segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho

 


A Páscoa é uma festa fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.

O evangelho de Mateus relata (26, 17-19) que: 17 No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: — Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.

Bem antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida superior.

Somente Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos, mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção, devoção, veneração e respeito.

Assim, Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão milagrosa.

Depois da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e Ele em mim no amor do Espírito Santo.

Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.

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