sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PLANEJAMENTO URBANO, UMA NECESSIDADE PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. José Maurício de Carvalho.



O país continua se desenvolvendo apesar da crise financeira mundial que já se arrasta há alguns anos e hoje afeta principalmente a Europa. O ritmo diminuiu, mas não entramos na estagnação que afeta outras nações do mundo. Infelizmente nosso desenvolvimento está longe de nos colocar próximos das sociedades mais avançadas do mundo e a simples redução do ritmo do crescimento traz as coisas para mais perto da realidade. Isto não significa também que somos submergentes como começaram a dizer há algumas semanas economistas e jornalistas de países mais adiantados. A atual avaliação é tão irreal como foi a anterior, apenas indica que eles conhecem pouco o país, tanto seus problemas como suas virtudes e potencialidades.
O desenvolvimento do Brasil afeta a vida de todos os seus habitantes, mas as cidades de porte médio, em especial as que se encontram em torno a cem mil habitantes são aquelas que sentem com maior impacto o processo atual. E os estudos de geografia humana mostram que o desenvolvimento está mesmo mais concentrado nesse tipo de cidade que estão recebendo produtos e serviços até pouco tempo fora do seu universo: hospitais especializados, universidades, pequenos shoppings, bons restaurantes, espetáculos  teatrais, condomínios fechados, centro de convenção, etc. Estas cidades são também aquelas que passam por um crescimento demográfico mais acentuado do que de outras áreas do país. Grandes Metrópoles e cidades pequenas, por exemplo, de modo geral não estão passando por um crescimento urbano tão acelerado como o que ocorre nas cidades mencionadas.
Esta situação afeta cidades por todo país de norte a sul. No país são centenas de cidades nesta situação. O desafio de continuar crescendo garantindo a atual qualidade de vida exige a urgente implementação de medidas de planejamento urbano em todas elas.
O que o corre nestas cidades é que cresce sem planejamento, a circulação de veículos se aproxima do congestionamento total, o transporte público é ruim. A preservação da área histórica está cada dia mais difícil, não há projeto de novos parques, praças ou jardins, nem preocupação com áreas permeáveis, nem arborização, nenhum cuidado com a volumetria das ruas e regiões, sem se falar em zoneamento urbano, tratamento de esgoto, qualidade da água oferecida à população. Geralmente o pouco cuidado que existe se concentra na área histórica por conta do trabalho voluntário dos membros dos Conselhos Municipais de Preservação do Patrimônio Cultural. Contudo, ações planejadas não podem se limitar à área histórica da cidade.
No final deste ano escolhemos os políticos que dirigirão a cidade nos próximos anos e este foi o desafio mais importante e urgente que enfrentamos. Todos nós escutamos o que eles tinham para oferecer, analisamos seus planos de governo. Agora vejamos o que eles farão. Não basta asfaltar uma rua aqui, fazer um passeio acolá, ou realizar pequenas obras pontualmente, tudo sem planejamento, sem cuidado especial com a área histórica, sem pensar o crescimento das outras áreas, enfim, sem zoneamento urbano e plano diretor. Planejar é verdadeiramente progresso e não, como sempre ouvi dizer, derrubar casas antigas, asfaltar sem estudo do impacto nas áreas históricas, construir edifícios sem nenhuma estrutura urbana para acolhê-los.  Estes desafios atuais das cidades precisam ser enfrentados por prefeitos e vereadores preparados para viver no século XXI. Caso contrário, em poucos anos enfrentaremos problemas que nunca tivemos ou que não precisaríamos ter e de correção muito difícil, se os governantes não tiverem determinação e competência de seguir os ditames da administração pública.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

POR QUE O NATAL É LIBERDADE? Selvino Antonio Malfatti





O ser humano normal quer ser bom, justo, verdadeiro e amável. Mas, apesar de querer ser isto, a toda hora escorrega e se porta exatamente ao contrário. Isto causa tristeza e decepção. Por que este dilema de querer ser algo que realiza, dá alegria, enobrece e, ao invés, enveredar para algo que diminui, dá tristeza e empobrece?
Existem várias explicações ou teorias. Uma delas a qual poderíamos denominá-la de natural apóia-se na presença simultânea no ser humano da racionalidade - que quer o bem – e a animalidade - que segue o caminho dos instintos. Como razão, o ser humano conhece o bem e com a mesma razão pode desvirtuar os instintos dando origem ao mal. Disto nasce o dilema de querer o bem e fazer o mal.
A segunda, a sobrenatural, é aquela que dá uma explicação envolvendo uma divindade ou um ser a cima do homem. Alguns teólogos cristãos, entre eles Santo Agostinho, apresentam uma explicação sobrenatural do fenômeno da dicotomia entre querer o bem, mas escolher o mal. Explicam eles.
Somos criaturas imperfeitas, pois Deus não podia criar outro Deus. Por isso fomos criados limitados e conseguintemente nem sempre sabemos o que é o bem, o certo, o verdadeiro, o justo. Ele nos criou à sua imagem e semelhança, isto é, livres e racionais, mas limitados na razão e na liberdade. Portanto, nem sempre entendemos corretamente e muito menos usamos a liberdade para o bem.
Deus que nos criou, colocou em nós a vontade para o bem, mas como não somos iguais a Ele, de podermos querer só o bem, em nós há também uma força que nos imanta para o mal. Isto aconteceu com todas as criaturas racionais que ele criou: os anjos e os homens. Só que os anjos tiveram só uma oportunidade de querer o bem ou o mal. A escolha era para sempre. Os que quiseram o mal se tornaram Demônios e eternamente só quererão o mal. Os que quiseram o bem são Anjos e eternamente só quererão o bem. E isto irá acontecer ao homem também. Após a morte cada ser humano ou optará pelo bem e sempre será bom ou optará para o mal e então nunca mais vai querer o bem. Não é Deus que nos condena para o bem ou para o mal, mas somos nós que faremos a escolha.
Na primeira escolha o homem falhou e sua consciência ficou avariada, isto é, nem sempre consegue discernir claramente o bem ou o mal. Então, para que o homem pudesse ver com mais nitidez, Deus ajudou: mandou seu filho Jesus Cristo. Ele veio para ser o exemplo de escolha do bem. Diversas vezes na vida dele apresentou-se a oportunidade de fazer o mal, mas ele deu as costas e optou para o bem. Por isso se apresentou como modelo de liberdade, isto é, não ser enganado pelo mal. Por que ser livre é estar livre do mal.
A questão fundamental está em podermos ser livres. Se conseguirmos dominar a nós mesmos, podemos fazer o que quisermos. Quando há algo que nos domina, não somos livres e por isso não podemos fazer o bem. O Natal, a vinda do Messias, nos ensina como agir para sermos livres.
Se formos livres podemos:
- amar a nós mesmos, nos admirar, não nos considerarmos um traste. Ter orgulho de nós. Sermos felizes.
- amar nossa esposa, esposo ou namorada, namorado. Sermos realizados, felizes.
- amar nossos pais, filhos, irmãos. Sentir a emoção de ser família.
- amar a comunidade, o grupo, a escola, o bairro, a igreja, a vizinhança. Sentir segurança no seu seio.
- poder olhar-nos nos olhos e sorrir, abraçar, beijar.
Por isso, o Natal nos ajuda a tirarmos as algemas que amarram e soltarmo-nos, ficarmos livres e só querermos o bem.

