sexta-feira, 4 de maio de 2012

UM CHECK UP NA DEMOCRACIA. Selvino Antonio Malfatti.




RESUMO
Se um medicamento não for corretamente prescrito, seus resultados serão maléficos. Com a democracia acontece o mesmo. A perversão de seus princípios anula os efeitos benéficos.






Todos nós, para termos uma vida saudável, de tempos em tempos,  necessitamos de uma revisão geral, um check up médico, para evitar que alguma doença invisível esteja nos matando silenciosamente.
Isto também deve acontecer no mundo das idéias, teorias e mesmo na ciência. Se Galileu não tivesse revisado a teoria geocêntrica, talvez ainda hoje estivéssemos vivendo cientificamente na Idade Média. Neste sentido foi o que fez Tzvetan Todorov sobre o regime político da democracia, no livro Os Inimigos Íntimos da Democracia.  No Brasil será lançado pela Companhia das Letras ainda neste ano por ocasião da vinda do autor para duas palestras, uma  em Porto Alegre e outra em São Paulo.
Todorov coloca algumas perguntas radicais, sobre a democracia.
- Ela é tão boa como parece?
- Sempre faz o bem?
- Não disfarça de bem o mal em algumas ocasiões?
Natural de Sofia, na Bulgária, reside na França desde 1963. Destaca-se como lingüista, mas ultimamente preocupa-se com os problemas que vem afetando a democracia principalmente no ocidente.
Acha que um das maiores feridas atuais, e do passado também, é aquilo que Alexis Tocqueville chama de ”tirania das minorias”. Isto acontece quando um grupo se arvora representante da opinião do todo e coloca seus interesses a cima da maioria. No tempo de Marx aconteceu com os industriais, no período de Stalin e revoluções socialistas com o partido e atualmente Todorov acha que é com setor especulativo das mega financeiras. Em todas elas há um germe totalitário, pois uma parte se considera o todo e impõe unilateralmente sua vontade.
Todorov diz que não é contra a democracia, mas sim contra os princípios que foram pervertidos e então passam a provocar efeitos perversos. Da mesma forma que um medicamento, se não for corretamente prescrito, seus resultados serão maléficos. Com a democracia acontece o mesmo. Napoleão, em nome da democracia, invadiu Espanha, Portugal, Alemanha. Para quê? Dizia ele que era para levar a democracia. Ele não se apercebia que em nome da defesa da liberdade acabava com a liberdade? Assim acontece atualmente. Os grandes banqueiros se agarram à liberdade de mercado para dominar todo o mercado. Fazem isso diretamente como políticos ou indiretamente transformando-os em seus títeres dóceis às suas vontades. Este é um problema da democracia, pois seu princípio de liberdade econômica anula seu espírito político. Sem liberdade política não há democracia.
Outro problema é lançar mão da tortura em nome da democracia. Assistimos pela mídia soldados torturando prisioneiros, urinando em cima de seus cadáveres ou arrastando-os para cá e para lá. O que acontece em Guantânamo? Que democracia é esta? Como são tratadas as pessoas? Com respeito, embora julgadas?
Acrescentaria o papel do judiciário nas democracias consolidantes. Há necessidade urgente de ser despolitizado. Um judiciário que nasceu e atua de acordo com a vontade do executivo, em vez de defender o estado de direito, age de acordo com o status quo proposto pelo governo.
 Em síntese, há uma necessidade premente de se aplicar um check up na democracia para detectar possíveis disfunções.