sexta-feira, 21 de abril de 2017

Os maus caminhos da política brasileira. José Mauricio de Carvalho - Academia de Letras de São João del-Rei



A atividade política é funda-mental para qualquer povo. Sem ela dificilmente um povo consegue desenhar um futuro, quer porque não formula metas e estratégias para alcançá-lo, quer porque não consegue resolver, com qualidade, os inevitáveis conflitos internos da vida diária. Um povo precisa, portanto, dessas duas ações: um desenho de futuro e solução para os inevitáveis conflitos internos de interesse. Quando a atividade política falha, perdem-se esses dois eixos estruturadores da vida nacional.
As delações da Odebrecht, parte de um processo de desmascaramento do jogo político em vigor, explicitam o desastre nacional. Um desastre não simplesmente porque mostrou a fraude do atual jogo político, onde o grande capital financia quem deseja colocar no poder para favorecer seus interesses imediatos. Um desastre não só porque todos os acusados sejam culpados sem direito a defesa, todos poderão se defender e provavelmente alguns se salvarão, mas o que está claro é que o jogo político inteiro está sendo continuamente fraudado pelo caixa dois e pela corrupção explícita.
As delações da Odebrecht escancararam o óbvio. Nenhum empresário financia campanha política a não ser com o duplo propósito de se colocar fora das regras de mercado e ganhar condição privilegiada nas negociatas com políticos guindados, imoral e ilegalmente, aos altos cargos do Estado. Esses políticos transformaram nossas Estatais em meios de arrecadação eleitoral. Sim, as empresas do Estado foram apropriadas pelos partidos políticos e se transformaram em instrumento de captação de recursos ilícitos, destinados a financiar campanhas caríssimas e a custear uma vida de luxo. E o preço para financiar essas coisas, marqueteiros pagos a preço de ouro e a compra da mídia é o dinheiro da sociedade. Essa trabalha cada vez mais e vê cada vez menos o resultado de seus esforços. Pagam-se duas estradas e se constrói uma, compram-se duas pontes e se tem uma, compram-se dois hospitais e se recebe um, financiam-se duas escolas e se recebe uma. Ficou claro, para quem a Lava Jato, que boa parte do péssimo serviço oferecido pelo Estado Brasileiro decorre desse esquema criminoso e bandido que sangra as finanças públicas e destrói o legítimo jogo do mercado.
As delações da Odebrecht são um desastre não apenas porque mostraram que o real motivo da existência de 40 partidos sem expressão ideológica, sem representação real é alimentar um jogo político corrupto, destinado a oferecer vantagens a líderes partidários, a afetar a disputa pelo poder e vender a governabilidade do Estado. Enfim, estamos assistindo um esquema que destrói a democracia liberal no que ela tem de fundamental, a liberdade política com regras claras e partidos políticos ideologicamente comprometidos e a liberdade de mercado controlada pelas leis do Estado.
De tudo isso a esperança de que essa geração de políticos seja afastada da vida pública, presa e devolva o dinheiro que desviou do Estado. Que os empresários envolvidos na roubalheira, seus sócios na expropriação do Estado e da Sociedade, capitalistas de mentirinha, mudem suas práticas. Eis a fórmula que criaram para destruir nosso país e a acabar com seu futuro: capitalismo sem regras e respeito ao mercado, Estado sem governança, parlamento incapaz de solucionar os legítimos conflitos da sociedade, partidos sem representatividade, judiciário perdido e povo perplexo, fechado no individualismo do salve-se quem puder e apavorado com a violência das ruas.
Talvez disso tudo surja um novo sistema de representação política, um novo quadro partidário, uma outra geração de políticos e um capitalismo diferente do que esse que sobrevive de discursos falsos de riscos inexistentes e da exploração do Estado. Se a sociedade conseguir se livrar dessas pragas talvez haja futuro. Sem educar as massas que hoje vivem com baixíssima escolaridade, sem reduzir a brutal diferença econômica das camadas sociais, sem romper a reprodução da miséria, sem um projeto de nação que nasça de todo o povo não conseguiremos ir longe. Vamos continuar a nos arrastar nessa parte meridional da América, em meio a ditaduras sanguinárias, estado patrimonial, idealismo jurídico, política sem representação, baixa escolarização e pouco respeito às normas morais.