dr. André Dornelles Dangelo escreveu sobre políticos e filósofos inspirado em Olavo de Carvalho. Não pretendo polemizar com o amigo. Apenas tomei a inspiração para voltar ao tema.
Se for para ouvir filósofos, encontro melhor inspiração em Immanuel Kant e José Ortega y Gasset.  O primeiro o filósofo de Königsberg, que num pequeno ensaio intitulado Sobre a discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpetua, (Vozes, 1985) esclarece a diferença entre a moral e a política e com a experiência da modernidade supera a visão grega (platônica) e medieval (Santo Tomás) de que o dirigente político devia ser virtuoso.  Kant esclarece que se é inocência acreditar que A honestidade é a melhor política, é adequado assumir que (1985, p. 130): “a honestidade é melhor do que qualquer política (...), sendo mesmo condição indispensável da política”. Assim, ao mesmo tempo que descarta o governo de um moralista político (ao modo de Platão e dos moralistas católicos) já que não se pode ajustar a moral aos interesses do Estado, por outro lado é necessário o político moral, que concebe os princípios do Estado e do bem da sociedade fazendo-os coincidir com os interesses da moral. Desse modo, ele superou definitivamente a posição maquiavélica de que a Política é espaço contrário à moral, explicando que os princípios maquiavélicos: faz primeiro e desculpa depois, se fizer negue, divide e impera, etc. são (p. 140): “máximas políticas que (usadas por nossos políticos) não enganarão ninguém, pois são universalmente conhecidas”. Assim Kant recompõe as coisas. Se não é possível um governo de filósofos como queria Platão, também não o é o de um político que marche abertamente contra a moralidade e as leis.
Por sua vez, Ortega foi professor na Universidade de Madrid. Ele esclarece que a Política não é apenas espaço do pensamento, mas da ação. E num pequeno ensaio denominado Mirabeau o el político (O.C., Alianza, v. III, p. 601-637) mostra que esse personagem da Revolução Francesa conseguiu, com seu vigor, encontrar um caminho para a crise revolucionária da França. Por isso, Ortega descarta a presença do filósofo na vida política, pois o filósofo não é homem de ação. Em política não se pode ser como filósofo que contempla e analisa atos, quando é preciso agir. E, em seguida, diz (p. 622): “A vida de um grande homem político muda de aspecto no momento em que começa a atuar como homem público”. Porém, se ao agir o político é filósofo, sua missão é resolver as crises de seu povo e do seu tempo.
Nenhum dos dois filósofos patrocina a imoralidade, a corrupção contra os interesses da sociedade. Ou nenhum filósofo proclama o roubo da coisa pública não importa a ideologia. E ao voltar aos dois, pretendo primeiro dizer que todos os políticos corruptos devem ser presos e o dinheiro da propina devolvido integralmente aos cofres públicos. E para isso os corruptores que os levaram ao poder seriam os fiadores da dívida e companheiros de cela.
Por sua vez se não enterro a esperança de um país melhor sei que ele não virá sem algumas condições. Quando a elite sócio-econômica quis fazer entender que a culpa da crise era do PT, afirmei que a questão era mais ampla. O PT é parte do esquema, apenas não fazia o interesse dessa elite queixosa. E agora é hora de dizer, afastar Temer e colocar lá o Presidente da Câmara ou Senado adiantará pouco. Eleições diretas com as regras que aí estão não mudará nada: (dezenas de partidos, eleição cara, sem voto distrital, sem fidelidade partidária, sem uma lei dura contra a corrupção) 1. ou levará um novo ladrão à Presidência ou 2. alguém que, agindo honestamente, não governará. Portanto, é preciso acabar com o conluio entre maus empresários e políticos com uma duríssima lei anticorrupção, fazer novas regras eleitorais para a próxima eleição direta (que desencoraje a roubalheira) e ter um governo de transição com especialistas nas respectivas áreas e descolado da atual classe política. Tudo isso sem fugir da Constituição e do Estado de Direito. Nomes para liderar esse governo não faltam.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

