quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ano novo: entre o tempo cíclico e a progressividade. José Mauricio de Carvalho - Prof. do IPTAN

Estamos, conforme a tradição, nos aproximando do ano de 2016 contados do nascimento de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Cristo. Observe-se que não sabemos a ocasião exata do seu nascimento, 25 de dezembro foi uma data simbólica escolhida pela Igreja Romana, no século IV, para sobrepor-se às festividades do Deus Sol cultuado entre os romanos. Igualmente não sabemos se o nascimento de Cristo se deu exatamente no ano que a tradição estabeleceu. Esta data foi inicialmente calculada por Dionísio, o pequeno, com base em outras datas de referência do Império Romano (fundação de Roma, governo de imperadores, etc.). Os cálculos iniciais de Dionísio estavam errados e foram corrigidos posteriormente. Chegou-se então ao ano aproximado do nascimento de Cristo, tomando-se como parâmetro os governantes do Império Romano mencionados nos evangelhos. Com base nesses cálculos Cristo deve ter nascido entre três e seis anos antes da data estabelecida. Assim estaríamos, de fato, um pouco além dos 2016 cuja entrada vamos comemorar, mas isso importa pouco para o que destacamos, o olhar cíclico do tempo.
Para esse olhar cíclico, o solstício de Inverno (22 de dezembro no hemisfério norte) tomado como referência para o nascimento de Cristo e que era para muitos povos antigos símbolo do recomeço e do renascimento, significa uma nova era na história humana. A festa do solstício de inverno, desde os tempos da antiga Babilônia, também representava na consciência daqueles povos a ideia de que as coisas se renovam de tempos em tempos. Assim, quando comemoramos a entrada de 2016 estamos marcando um novo ciclo, um recomeço para nossas vidas. Essa ideia de renovação cumpre um papel psicológico importante num ser cuja experiência de viver é marcada pelos limites e pela dor das perdas. De fato, a nossa existência é transpassada pelo sofrimento, pela morte e pela culpa, realidades que fez os filósofos existencialistas falarem de um mundo quebrado para traduzir os limites e o fato de que as coisas em nossa existência não se encaixam bem. Na passagem para o ano de 2016 temos a oportunidade de lidar melhor com o que não conseguimos mudar e de mudar o que podemos para viver ainda melhor. Viver mais de acordo conosco, com nossas possibilidades, com aquilo que desejaríamos para nós, é saber a que se ater e a dedicar a vida.
Embora a ideia de renovação acompanhe a vida, pela possibilidade de refazer para melhor, as escolhas que temos que fazer, o próprio cristianismo que popularizou a ideia de renovação periódica do viver, também difundiu a ideia de tempo como um ir ao futuro. Este tempo por vir é o tempo em que o Senhor Jesus, que vive na Glória, estenderá seu Reino por toda a terra. E essa ideia de uma vida que no presente vive com os olhos no futuro é aquela que mais precisamos cultivar. Podemos sempre procurar ser melhor e recomeçar quando as coisas não vão bem, não é preciso datas especiais, temos o desafio de construir uma vida mais de acordo conosco, pois o que deve guiar nossa existência é um sentido de vida construído individualmente na meditação diária e, se possível, no autoconhecimento vindo da psicoterapia. Estar em paz conosco pelo caminho que escolhemos, superar as culpas pelo que não podemos mudar e não incorrer em novos erros é uma boa direção a seguir. Se conseguirmos tirar de nossa existência o melhor que ela pode dar, teremos um ano novo melhor do que aquele que passou e ajudaremos a sociedade a ser melhor do que foi. Esse é o desafio de viver quando olhamos a vida como um caminhar para o futuro, a vida é direção a um sentido. O modo de existir implica em não só saber enfrentar o que nos acontece com atitudes e valores que se formam na esfera da moralidade, mas também em ter um sentido de futuro pelo exercício consciente da liberdade.