F E L I Z  N A T A L  


                                        




sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Os valores e a imprensa. José Maurício de Carvalho




Continuando a alternância de postagens, o professor José Maurício de Carvalho aborda uma questão já levantada neste espaço: o dinheiro pode comprar tudo?

Os valores e a imprensa

Os conflitos entre Israelenses e Palestinos da faixa de Gaza (irmãos que se matam), a lembrança das Guerras do Iraque e Afeganistão, os atentados terroristas em Nova York, Londres e Madrid, além da violência que hoje em dia povoa o noticiário sobre São Paulo, todos são episódios que nos colocam diante da quebra da moralidade. Há quem argumente sem surpresa: o homem se mata desde que está na terra. E isto é verdade, a moralidade é conquista íntima e não coisa da natureza. Contudo, em outros tempos, não se tinha tanta consciência de que a vida humana é nosso maior valor. Também não era claro que ideias divergentes sobre Deus não justificam matar ninguém. E para este reconhecimento contribuiu não só os dois milênios de cristianismo e outro tanto de tempo das religiões presentes entre os homens, mas os dois mil e seiscentos anos de Filosofia. Todo este reconhecimento converge para a dignidade humana consolidada na Carta dos Direitos Humanos, em outros documentos da ONU e nas filosofias do Direito que embasam as Cartas Constitucionais da maioria dos povos.
Além da violência um outro episódio recente jogou pó de mico na mídia: a venda da virgindade, pela internet, por uma jovem catarinense (reportagem da Veja de número 47/2012). O assunto colocou em evidência a incomoda questão da venda de tudo, num mundo que mergulhou, desde o último século, no materialismo e hedonismo angustiado. Enfim, de repente a imprensa ficou tocada com a prostituição, embora milhões de jovens se vendam diariamente. Até agora o fato preocupava pouco. Mulheres vendem seus corpos há tanto tempo, apesar do fato ferir a humanidade delas, como os filósofos ensinam desde a antiga Grécia. Cristo, que não era filósofo, protagonizou um encontro maravilhoso com uma prostituta, salvando-a de morrer apedrejada, mas orientou-a a não continuar a vender o corpo. Muitas vezes é a miséria que leva as mulheres à prostituição e no caso não faz sentido falar de desumanidade, pois é a sobrevivência que está em jogo, a própria e a da família.
Dar-se conta, como novidade, de que nem tudo em nossa existência pode ser colocado à venda é deparar-se com uma questão tão velha como a humanidade. Entretanto se isto chama atenção agora este é um bom momento para voltar ao assunto. Popularizou-se o dito que tempo é dinheiro, mas só é no mercado. Tempo é o tecido de nossas vidas, é do que dispomos para amar e construir o sentido de nossa existência.
Não custa recordar que, como ensinou Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo, o capitalismo floresceu associado à uma visão religiosa de mundo. Portanto, marxistas de plantão, nada de culpar o sistema e desviar a atenção das escolhas. A justificativa para o trabalho árduo e quotidiano não era, no início dos tempos modernos, o enriquecimento, mas completar a criação divina. E se o enriquecimento vinha ele era indício de salvação. Porém se o dinheiro levasse ao luxo suntuário ou luxuria o sujeito estava embarcado na primeira classe para o inferno.
Há muitas coisas que o dinheiro não compra: a dignidade, a honestidade, a amizade, a veracidade e outros valores fundamentais para a vida social. O dinheiro pode levar à indignidade, inverdade ou a desonestidade, pois muitos valores não são assegurados pelo dinheiro. O dinheiro não assegura, por exemplo, o respeito e a amizade, só a bajulação. O respeito nasce na consciência. Quem precisa do dinheiro para respeitar o outro não reconheceu nele dignidade e mostra sua própria vileza.  A riqueza é um tipo de valor, ajuda a melhorar a vida, mas não guia todas as relações entre os homens, pelo menos não quando pensamos eticamente. E a moral não é descartável, mas o que firma o tecido social. Mesmo que alguém pague um médico para fazer um procedimento delicado ou ao psicólogo para tirá-lo da lama existencial o que garante, em última instância, que o profissional dará o melhor de si é a sua consciência moral. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

NATAL E FÉ. Selvino Antônio Malfatti


                                                 