CULPA. Selvino Antonio Malfatti





Um dos sentimentos humanos mais intrigantes é a Culpa. Como se manifesta? Uma aflição que aperta o coração. Seca a garganta. Uma dor vaga perpassa o interior. Persiste apesar de tentar esquecê-la ou afastá-la. Não estorva. Pode-se fazer o que se quiser. Mas ela fica, fica, fica. É como um perfume não desejado. É a sensação de culpa. Pode ser numa relação com Deus. Mas, quem é Ele? Por que não existe se existe? Se tem presença porque não está presente? É culpa de quem é que não é? E a culpa persiste porque o culpar-se por aquilo que se não é culpado é uma culpa.
É moral? Um e os outros? Uma infinidade de possibilidades. Supõe-se a mais radical: ter o necessário e secundário e faltar o essencial. Alguém possui não só o que necessita de essencial como dispõe do supérfluo. O outro estar privado do necessário. O primeiro pode sentir culpa desta relação. Como desfazer a culpa? Dando o essencial e viver do supérfluo? Dando o supérfluo e vivendo do essencial? Mas para quem tem o essencial o próprio supérfluo já se tornou essencial. Neste caso a única solução é continuar como está e rezar para que o outro consiga no mínimo o essencial. A oração acalma a consciência e traz a paz à alma. Deus providenciará. O discurso é humanitário e o agir impiedoso, mas sem culpa porque foi transferida para Aquele que é responsável pelo essencial e supérfluo entre os homens. À noite, no travesseiro da consciência, peço a Deus que dê a todos o necessário e durmo em paz.
A culpa é legal? As alternativas são reparação ou ocultação. A reparação pode trazer de volta a culpa. Por que se reparou quando se podia ocultar? A ocultação, por sua vez, continuamente remete à reparação e por isso se cai no círculo vicioso: se repara porque não oculta e se oculta porque não repara?
Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa for da estrutura como solucionar com a conjuntura? Se a culpa é institucional como posso eliminar a solução?
Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres,inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E nos filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí é uma culpa.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A pátria, a humanidade e a esperança. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



O homem nasce ligado à uma terra e à humanidade. Ele tem esses dois vínculos. O primeiro é uma circunstância espaciotemporal e o segundo uma comunhão espiritual. Não se deixa de ser cidadão do mundo porque se nasceu num terminado território, mas a vida nesse país somente ganha densidade quando se comunica, pelas criações do seu espírito, à comunidade humana. Em outras palavras, o alcance das questões e realizações universais passa pelo fortalecimento das criações nacionais. É com o desenvolvimento das nações que a humanidade se consolida, pois cada povo tem seu papel, maior ou menor, na construção dessa história comum. Parece que foi o que Georg Hegel escreveu em sua Introdução à História da Filosofia (4ª ed., São Paulo, Nova cultural, 1988, p. 121): “A forma particular de uma filosofia é sincrônica com uma constituição particular do povo, onde ela aparece, com as suas instituições, com as suas formas de governo, com a sua moralidade, com a sua vida social, com as atitudes, hábitos e preferências, com as suas tentativas e produtos científicos, com sua religião, com seus êxitos militares, com todas as circunstâncias externas, (...) nos quais surge e se desenvolve um espírito mais alto”. Esse espírito mais elevado era, para Hegel, uma razão universal, ou melhor a cultura humana em toda sua expressão.
Nesse sentido, um nacionalismo radical e isolacionista como o defendido pelos partidos de extrema-direita em diversas nações ocidentais é exemplo de caminho a ser evitado. A Frente Nacional, que concorreu recentemente às eleições francesas com Marie Le Pen é um pobre projeto nacional, porque pensa a nação isolada dos outros povos. Esse partido proclama um nacionalismo fechado, com fronteiras bloqueadas aos produtos estrangeiros e ao próprio estrangeiro. Nesse sentido, essa direita não é liberal como se pensa, ela é antiliberal, mas o pior é que não se enxerga parte de uma humanidade comum.
Em contrapartida, não penso que se possa, pelo menos no atual momento da civilização, deixar de lado o cuidado com as coisas nacionais, especialmente com a produção espiritual e o progresso nacional. Se, como Hegel disse, o espírito universal (1988, p. 88): “se vai enriquecendo com novas contribuições à maneira do rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente”, o equilibrado crescimento mundial depende do desenvolvimento das nações. Assim, é triste quando as minorias de um país como o nosso se descomprometem de seu destino. Boa parte da nossa elite econômica, para garantir miserável e ilegalmente o próprio enriquecimento subornou a elite política. Essa por sua vez, ocupada com seus privilégios e cômodos da vida, descomprometeu-se do destino nacional. E o problema não é de uma única empresa ou de um único partido, está generalizado nessa imoralidade de 40 partidos e um patrimonialismo que associa ilegalmente altos funcionários aos ricos empresários.
E parte dessa elite que espolia, sonega, furta, corrompe e é corrompida, nos momentos de dificuldade corre à busca de lugares para onde fugir, lugares que hoje avalia bons porque não permitem que se faça o que aqui eles praticaram. Os últimos fatos da política nacional mostram um conluio de empresários, marqueteiros e políticos para assegurar o enriquecimento próprio à custa da sociedade e do seu progresso, ameaçando a felicidade coletiva, o progresso e a sobrevivência do povo.
Por que a inserção no mundo somente se fará pela sociedade a que legitimamente se pertence, entendo que somente contribuiremos verdadeiramente para o futuro da humanidade e para o nosso pessoal, trabalhando honestamente pela nação a que pertencemos.

