sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OS CEM ANOS DE " DE FARIAS BRITO. Selvino Antonio Malfatti.



Por ocasião dos Cem anos do livro O Mundo Interior de Edmundo Farias Brito, livro este que faz parte da trilogia do título maior:
Ensaios sobre a Filosofia do Espírito
- A Verdade como Regra das Ações (1905)
- A Base Física do Espírito (1912)
- O Mundo Interior (1914)
Queremos prestar uma justa homenagem a este pensador, filósofo e jurista que marcou a intelectualidade brasileira e lusa por décadas. Esta obra, O Mundo Interior, é, quiçá, a mais madura de suas obras.
Para ele o espírito, fato e base de todo pensar é a verdade primeira e irrefutável que nem mesmo os céticos podem atacar, pois para discordar terão que pensar, isto é, lançar mão do espírito.
Encontrar um pensador no Brasil de final do século XIX e início do século XX que não fosse positivista, evolucionista ou materialista era raro. Mas como toda regra tem exceção esta não poderia falhar. Raimundo Farias Brito (1862-1917 – Ceará) era anti-positivista, anti-evolucionista e espiritualista, sem ser católico.
Este pensador mostrou-se um filósofo independente no torvelinho de ideologias que pululavam por toda parte. Neste período surgiam correntes de pensamento, escolas, autores uns diferentes dos outros por toda parte. E também, para não anular a regra, o próprio Farias Brito era diferente entre os diferentes. Encarnando a alma brasileira o filósofo ora se encanta, derrete-se de idealismo, convida a todos a construir uma nova sociedade baseada no amor. Mas semelhante a um bipolar, em seguida se entrega ao pessimismo, desânimo e desilusão afirmando que só há egoísmo e ódio.
Mas é na produção intelectual que reside a grandeza de Farias Brito. Praticamente cobre todo conhecimento das ciências humanas. Estuda as relações entre a moral e a filosofia, entre o direito e a moral, entre a filosofia e a ciência. Até mesmo extrapola a área de conhecimento a que se propõe a faz incursões na poesia, teologia e religião. Confronta metafísica e positivismo, debate a possibilidade de uma metafísica naturalista. Chega ao final propondo uma religião naturalista, identificando Deus à própria luz.
Com efeito, o pensamento de Farias Brito desenvolveu-se num quadro ideológico rico e diversificado no período a cima mencionado. Praticamente os mesmos autores lidos e interpretados por outros pensadores da época eram os mesmos. No entanto, o pensador cearense apresenta uma interpretação peculiar, sui generis. O Comte de Sílvio Romero, por exemplo, não é o mesmo de Farias Brito. Da mesma forma as ideologias. Ele sempre encontrava algo diferente e característico que outros não enxergavam. Os inspiradores até podiam ser os mesmos, mas as inspirações variavam. Contudo, o mais paradoxal é que o pensamento de Tobias Brito tem de mais destacado, mais ele, o característico diferencial é o espiritualismo. Mas justamente nisso que seus adversários o atacam dizendo que é puro naturalismo. Outros, porém, vêem que suas contradições são apenas aparentes. Pensam que a teleoloiga seja uma conciliação entre com o mecanicismo aproximando o que havia em comum em Lange, Ribot, Stuart Mill, Hamilton, Spencer Schopenhauer, Buchner e Noiré. Farias Brito, sempre consegue encontrar qualidades onde outros encontram defeitos e vícios onde outros só percebem virtudes. Para ilustrar podemos citar o caso de Kant que elogia os argumentos sobre a prova da existência de Deus. Diz que o argumento da finalidade pode ser questionado pelo próprio argumento invocado. Se a existência de Deus está alicerçada sobre o fato da existência do universo, fato-causalidade, o mesmo se pode invocar sobre a causalidade da existência de Deus: Deus existe, logo deve ter uma causa.