 Alegoria da , por L.S. Carmona

Pouco a pouco o clima natalino vai tomando conta dos cenários. Inicia com as chamadas comerciais, com a ornamentação, com a música, TV, rádios, jornais revistas. Expande-se e envolve todo o ambiente e quando se vê se está dentro do Natal.
Não é deste Natal, porém, que queremos falar, mas do outro, daquele da Fé. Esta entendida como uma aceitação de outra dimensão da realidade. Pela fé se acredita no sobrenatural. É a mensagem deixada por Bento XVI em Porta Fidei - por ocasião do anúncio do Ano da Féconvidando o mundo para ingressar na fé proclamada pelo Cristianismo.                   
Há diversos modos de chegar à fé e também de perdê-la. A primeira forma de fé é aquela que se instala nas pessoas ao natural. Quando se dá conta faz parte da vida. Ela penetra na alma através do leite materno, do ambiente familiar e social. Esta fé não se adquire, nasce-se com ela. É uma fé sem ruptura, pacífica. As decorrências e conseqüências seguem um fluxo normal dentro do meio que se vive. É uma fé de Santo Tomás, de São Francisco, de Santa Clara e de Santa Ana.
A outra se origina do conflito. Há um passado que precisa ser sepultado para poder dar espaço a ela. Esta fé nasce da violência consigo mesmo e com o meio. A partir da opção pela fé passa-se a queimar os antigos deuses e adorar o que se queimou no passado. É uma fé de São Paulo e de Santo Agostinho.
Há então duas direções na relação entre fé e razão: uma que parte da fé para a razão e outra da razão para a fé. Geralmente quando se chega à fé pelo segundo caminho, ao da razão para a fé, esta não se a perde jamais. O primeiro caminho, o da fé para a razão, é aquele que mais leva a perda da fé. Pelo segundo, a razão sente-se insatisfeita, inquieta, frustrada pelas respostas às questões existenciais. Pela primeira, a razão se sente quase traída pelas soluções propostas pela fé. A razão que busca a fé dificilmente voltará atrás, mas a fé que busca a razão às vezes retrocede e se torna descrente ou ao menos sente mais dificuldade para conciliar razão e fé.
A fé é a transposição da incerteza do fenômeno para a certeza da verdade. A razão é a dúvida da certeza perante o fenômeno. A fé faz a passagem daquilo que é apenas uma hipótese, uma aparência, um indício para uma certeza. A razão se nega a atravessar o mundo do fenômeno e acatar a certeza. A certeza para a razão nunca existe a não ser a certeza da incerteza. A fé faz a passagem e após ela encontra a razão. A razão não encontra a fé, mas esta encontra a razão. A fé é uma antinomia da razão, mas a razão não o é da fé.
Feita a transposição da razão para a fé, tudo se torna mais fácil. A mente parece iluminar-se e a razão passa a perscrutar com infinita liberdade as magnas questões da ciência. A discussão atual, por exemplo, sobre a origem do universo através do Big Bang foi antevista por Santo Agostinho há quase dois mil anos: a ausência de tempo e espaço antes da criação. Tudo era nada e Deus não fazia nada e não, como diziam os céticos, preparava o inferno para os descrentes, como alguns queriam brincar com questões tão sérias. Se a fé precede a razão cronologicamente, a razão, posteriormente, fundamente cientificamente a fé. E enquanto houver fé, haverá sempre esperança de caridade.
O Natal é um ato de fé, quer entendamos e cremos, quer cremos e entendamos, numa nova relação entre Deus e o homem. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA.José Maurício de Carvalho















Como anunciamos, a partir de agora teremos a colaboração do Professor José Maurício de Carvalho que leciona na Universidade Federal de São João del-Rei. É graduado em Psicologia, Filosofia e Pedagogia. Na pós-graduação possui especialização, mestrado e Doutorado. Concluiu estágio de Pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade federal do Rio de Janeiro. É membro do Instituto de Filosofia Luso-brasileira, com sede em Lisboa. Atua também como consultor de diversas revistas científicas. Destaca-se como professor de filosofia, ética e cultura. Segue o artigo.


"RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA
A semana começou com notícias duras para a humanidade: acirrou a crise econômica na Europa, o Paquistão testou com sucesso um míssil capaz de levar ogivas nucleares, aumentou o desmatamento da Mata Atlântica na costa brasileira, ocorreu novo massacre de crianças e mulheres na revolta popular contra o governo da Síria e houve intoxicação criminosa de jovens estudantes afegãs. A última notícia choca tanto pela novidade, quanto pela justificativa.
Grupos radicais islâmicos que não aceitam a educação da mulher e sua dignidade promoveram o atentado que quase levou a morte 150 jovens. Socorridas às pressas e levadas ao hospital, elas estão em tratamento, mas ainda não há notícias das seqüelas físicas e psíquicas do atentado covarde. Estes grupos encontram justificativa na interpretação limitada do livro sagrado, para considerar a mulher um ser inferior, devendo permanecer sem educação, reclusa em casa e coberta por um manto da cabeça aos pés. 
Os americanos que invadiram o país depois do atentado de 11 de setembro, em luta contra o terrorismo religioso, abriram as escolas para a mulher e levaram para lá o padrão de vida ocidental, rejeitado imediatamente pelos radicais religiosos. O que vemos ali desde então? Um país que já foi sede de brilhante civilização influenciada pela Grécia e Índia, tornou-se, em nosso tempo, território de atraso e barbarismo. Para isto contribuiu o interesse da Guerra Fria, quando os russos, com o propósito de aumentar sua área de influência, invadiram o país em 1979. Naqueles dias, os americanos apoiaram os grupos de radicais religiosos que se fortaleceram com o apoio e enfrentaram os russos. Durante doze anos uma guerra brutal teve por palco as belas planícies e muitas montanhas do país. A guerra durou até que as tropas soviéticas deixaram o país em 1989, quando, por conta da deterioração do regime comunista, esgotou-se o modelo imperialista da Antiga União Soviética. Os grupos de radicais religiosos que haviam lutado para expulsar os russos encontravam-se então bem armados para expandir o que acreditam seja o projeto de Deus para a humanidade. E foi assim que a pobre população, nos dois sentidos, viu-se dominada por fanáticos armados e os americanos provaram o resultado de suas políticas pragmáticas.
Não sabemos se o novo governo que ali se formou na última década terá força para enfrentar tais grupos radicais ou se com a saída dos americanos eles voltarão a controlar o país. O pior do episódio das jovens contaminadas é a justificação religiosa do atentado, mostrando o desastre que significa a religião ser é usada para escravizar a humanidade. O ocidente também não teve dias de elevação espiritual durante a Idade Média quando vigorou a intolerância religiosa, a perseguição aos judeus, à condenação das bruxas, as fogueiras, a inquisição.
Felizmente, a combinação da filosofia grega com o cristianismo e o código civil romano permitiu o reconhecimento da dignidade humana, favoreceu a tolerância, erradicou a perseguição religiosa e deu origem a movimentos pacíficos e ao retorno à pregação de Cristo. Estamos ainda muito longe da elevação humana pretendida por Jesus de Nazaré: igualdade em dignidade de homens e mulheres, fim da escravidão do homem pela religião, estímulo ao amor fraterno entre as pessoas, tolerância entre os homens, espiritualização crescente, etc. No entanto, parece um despropósito a religião contribuir para obstaculizar a elevação espiritual do homem.
O atentado contra as jovens é um alerta à consciência religiosa no sentido de que o que há de mais sagrado na mensagem religiosa é o  respeito humano, é o cuidado com as pessoas, é a educação que eleva seus interesses, educa seu egoísmo natural e fortalece a fé. A religião, como diálogo com Deus, se aceita e admitida, é convite de elevação espiritual e não instrumento de dominação. É o que a consciência moral aponta como diretriz nos dias que vivemos." 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A VIRGINDADE PODE ESTAR À VENDA? Selvino Antonio Malfatti.





