sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A cidadania em nossos dias. José Maurício de Carvalho


O mundo passa por momentos turbulentos. Revolta no Egito, guerra civil na Síria, manifestações nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. Não é o primeiro tempo de confusão da história humana e não será o último, pois vida é processo, não importa se dos indivíduos ou da sociedade. A realidade onde a vida ocorre modifica-se e a história é sempre cheia de mudanças. Transmuda-se o ambiente social e se transforma o espaço pessoal, mudam as condições de vida das pessoas e da sociedade. Quando isso ocorre pede-se uma nova vida nesse novo tempo.
Se olharmos para as manifestações podemos identificar uma inspiração comum: o desejo de participar mais do destino da sociedade, a esperança de tomar nas mãos os fios da história coletiva. E o propósito do homem de hoje de fazer o futuro da sociedade como se tece uma malha parece continuidade daquilo que os existencialistas diziam há algumas décadas. E o que diziam? Que a vida do homem não é cenário já armado, um palco de teatro em que todos têm os papéis já definidos e cada artista sabe exatamente o que fazer. O artista deve unicamente representar a história ensaiada à exaustão. A vida de verdade não é assim, não é uma peça já escrita sem a nossa participação. Nela as escolhas tecem o destino trazendo o esperado e, muitas vezes, também o que não se espera.
O que diferencia as manifestações como a feita ontem nos Estados Unidos em comemoração à célebre marcha pela cidadania de Martin Luther King e as manifestações no Brasil? Não é o desejo de viver numa sociedade melhor, sem discriminação social, economicamente menos desigual, mais tolerante com as diferenças, mais inclusiva, com governos mais eficientes na gestão da coisa pública. Isso é comum ao homem de hoje. A sociedade humana, por mais desenvolvida que seja, sempre terá espaço para melhorar. Parece que nós nunca conseguiremos uma sociedade perfeita em todos os seus aspectos.
O que diferencia as manifestações de lá e de cá é a consciência da responsabilidade cidadã com o bem público. Não faz sentido cobrar o que não se faz. É legítimo exigir que as autoridades não usem o bem público em benefício privado. Por exemplo, é legítimo pedir que o governador do Rio de Janeiro não utilize os helicópteros do estado para levar a família para a praia ou que o servidor público não receba propina pelo trabalho que realiza e pelo qual é pago. E esse mesmo direito impõe o dever de fazê-lo conforme prescrito em lei, de não destruir o patrimônio que é de todos ou é de alguém, mas que seguramente não é só do manifestante. Inclua-se aí a falta de direito de emporcalhar o ambiente social e provocar intranquilidade e insegurança.
A notícia da semana foi a visita da Presidente da República à São João del-Rei para anunciar a liberação de recursos para recuperar monumentos históricos em mais de quarenta cidades da federação. A visita foi cortesia da Presidente para com a cidade que comemora trezentos anos em 2013.
E ali, entre os que foram agradecer os recursos para os monumentos, manifestantes de preto e suas bandeiras estiveram agitados. Gritaram, hostilizaram os policiais, ofenderam a Chefe da República, queriam passar à força pelo isolamento que os policiais faziam e, entre uma gritaria e outra, comiam bananas. As cascas iam para o chão da Avenida da pobre tricentenária, fazendo o inferno dos transeuntes e a tristeza dos garis. E esses jovens, a maioria o era, independente da causa porque lutam vão perdê-la enquanto quiserem impô-la à força e por não associarem o direito de protestar ao dever de respeitar o público. Impor à força o que se julga direito é próprio de radicais que ainda não aprenderam a viver na democracia representativa. Espera-se que aprendam em algum momento.
Um Estado democrático é não só organização jurídica no sentido moderno (soberania, povo e território), mas criação de cidadãos que aprenderam a negociar interesses e respeitar os dos outros enquanto apresentam os próprios. A democracia moderna vem mostrando que não bastam boas causas, como viveu o Pastor Martin Luther King, é preciso saber apresentá-las. Há um modo certo de fazer o que se julga certo para merecer que a causa de alguns seja de todos. As manifestações mostram que o cidadão deixa de sê-lo quando adota posições radicais e apela para a violência. Ele perde mesmo a humanidade quando perde a capacidade de ter e dar razão, por isto Luther King merece nosso reconhecimento e respeito e sua causa foi incorporada pela sociedade americana.