sexta-feira, 1 de abril de 2016

Valores cívicos. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTAN





Os eventos de corrupção envolvendo altos funcionários da República e grandes empreiteiros, versão atualizada do patrimonialismo nacional, os primeiros enriquecendo ilicitamente e os segundos brincando de capitalismo, fazendo o discurso da livre iniciativa, mas ganhando dinheiro, sem risco, subornando as autoridades do Estado, que ocupa, há várias semanas, as manchetes do país. É um assunto já bastante comentado e, nessa altura, todos os corruptos e corruptores já deviam estar presos e o dinheiro devolvido ao Tesouro Nacional. Contudo, algumas postagens nas redes sociais, hora queixando-se de que as medidas se direcionam contra um único partido, outras apoiando a intervenção militar e outras ainda defendendo ações não amparadas em lei pelo juiz que conduz o caso, me estimularam a voltar ao tema.
Não quero, contudo, tratar o óbvio, todos os ladrões, de qualquer partido, que tenham se beneficiado dos esquemas de corrupção, que empobrecem o Estado e a Sociedade, devem ser punidos. Não pode haver exceção para aqueles que enriquecem e vivem uma vida de luxo ilicitamente obtida, às custas da maioria dos brasileiros que luta com extrema dificuldade para viver. A investigação precisa atingir e punir todos os corruptos. Porém, isso deve ser feito dentro da lei, tanto a condução da investigação, quanto o respeito ao direito de defesa. Quanto às Forças Armadas, que continuem a cumprir seus deveres constitucionais. Se em nossa história interferiram no processo político, hoje devem se manter no estrito cumprimento das leis, pois é organização fundamental para a segurança do país e das Instituições Republicanas.
São os valores cívicos, ou sua ausência que nos chama atenção. Se a população está entendendo, com grande sofrimento, que não se pode ter um país razoável quando  dirigentes roubam o patrimônio público, isto mostra que o roubo, em qualquer de suas formas e níveis prejudica toda a sociedade. Se os maus empresários escrevem péssima história no capitalismo, que os livres empreendedores cuidem de ser bons empresários, paguem os impostos devidos e assumam o risco das atividades, para as quais são recompensados. Enfim, é no cumprimento dos deveres e na prática dos valores cívicos que se fortalece a nação e se cultiva a esperança.
Muitos séculos antes de Cristo, o filósofo grego Aristóteles, em outro contexto e de outro modo, postulou não valores, que são objetivos e moldados culturalmente, mas virtudes cívicas, que são os hábitos de natureza moral que o cidadão desenvolve e lhe permite cumprir suas obrigações com o Estado. Independente do anacronismo dessa forma de entender virtude, como potência própria do homem de natureza moral, ela considera um fenômeno fundamental: a relação de amor e dedicação do cidadão para com seu Estado. A areté ethiqué de Aristóteles, que tem um sentido distinto do que hoje entendemos por virtude, reflete, contudo, a excelência no cumprimento de suas obrigações, que o tornava bom e fazia de sua Cidade-Estado (Pólis) um lugar ainda melhor. Cidade da qual ele se orgulhava de pertencer e morar. No caso de Atenas, seus habitantes a ela se referiam orgulhosamente como a linda localidade, iluminada pelo sol mais claro do Mediterrâneo, lugar onde a deusa da sabedoria escolheu para habitar.
É um pouco desse amor e carinho pelo Estado que sobrava nos antigos gregos que precisamos cultivar. Não naquela completa identificação do cidadão com a cidade, mas assegurando a liberdade pessoal. Nesse novo contexto, comprometer-se contudo, como os antigos gregos, com os destinos dessa nação, pela qual tantos deram e dão o melhor da vida ou a própria vida.