A propósito da celeuma provocada pela catarinense Ingrid Migliorini que colocou em leilão a própria virgindade suscitaram várias considerações desde legais até éticas. A pergunta radical que se pode fazer é a seguinte? Pode alguém vender a própria virgindade? A resposta: pode, mas não deve. Não só a virgindade como qualquer parte do corpo. Com certeza a pessoa tem o poder físico, mas não o moral. Por quê?
Existem duas vertentes que embasam este pensamento. Uma delas, atualmente é defendida pelo pensador português Eduardo Abranches do Soveral. Pensa ele que através da História e nos meios culturais mais diversos emergiram um conjunto de valores que são alicerce da civilização e mesmo o sustentáculo da sobrevivência da humanidade. Estes valores não são propriedade exclusiva de um povo, mas estão disseminados entre todos eles e como tal propriedade da humanidade. Estão presentes entre muçulmanos, hindus, judeus, cristãos.
Diz ele que não somos nem deuses nem animais, nem absolutamente perfeitos nem absolutamente imperfeitos. Somos humanos, por que somos limitados pela cultura que nos cerca: a comunidade, as circunstâncias, os objetos culturais, os vivos e os mortos. Daí a questão: como posso definir minha autodeterminação em tais circunstâncias? Como posso balizar minha ação?
Continua Soveral. Os elementos constitutivos essenciais do agir humano emergem dentro da história: homens concretos, situados num contexto cultural no seio de uma linguagem que também é histórica e cultural. Embora racionalmente se possa admitir que uma ética universal pudesse ser fruto de um pensador genial, concretamente isto não ocorre. A moral seria individual, histórica e até mesmo relativa. A reflexão sobre a moralidade nos leva à ética que possui princípios universais, válidos não só para o “hic et nunc”, mas supra temporal e supra histórico.
Cada homem se reconhece que não é puro espírito, trans lúcido e absoluto. No entanto, constata um impulso incontido de autodeterminação. Como conciliar este paradoxo: não ser algo e querer ser este algo? Diante disso os pensadores chegaram à conclusão - e Soveral entre eles - de que a vontade de autodeterminação deva estar relacionada com um absoluto que possua a plena autodeterminação. É pelo absoluto ao qual o homem está relacionado que o desejo de autodeterminação encontra seu fundamento. Com isso se pode explicar o elo entre o perene e o transitório. Pela razão o homem consegue iluminar e mesmo entender a atividade de um sujeito absoluto presente na história. Então desde o momento que o homem reflete os objetos culturais está se debruçando sobre dados sensíveis e a partir deles busca o transcendente. A ética se refere à estrutura transcendental da ação humana, embora buscada numa cultura dada, concreta e histórica, está relacionada a um Ente que encarna o absoluto presente no transitório.
A outra vertente, também concorda com a historicidade dos modelos morais, mas procura outro fundamento ético. Esta vertente considera os valores como um fruto da comunidade e não podem ser desobedecidos porque não são valores privados, mas públicos. São frutos do consenso da comunidade e já se desprenderam do indivíduo e se tornaram coletivos. É defensor desta vertente o pensador brasileiro Antonio Paim. É o que o filósofo Michael Sandel no livro “O que o Dinheiro não Compra”, afirma a propósito da venda da virgindade por parte de Migliorini. Ambos concordam que há uma esfera a cima do monetário, do econômico. O dinheiro é um valor e a dignidade é outro. Esta não tem preço.
Diz Paim que a ética consensual nasceu historicamente na Inglaterra devido principalmente a proliferação de várias morais individuais, mormente as religiosas. Para contornar a dificuldade, quando se chocavam, nasceu na sociedade um conjunto de princípios de comportamentos éticos a cima das morais individuais, consensualmente aceitos. Nesse sentido a ética não tem seu ponto de apoio no absoluto, mas na comunidade.
Quer adotemos um, quer abracemos outro, sempre se depara com uma ética que estabelece comportamentos universais.
Por isso, pela moral individual Migliorini pode vender a virgindade, mas pela ética do absoluto ou do consensual, não. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O “CINQUENTA TONS DE CINZA”. Selvino Antonio Malfatti.





O cenário do romance de E. L. James passa-se em meio a chicotes, açoites, bolas, laptop e iPod. O “Dominador” Christian e a “Submissa” Anastásia entregam-se completamente aos prazeres do sexo. Ele, prisioneiro dos complexos infantis e juvenis, porta-se como Hórus. Ela, ora aprovada, ora desaprovada pelo interior e pelo inconsciente, é Vênus. Ambos mantêm um relacionamento sexual tenso e prazeroso. Em qualquer ambiente encontram motivos para novas experiências. No escritório, quarto, cozinha, restaurante, corredores, mas principalmente na Sala Vermelha da Dor o impulso sobrepõe-se às suas vontades e eles o satisfazem. Basta se entreolharem para mergulharem de corpo e alma nesta volúpia. E o fazem sem culpa nem remorsos.
Nestes momentos para eles o mundo ao redor se tornar etéreo e se deixam levar ao abismo pela voracidade. Às vezes tudo é lento, espontâneo. Outras, sofreguidão da abstinência. Um vácuo para ser preenchido com o tudo. Puro cosmos de deleite, ânsia do belo, do nada, infinito e eterno cabendo num átomo de segundo. Esfuzia-se a alma diante do esvaecimento do corpo. Aos borbotões jorra o prazer esquecido do sofrimento. É a morte que vive, revive, transfigura-se. Cada membro do corpo pode sentir e tocar a felicidade total. A alma se entrega ao inefável. Morre a lógica, vence a natureza. Os princípios se calam. Os sistemas se esfumam nas contradições. As teorias agonizam perante o viver da vida. Tudo rebrota e floresce. O universo se abraça à felicidade de provar o inalcançável. Quer-se escuridão porque a luz pode findar num segundo aquele momento desejado e repelido. O prazer desceu na esteira do raio e transformou-se em leito desnudo. Como é doce aquele morrer porque é por ele que se sente a vida palpitar no gemido do sofrimento gozoso. Por que não queria? Por que proibia? Quem proibia devia ser alguém ciumento por que queria guardar só para si toda a beleza da bondade. Que importa o castigo se a felicidade supera todo o sofrimento? Por que não fazer o mal se ele é tão doce à alma? A deusa fica vazia e repleta, ofegante, em repouso. Ela possui tudo e quereria não ter nada. Esta é a morte mais inebriante dos vinhos para a alma.
A mente está vazia de medo. Quer apenas aquele momento, único, esperado e amedrontador. A deusa queria e não queria. Hórus queria. O corpo consente e a alma deseja. Quem diz que carne é fraca? Ela convence a alma que não queria. Os dois, vitoriosos, se congratulam e festejam a vitória sobre a proibição. A provação passou. Agora é a hora da recompensa e do regozijo.
Por que se chama de queda esta suprema vitória da natureza? A taça espumante e transbordante chegou aos lábios sôfregos. Sorvida, entrou pelas moléculas do corpo fazendo-as estremecerem. Os instintos satisfeitos aquietaram a alma inquieta. Ela precisa de um lugar para repousar. Sua quietude está no corpo que carrega como um casulo. Em vão se debate na busca de fantasias. A felicidade está com ela, basta dá-la. A natureza não deixou longe o que a alma e o corpo precisam. Depositou neles. Basta apanhá-los. A alma inquieta procurando onde repousar e encontrou a paz no corpo. Mas isto é efêmero. Por que o efêmero não se torna eterno?  
Vênus ou Hórus, quem sobrepujará? O amor ou o sexo?


