sexta-feira, 12 de março de 2021

A CULPA. Selvino Antonio Malfatti

 



Sempre que a Humanidade se depara com um perigo de ameaça de destruição global surge a questão: que culpa temos disso? Aconteceu com os hebreus no Egito e na destruição de Jerusalém, junto com a diáspora. Na Europa invadida pelos bárbaros. Nas inúmeras epidemias que assolaram a Humanidade. Na era atual nas carnificinas das guerras, nos Campos de Concentração. Nos Apóstolos apavorados na tempestade do Mar de Genesaré. E neste momento diante da pandemia que nos ameaça destruir a todos? Pergunta-se: onde está Deus?

Quem é O culpado e por quê? Procura se pela Culpa Original.

Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa faz parte como componente da essencial da Humanidade, como posso me desfazer. Mas por que sou culpado?

Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.

Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres, inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.

Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.

E nos filósofos da existência, como vêm a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí.

Ou o homem é um ser-aí por si ou por outro. Evidentemente ele não é por si, porque se fosse não teria se feito apenas um ser-aí. Logo, ele é por outro, quer pela matéria, quer pela espiritualidade ou outra entidade superior a ele. Mas o porquê de sentir-se culpado é de poder se arrepender. Mas arrepender-se de quê? De ter aceito ou continuar aceitando ser apenas uma existência. Qualquer outro ser do universo pode não arrepender-se, menos o homem. Os demais seres não sabem que estão-aí. Somente o homem tem esta consciência. Enquanto o homem continuar aceitando esta condição de existência viverá se arrependendo e por isso se sente culpado. Se o homem pudesse se livrar do arrependimento deixaria de sentir-se culpado. Mas para desvencilhar-se do arrependimento da existência a única saída é livrar-se da existência. Mas com certeza é preferível viver e sentir-se culpado do que suicidar-se e livrar-se da culpa. Ele se arrepende de querer viver e por isso se sente culpado perante Deus, perante seus semelhantes e perante o universo. Se o homem como existência fosse imortal nunca se sentiria culpado. O arrependimento da existência o faz culpado disso. Ou exista e se arrependa e sinta-se culpado ou abandone a existência e livre-se do arrependimento e da culpa.

Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Não conseguiremos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada, toma consciência de si. Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo. Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Tudo se esvanece no passado longínquo o qual não conseguimos identificar. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.

O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se este for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea, na verdade, são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Morte.

A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite é a da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia, na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento, o sujeito não só contempla o objeto, mas também o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu- isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto, é estabelecida uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Dessa relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. A relação sujeito-objeto nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível, diz Soveral, desde que a relação que se estabeleça seja de natureza Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos intersubjetivos. Com essa relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito, na busca do Ser-em-Si-para-Si.

Mas, faz sentido buscar algum sentido para algo que parece sem sentido?

 

 

Postagens mais vistas