sexta-feira, 24 de julho de 2015

A ALEMANHA, O CONTRAPONTO DA GRÉCIA. Selvino Antonio Malfatti




É opinião corrente entre os gregos e até mesmo recorrente de que a desgraça da Grécia está relacionada ao sucesso da Alemanha. Com efeito, dizem: roubaram-nos a língua, a filosofia, a ciência, a arte, a matemática e nos deixaram na miséria. Vejamos o contexto.
No momento a Grécia tem como líder político Alexis Tsipras- socialista e a Alemanha  Angela Markel - conservador, ambos herdeiros de um passado distinto que se reflete no presente.  O professor Ricardo Vélez Rodríguez, em "Menos Platão e mais Aristóteles", neste espaço, sugeriu que a Grécia está nesta situação porque não se adaptou às instituições políticas dos países da zona do euro e não tem mecanismos opara desembarcar e ao contrário, a Alemanha não só assimilou como foi protagonista do euro europeu. Aproveitando o tranco concordo, mas acrescento que isso aconteceu também no sentido dicotômico de idealismo versus realismo. A Alemanha condimentou sua política econômica com mais Aristóteles - realismo, enquanto a Grécia fez o inverso, priorizou Platão - idealismo. Por onde começamos?

Penso que uma data significativa para ambos pode ser o fim da II Guerra Mundial. A Grécia, libertada da ocupação nazista, alinha-se com os aliados e por isso sai vencedora; a Alemanha, causadora da guerra, a perdedora. A primeira, ainda durante o período bélico mundial, envolve-se numa guerra civil de cunho ideológico-político - socialista versus conservador – conflito que continuará após o término da conflagração mundial.
A Alemanha assina uma rendição incondicional e a guerra chega ao final. Já antes do término, os líderes aliados discutem o que fazer com a economia alemã. A decisão a que chegaram foi de destruir a indústria alemã e transformar o país numa economia agrícola. Era o Plano Morgenthau. Só após o fim da guerra este Plano foi mitigado. Assim mesmo, a Alemanha até 1947 definhava economicamente. Um dos problemas era o modelo econômico de mercado adotado pelos Estados Unidos, Inglaterra e França de um lado e o modelo estatizante da União Soviética. Ambos excluíam-se mutuamente. A solução encontrada foi dividir a Alemanha: uma parte ficaria com a Rússia e aí poderia implantar o seu modelo econômico e outra ficou com os demais aliados e que passariam a adotar o seu modelo.
Outra medida dos aliados foi de controlar a economia alemã através de salários e preços congelados e com isso controlariam a economia funcionando. Era aquilo que chamavam de inflação reprimida. O resultado era o pior possível. A oferta e demanda se autoeliminavam. Os preços deixavam de refletir o valor do dinheiro. Consequência: queda na produção, e em decorrência: escassez. Voltou-se tudo a estaca zero: economia de escambo em vez de monetária. As empresas passaram a trocar aquilo que produziam por aquilo que necessitavam. O efeito dominó não demorou. Os empregados também queriam ser pagos em mercadorias. E eles mesmos passaram a praticar o escambo, isto é, trocavam mercadorias que tinham por aquelas que necessitavam. Os trabalhadores não tinham mais incentivo para trabalhar e mesmo ganhar dinheiro. Queriam somente mercadorias. Como era necessário ter emprego para ter direito às papeletas de racionamento, conseguiam emprego, mas somente iam trabalhar duas ou três vezes semanais. O resto do tempo era dedicado a bicos e trocas. Esta situação econômica levou o país a quase total paralisia, chegando ao ápice em 1948.
A virada ocorre com Ludwig Erhard ao ser nomeado Diretor da Administração Econômica Bizonal propondo um plano econômico de reforma monetária junto com uma completa abolição dos controles sobre a economia. Os aliados receberam com ceticismo e desconfiança a reforma. Mas pouco a pouco o mercado negro desapareceu, os preços se estabilizaram, as mercadorias apareceram, os trabalhadores sentiram vontade de trabalhar e ganhar dinheiro e o povo sentiu vontade de comprar. Já em 1948, a Alemanha cresceu 143% e nas décadas seguintes uma das maiores taxas de crescimento do mundo.
E o que aconteceu com a economia da Alemanha oriental? Praticamente se tornou satélite da URSS, sem autonomia, subordinando-se às decisões superiores de Moscou, enquanto a ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram  à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses grupos por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica de economia social de mercado. Há que se frisar que a economia social de mercado não se identifica com o liberalismo econômico e nem com socialismo. A proposta é originária de ideias político-econômicas da própria Alemanha. A economia social de mercado pode ser entendida como uma combinação de liberdade de mercado com a eficiência proveniente da competência, bem como a garantia de uma existência digna para os setores menos favorecidos da sociedade.
O sucesso do plano foi secundado por alguns fatores que não dependeram diretamente do ministro Erhard. Entre eles, pode-se destacar que a situação catastrófica em que se encontrava a Alemanha não era da responsabilidade de nenhum partido recém-constituído. Em segundo, havia um ambiente cultural propício para a operacionalização de novas ideias econômicas, desenvolvidas durante o período nazista, com o objetivo de reorganizar a Alemanha após o fim da guerra.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permanece hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
A trajetória político-econômica da Alemanha foi de trabalho, poupança, austeridade, não gastar mais que se ganha, um programa conservador? Se isto é conservadorismo, então, esta foi a ideologia que levou a Alemanha a uma das nações mais ricas da Europa. Deem-lhe o nome que quiserem, mas que a receita não é só boa, como ótima. Por outro lado, a Grécia insiste em implantar um modelo de distribuição de benesses, emprego, redução da jornada de trabalho, incentivo ao consumo, facilidade de crédito. È um programa progressista? Se isto for progressismo então esta ideologia levou a Grécia à pobreza.  A Alemanha adota uma visão aristotélica, isto é, realista enquanto a Grécia fixa-se numa mentalidade platônica ou idealista.
Aí está posto o paradoxo - aparência de falsidade - mas verdadeiro: o realismo de Aristóteles, leva ao progresso, e o idealismo de Platão, à estagnação. Então, por que a Grécia não adota também mais Aristóteles e menos Platão?