terça-feira, 9 de outubro de 2012

O DESPOJO DA MORTE - A DEUS MEU IRMÃO DELCI . Selvino Antonio Malfatti











Ainda sem abrir os olhos para o mundo sentimos o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por quê os mais velhos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.

Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por quê o pai? Podia ter durado mais alguns anos. Mas quando se aproxima de mim! A esposa? O irmão? O filho? De repente se dá conta que ela ronda já por perto. Mas aí? Mas aí já é o meio do caminho. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Antes da abocanhada final se vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca seca.  Partido ao meio sobrou apenas a metade. Mas o pior é que a metade perdida vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem saber onde pousar. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?

Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou. 

Enquanto as almas entoam o aleluia, os corpos balbuciam o “miserere mei, Domine”. Elas se comprazem com as doçuras celestiais mas eles se abrasam no fogo do inferno. E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

As almas não podem esquecer seus corpos. Tudo o que elas fizeram o foi por ele. As almas devem voltar, tomar em seus braços os corpos e levá-los perante Ele e suplicar por eles. Eles também devem viver, ser felizes, ressuscitar. Transfigurar-se e se tornarem iguais às almas. As almas devem voltar à terra para que os corpos possam subir ao céu. Então sim, unos, inteiros, homens. Por ora te entregamos a Deus, irmão Delci.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

CIVISMO DE CABELOS BRANCOS. Selvino Antonio Malfatti.



















Nesta semana, dia 1º de outubro, foi comemorado o Dia do Idoso. Já no domingo, dia 7, haverá eleições municipais.
Se examinarmos as propostas dos candidatos - tanto para prefeito como para vereador – surpreendemo-nos com a ausência de propostas de políticas específicas para idosos. Não se propõe, por exemplo, dar-lhes prioridade no atendimento médico-hospitalar, facilidade no transporte, incentivo ao lazer, cuidados com a saúde. Nada, é uma lacuna que chama a atenção.
Em contrapartida, os idosos são a faixa etária que mais participa nas eleições, Praticamente todos os idosos até oitenta anos votam. E se atentarmos para o fato que esta população está aumentando e já representa uma grande fatia do eleitorado os candidatos, no mínimo, estão desperdiçando uma oportunidade para conquistarem votos. Só no Rio Grande do Sul, são 1,6 milhão de idosos com mais de setenta anos que podem votar, conforme o Tribunal Superior Eleitoral. Sobre uma população total de 7,7 milhões pode–se dizer que a população idosa é 14%, uma expressiva porcentagem certamente. Em outros estados praticamente se mantêm as taxas.
Mas o dado mais significativo é a presença dos idosos nas eleições. Embora a partir dos 70 anos não seja mais obrigatório, assim mesmo continuam a comparecer às urnas. Conforme trouxe a público o professor Ângelo Bós, da PUCRS, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da referida universidade, evidenciou que 91 % dos pesquisados de 60 a 69 votaram na última eleição e entre os que tinham 70 a 79 55% votaram e os que estavam na faixa etária de 80 a 89, 32% votaram. Como se percebe é maciça a participação cívica nas eleições dos idosos. Por isso não se pode entender como os candidatos simplesmente “esquecem" esta fatia do eleitorado e não lhe dão a devida atenção. Repito: nem que fosse por interesse.A mesma pesquisa revelou um dado que causa admiração: 16% dos que possuem mais que 90 anos compareceram às urnas.
No Brasil os funcionários do setor público são descartados aos 70 anos. Não importa o investimento da sociedade neles através de impostos, nem a vontade do interessado em continuar trabalhando. É compulsoriamente afastado do trabalho. Em países desenvolvidos o funcionário com esta idade é aproveitado em setores onde não há necessidade de esforço físico, mas de capacidade mental. Com efeito, é neste período da vida que a maturidade, a síntese intelectual, a experiência, a neutralidade em relações às paixões estão superadas. Por isso é o período de maior rendimento científico e administrativo. Estes funcionários são aproveitados nas universidades, autarquias, nos poderes governamentais, nos institutos de pesquisa avançada, enfim onde se exige o maior aprimoramento intelectual. No Brasil, nesta idade são jogados na lixeira.
No setor privado anda um pouco melhor. Mas aí esta pessoa tem que competir com mais jovens e que são mais promissores para a empresa. Entre empregar alguém com 70 anos e um jovem de 25 a 40 anos a opta-se pelo que pode fazer uma carreira mais longa na empresa, diferente do setor público cuja carreira foi toda nele. Mesmo assim, pessoas mais idosas ocupam cargos de chefia, de orientação e aconselhamento e mesmo de lideranças políticas. Basta olhar para países desenvolvidos para se comprovar como os idosos estão no topo e liderança da economia, finanças, indústria, comércio e mesmo política. É só acessar Estados Unidos, Alemanha, França, Japão, Itália, Reino Unido e até mesmo a Rússia.
Os idosos com uma renda razoável estão bem por q   eu podem pagar. Mas os demais? Há idosos que residem com a família e que dividem seu magro salário com os demais. Há aqueles que sofrem maus tratos dentro de seu próprio lar. Há os abandonados em casas de idosos completamente esquecidos pelos familiares. Há os discriminados pela sociedade só por que não conseguiram acompanhar a tecnologia. Há os doentes socados num canto de hospital morrendo à míngua. Há os doentes incuráveis que suplicam por uma eutanásia.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CANDIDATO IDEAL E ELEITOR REALISTA. Selvino Antonio Malfatti