José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FRANÇA SÉJOUR , INGLATERRA EXIT. Selvino Antonio Malfatti.
















Se há dois países que não se bicam é Inglaterra e França. Admiro os ingleses nas ciências práticas, os franceses nas teóricas. Detesto a monotonia dos filmes ingleses, vibro com o raciocínio dos franceses. Detesto que os ingleses acolhem somente a quem se adapta a eles, admiro a abertura dos franceses. Admiro o humor inglês e detesto a secura francesa. Prezo a lisura francesa e abomino o portunismo ingles.
Tudo isso pelo Brexit da Inglaterra e o sèjour proposto por Emmanuel Macron. A União europeia foi uma conquista difícil, a qual a Inglaterra nunca aderiu de corpo e alma. Sempre com o pé atrás, a começar pela moeda. Aliás, sempre foi assim. A Europa introduziu o sistema métrico, a Inglaterra continuou com suas milhas. A Europa adotou mudou o sistema de pesos, a Inglaterra continua com polegada, pé, jarda etc. A Europa adota a medida de velocidade em quilômetros por hora, a Inglaterra usa nós e milhas. Sem falar na religião que a Europa tem como capital religiosa Roma, a Inglaterra Londres sua própria capital. A Inglaterra sempre tergiversou em relação à comunidade europeia.
Com efeito, o embrião da integração europeia começa se pode afirmar, em 1951 com o Tratado de Paris quando foi instituída a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço - a CECA. Assinaram este tratado Bélgica, França, Alemanha Federal, Itália, Luxemburgo e Holanda. Para a Assembleia da CECA, em setembro de 1952, os representantes designados pelos parlamentos de seus respectivos Estados, se dividiram em três grupos políticos: democratas cristãos, socialistas e liberais. Em Roma, em 1957, são assinados por França, Itália, República Federal da Alemanha, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo os tratados que dão origem a Comunidade Econômica Europeia, a qual dará vida, em 1958, ao Mercado Comum Europeu – MEC e à Comunidade Europeia para a Energia Atômica- EURATOM. Também para o Parlamento Europeu compareceram os representantes do parlamento de seus países, mantiveram sua divisão em grupos políticos. Com as primeiras eleições para o Parlamento europeu, a primeira ocorrida em 1979 e com de cinco em cinco anos, vão se definindo os quesitos para formação de um grupo político, bem como sua definição dentro do Parlamento. A Inglaterra começou ausenta, evoluiu para meio presente e finalmente se retirou.
Com a vitória de Emmanuel Macron, na eleição presidencial de abril/maio de 2017, no segundo turno, não somente tranquilizou a Europa como as esperanças de uma Europa unida se reacenderam. 
O final do pleito foi polarizado entre os que eram contra a globalização, a União Europeia e a Abertura, posição esta assumida pela candidata de direita, Marine Le Pen e Emmanel Macron, centrista, que se opunha a estas posições.  Já o representante socialista, Benoît Hamon, havia sido derrotado no primeiro turno.
Macron age e promete um governo liberal ao assinar o livre comércio da União Europeia e o Canadá. Afasta o protecionismo e defende uma Europa que proteja a globalização. Consta também como promessa de governo à implementação dos direitos sociais europeus que garantam padrões mínimos, como formação, saúde, saúde desemprego e salário mínimo. Na verdade, Macron se propõe a aprofundar o que já existe fazendo com que a União europeia funcione melhor, na opinião da cientista política Amandine Crespy, do Instituto de Estudos Europeus da Universidade Livre de Bruxelas.

Ao que indica, Macron aceitou o desafio de a França ser o Carro-chefe da União Europeia.