Na pesquisa sociológica Max Weber utilizava ou propunha um método diferente mas muito eficaz. Dizia ele que se poderia partir de uma concepção ideal e através dela medir a realidade social. Por isso seria necessário se perguntar como seria um tipo ideal, por exemplo, de santo, de pecador, de administrador e assim por diante. Evidentemente não existe na realidade, mas apenas como tipo ideal. Este mesmo método poderia ser aplicado à política. Daí a questão: qual seria um tipo ideal de candidato?
Conforme o cientista em política da UNICAMP, Valeriano Costa, os candidatos deveriam reunir alguns traços característicos para que fossem bons políticos. Evidentemente nem todos teriam todos e muito menos todos seriam idênticos. São pessoas ideais que a realidade não as reproduz integralmente. Este é apenas um método para facilitar as escolhas pessoais ao se confrontarem candidatos reais. Nós temos uma imagem ideal com a qual comparamos o nosso candidato real. Um candidato ideal deveria congregar as seguintes qualidades: Poderíamos dividi-las em teóricas e práticas.
A.   Teóricas

1.    Trajetória de vida limpa. Ter um passado público e privado inatacável. Livre de envolvimento com atividades condenadas pela lei, pela moral e pela ética.
2.    Agir com transparência. Seria mais ou menos o que propunha a moral positivista: “agir às claras”. A vida deste candidato está sempre disponível.
3.    Autenticidade. Significa uma e mesma identidade: a do cidadão comum e daquele que vai pleitear um cargo público.

B.   Práticas
1.    Noções de gestão. Saber administrar, a começar pela própria família, escola ou empresa.
2.    Conhecer a realidade. Ser alguém que tenha um mapa espelhando a realidade do município. A sede, os distritos, bairros, vilas e interior.
3.    Escolaridade. Atualmente para qualquer emprego se exige um mínimo de escolaridade. Na política este mínimo poderia ser o segundo grau, sem se falar nos rudimentos da informática.
4.    Empreendorismo. Ser observador e administrador. Enxergar a possibilidade e decidir-se por ela.
5.    Praticidade.  Não perder-se em conjeturas estéreis. Ser realista.
6.    Governabilidade. Ter uma sustentação social e política.
7.    Legitimidade. Esta significa que a negociação implicará numa aceitação da maior parte possível na qual todos e quase todos ganham.
O eleitor ainda deverá levar em conta outro aspecto. Se o candidato for para o executivo deverá preencher um perfil, se for para o legislativo outro. Para o executivo exige-se que o candidato seja um administrador, enquanto para o legislativo um negociador. Um deve ser gerente, outro fiscal. Os papéis não podem ser invertidos sob pena de nenhum deles cumprirem suas funções.  Um vereador não pode prometer que irá construir uma ponte, nem o prefeito dizer que vigiará os gastos da câmara de vereadores.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

PODER E MORALIDADE. Selvino Antonio Malfatti






A Universidade Federal de São João Del Rei, Minas Gerais, através de seu departamento de Filosofia e Métodos, realizou em 2010 a XIII Semana de Filosofia, cujo tema foi o debate em torno da questão do totalitarismo e da moral. Participaram professores de todo Brasil e do exterior, mormente de Portugal. Os debates resultaram num livro intitulado ”Pode e Moralidade: o totalitarismo e outras experiências antiliberais na modernidade”, lançado neste ano pela Editora Annablume, de São Paulo. A coordenação do evento e a organização do livro couberam ao chefe do departamento da universidade, Prof. Dr. José Maurício de Carvalho. Assim se expressa o coordenador:

“Os capítulos do livro contribuem para entender o fenômeno totalitário, apontando os riscos do totalitarismo nos momentos de dificuldade econômica e crise social. Os organizadores do seminário consideraram fundamental a divulgação das diferentes abordagens do fenômeno, pois ao estudá-las fica-se em condição de melhor identificar seus riscos e os resultados de uma sociedade que saiu deles, ocupada com o existir concreta, vivendo os riscos da solidão na angústia da contingência de viver escolhendo o futuro. Daí diria o filósofo Albert Camus, o homem se descobre na incerteza da náusea e da desesperança, na angústia da liberdade que o condena à morte. Ele se vê perdido em seu desejo de compreensão racional numa realidade que se apresenta completamente irracional. A filosofia existencial deu voz às interrogações sobre o sentido da vida face à angústia, ao sofrimento e a morte. O existencialismo é a consciência dos horrores da Segunda Guerra e das ações dos governos totalitários.
No capítulo denominado A bioética e sua relação com os direitos humanos –uma contraposição ao Totalitarismo, Ricardo Silva e Napiê Silva aprofundam osignificado da liberdade tendo por referência as ideias de Hannah Arendt.
Selvino Malfatti fez ampla reflexão sobre o totalitarismo. Ele lembra que o eixo central da moralidade ocidental é a pessoa humana. O fenômeno totalitário,esclarece, é experiência recente da história política do ocidente e constitui um desvio de rota da tradição principal.
José Carlos Souza Araújo traduz e comenta a transcrição da doutrina fascista escrita por Giovanni Gentile e Benito Mussolini para a Enciclopédia Italiana de Ciências, Letras e Artes de 1932. É um documento esclarecedor das idéias fascistas e não tinha tradução portuguesa o que realça seu valor.
No capítulo Absolutismo hobbesiano e totalitarismo, Adelmo José da Silva aprofunda a hipótese de Hannah Arendt. Ele explica que o totalitarismo é fenômeno do século XX, mas tem raízes antigas.

António Pedro Mesquita examina outra experiência antiliberal que antecedeu os estados totalitários no século XX: o tradicionalismo português. A falta de apreço pelo liberalismo começa no tradicionalismo.

Ernesto Castro Leal apresentou importante esclarecimento sobre o destino histórico do tradicionalismo dissociando-o do catolicismo. Ele estuda a crítica do Pe. Abel Varzim aos movimentos totalitários lusitanos.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset foi importante crítico do totalitarismo. Para ele, o fenômeno totalitário é típico da sociedade de massas que se estabeleceu na Europa no final do século XIX.

No capítulo denominado Herbert Marcuse: totalitarismo e tecnologia, Antônio Carlos Trindade da Silva comenta as teses do conhecido representante da Escola de Frankfurt. Ele esclarece que Marcuse entende o Estado Totalitário como variante do Liberal.

No capítulo que elaborou sobre Hannah Arendt, Odílio Alves estudou a opção arendtiana de empregar o conceito beleza para examinar o fenômeno político.

José Luís de Oliveira também examinou o pensamento político de Hannah Arendt. Ele mostra que a liberdade política é o elemento estruturante da meditação arendtiana, aproximando-a de seu mestre Karl Jaspers.

Paulo César de Oliveira examina a contribuição de Lévinas para o estudo do totalitarismo. Para o filósofo o fenômeno totalitário tem raiz numa ontologia onde o ser é tudo."

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O IMPEACMENT DE LUGO NO PARAGUAI. Selvino Antonio Malfatti









O presidente deposto do Paraguai, Fernando Lugo, nasceu em 1951, de família humilde. Cedo ingressa no noviciado dos Missionários do Verbo Divino. Faz seus estudos de licenciatura na Unversidad Católica Nuestra Señora de La Asunción. Trabalhou no Equador como missionário. Conhece Leonidas Proaño, expoente da Terologia da Libertação, a qual passa a professar. Em seguida aprimora seus estudos na Universidade Gregoriana, em Roma. Ao regressar ao Paraguai é nomeado bispo da diocese de San Padro, por João Paulo II em 1994. Com os brasileiros, Frei Beto, Leonardo Boff e D. Helder Câmara, mantém ininterruptos contatos, pois todos são adeptos da ideologia da Teologia da Libertação. À medida que toma parte na política vai se afastando da religião até que a Igreja em 2004 o aposentou com o título de “bispo emérito”. Lidera o movimento Resistência Cidadã reunindo partidos de oposição, sindicatos e associações. Com a participação do movimento do “Movimiento Paraguai Possivel” estava praticamente decidida sua candidatura à presidência que ocorreu em 2008. Por não esperar a resposta do Vaticano ao pedido de renúncia sacerdotal é suspenso “a divinis” por Bento XVI.
A opinião mundial, mormente a da América Latina, está dividida quanto à classificação do que aconteceu no Paraguai: golpe ou impeachment. Quem opta pelo impeachment considera o que aconteceu um ato constitucional legítimo. Quem pensa o contrário entende que o Congresso agiu de forma ditatorial. Reflitamos um pouco.
Conforme a Constituição paraguaia, a iniciativa para o impeachment deve partir da Câmara dos deputados por dois terços de votos e a decisão caberá ao senado por maioria absoluta de dois terços. Tudo isso se cumpriu. A decisão do senado, com 45 integrantes, teve 39 votos a favor, 4 contra e dois não compareceram. Como se percebe, praticamente foi unânime. Todo ele ocorreu dentro da normalidade constitucional, sem nenhum golpe, respeitando o estado de direito. O único senão foi a rapidez ou pouco tempo para a defesa.
Mas afinal, o que pesava sobre a cabeça do presidente deposto Fernando Lugo?
Basicamente são: aumento da criminalidade no país, a insegurança dos fazendeiros, uso de instalações militares para fins políticos, assinatura do protocolo de Ushuaia. O motivo imediato foi o confronto entre policiais e sem-terras que aconteceu na fazenda de Curuguaty. Um grupo de policiais que iria negociar a desocupação da fazenda para reintegração de posse foi recebido a tiros. Seis policiais e onze sem-terra foram mortos. Em vez de tomar medidas urgentes e enérgicas, Lugo permaneceu apático.
Quanto o protocolo de Ushuaia pesa a acusação de permitir arranhões à soberania nacional, pois permitia uma intervenção externa da parte da União das Nações Sul-americanas – Unasul. Por trás desta organização está Hugo Chavez da Venezuela que pretendia ou pretende uma liderança regional.
Como ocorreu politicamente este impeachment? Lugo elegeu-se com o apoio do Partido Liberal em 2008, vencendo seu adversário com aproximadamente quarenta e um por cento dos votos, no entanto, seu partido perdeu no Congresso ficando com minoria parlamentar. Para suprir esta derrota teve que fazer uma coligação com um partido socialista. Após retirada do apoio socialista, o presidente ficou sem base congressual e diante disso foi fácil à oposição iniciar e concluir o processo de afastamento. 
A votação na Câmara aconteceu no dia 21 de junho resultando na aprovação do impeachment. Até mesmo parlamentares de seu partido ou coalizão votaram contra Lugo. No Senado teve lugar no dia 22 do mesmo mês, um dia depois. Lugo ainda tenta através de recurso de inconstitucionalidade, mas a Suprema Corte rejeitou o pedido. Com isso está selada a sorte do ex-presidente. A força como último recurso parece que está afastada para ambas as partes. E a rapidez do afastamento talvez tenha sido a fórmula para repudiá-la.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

RIO+20 E O PLANETA QUE QUEREMOS. Selvino Antonio Malfatti






No período de 13 a 22 de junho, do corrente ano, na cidade o Rio de Janeiro está sendo realizada a Rio +20 - a Conferência das Nações Unidas - sobre o Desenvolvimento Sustentável. Estão presentes 193 Estados-membros da ONU, chefes de Estados e de Governos, milhares de participantes dos setores mais representativos da sociedade civil. Calcula-se em torno de 50 mil participantes. Há um congraçamento entre nações, governos e sociedade com o objetivo de encontrar soluções para conciliar desenvolvimento e preservação do meio-ambiente.
Após 20 anos passados da Cúpula da Terra, realizada também na cidade do Rio de Janeiro, pretende-se agora fazer um feedback do que foi feito e projetar um futuro melhor para os próximos vinte anos. O foco principal é como reduzir a pobreza, promover a justiça social e simultaneamente preservar a natureza ou mesmo incrementá-la. Os desafios são enormes, pois estamos diante de um planeta sempre mais habitado que requer alimento, civilização, cultura, lazer, tecnologia e experimentos.
O Coordenador Executivo da Conferência, Brice Lalonde, entende que esta é uma oportunidade histórica por ter conseguido congregar tantos estados, pessoas e organizações com o objetivo de encontrar idéias que possam promover um futuro sustentável, isto é, pacificar posições aparentemente antagônicas, como desenvolvimento e preservação.
Para tanto a Conferência se concentrará em dois temas eixo: 1. A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza. 2. Quadro institucional para o desenvolvimento sustentável.
Há, no entanto, alguns senões. Entre eles é a ausência do governo norte-americano e chinês.  Além disso, não há confirmação da presença do governo da Alemanha e Reino Unido. E coincidentemente são os que mais poluem. 
Como contrapeso, confirmaram presenças os governos da Rússia,.o presidente eleito da França e o Presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso.
O que conseguiram as conferências anteriores? A primeira de 1972 e a segunda em 1992, esta denominada Eco – 92? Da primeira, em Estocolmo, se pode dizer que ficou e continua sendo perseguido como ideal genérico, o ambientalismo, como se dizia na época e agora se chama sustentabilidade. Compareceram apenas dois chefes de Estado. Já na segunda Conferência a mesma idéia continua sendo centro de debates, então chamada de ecologia, na Eco - 92.  Já nesta compareceram 108 chefes de Estado e de governos. Apesar de as agressões à natureza continuarem, como o caso da concentração de gases, causando o efeito estufa e redução da biodiversidade, a Eco – 92 motivou as empresas a se engajarem na preservação ambiental. Com isto a idéia de preservação do meio ambiente tornou-se adulta e terá muito mais vigor nesta do Rio + 20, mormente porque ganhou um poderoso aliado, o consumidor que passou a dar preferência a produtos não poluentes.
O que vai acontecer nos próximos vinte anos?
Uma coisa é certa: a natureza não distingue categorias: econômicas – ricos ou pobres; educacionais – instruídos ou analfabetos; religiosos – santos ou pecadores; políticas – governantes e go ou castigo. E tem quem aposta nisso. E o pior, se dá bem.
É bom pensar!overnados. Perante a natureza todos são iguais. E pior: a natureza recompensa e castiga indiscriminadamente. Não é por que o Brasil age sustentavelmente que será recompensado, nem por que os USA poluem serão castigados. A natureza não discrimina prêmio ou castigo. E tem quem aposta nisso. E o pior, se dá bem.
É bom pensar!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

BENILDE, NOSSA IRMÃ. Selvino Antonio Giovanella Malfatti












Neste domingo próximo na localidade de Batuvira, distrito do município de Progresso, do Rio Grande do Sul, a comunidade estará em festa. É que uma filha deste lugar completará 60 anos de vida religiosa. O nome que os pais lhe deram é ADELINA ALBINA GIOVANELLLA e o nome que ela escolheu como religiosa é IRMÃE BENILDE.
Filha de José Giovanella e de Maria Letícia Salton Giovanella nasceu no então município de Marques de Souza. Compartilhou a fraternidade com 10 irmãos, dentre os quais três homens e sete mulheres. Cursou seus estudos superiores em Lages, Santa Catarina, logrando o título de bacharel em Contabilidade.  Sua atuação profissional foi na área de Administração, destacando-se atividades em Florianópolis, Rio de Janeiro, Curitiba e Lages. Atualmente reside em São Bento do Sul, Santa Catarina.
O que será que leva uma pessoa a optar pela vida religiosa? Em todas as religiões há pessoas que deixam a vida comum e encaminham-se para atividades religiosas. Acontece no judaísmo, islamismo, budismo e não poderia deixar de ser no cristianismo.  Conforme o testemunho da Irmã Benilde “é um chamado de Deus”
O que estas pessoas têm em comum e o que têm de diferente com os que seguem a vida dita normal. Em comum, as pessoas que se dedicam à vida religiosa, têm uma grande sensibilidade com o sobrenatural e necessidade de ajudar seus semelhantes. Diz Irmã Benilde: “por uma vida de doação aos irmãos necessitados”. Estas pessoas gostam da atmosfera do divino, do místico, do sobrenatural. Ao mesmo tempo vêm seus semelhantes com outros olhos. Enxergam neles algo de divino, de um valor que extrapola o natural e eleva-se ao plano espiritual. Isso é tão forte e marcante que acompanhará pelo resto da vida. Conforme Benilde: “Se tivesse que reassumir minha vocação hoje, o faria da mesma forma, somente na época de hoje.” Isto faz com que após 60 anos de vida religiosa possa dizer: “realizada por ter respondido o convite de Deus”. Isto não quer dizer que tudo tenha sido um mar de rosas. Ela mesma salienta que houve um fato marcante na vida dela, “uma experiência de quase morte que tive, e após revivi”. Após todos estes anos dedicados a Deus e ao próximo ela confessa que não teve nenhuma aspiração não realizada e, portanto está plenamente feliz.
A vivência do religioso na vida social caracteriza-se por ter atitudes diferentes para com os semelhantes. Compreendem-nas, consolam-nas e as valorizam. O religioso impregna o ambiente onde está com uma áura espiritual e todos os que dele se acercam sentem-se imantadas por esta energia. Na presença de um religioso temos a sensação de que Deus anda por perto. A pessoa do religioso é a presença física daquele em quem acreditamos. Ela nos traz o invisível para o mundo visível, a fala do silêncio, a certeza da dúvida.
O religioso está entre nós é igual e diferente. Diferente por causa do olhar que têm para a realidade circundante. Ele enxerga o que os demais não percebem. São como pessoas que, usando óculos especiais, podem enxergar no escuro. E o inverso também é verdadeiro. Elas não enxergam muitas coisas que pessoas normais vêem. È por isto que surgem às vezes atritos entre os de vida religiosa e leigos.
Penso que foi Francisco de Assis que conseguiu expressar o que é uma vida religiosa. O religioso tem por meta por toda sua vida.
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a .
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!”


Esta é uma singela homenagem que nós irmãos, cunhados, sobrinhos, netos, bisnetos e a comunidade te fazemos, BENILDE: nossa irmã. UM ABRAÇO.



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