sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sobre a honestidade e a política.José Mauricio de Carvalho



Nada fez tanto sucesso nas redes sociais que a afirmação de nosso ex-presidente de que não há no Brasil ninguém mais honesto do que ele. Sucesso considerando-se a quantidade de comentários e partilhamentos. Foi o fato que mais circulou na Internet e nas mídias. De engraçado a imagem do ex-presidente com as vestes papais em aura de santidade. Não entendi se tantos compartilhamentos foi porque muita gente teve consciência de que era tão honesta como Lula, tão desonesta como ele ou nenhuma das alternativas anteriores. Enfim, como não tenho condição de auferir a verdade da afirmação (não estou na consciência do ex-presidente), vou deixar à justiça a tarefa de verificar a afirmação. Aproveito, contudo, a oportunidade para tratar da honestidade.
Quando se pensa em honestidade não há como não se lembrar do ensaio  intitulado Sobre a Discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpétua, escrito pelo filósofo alemão Immanuel Kant. Depois de explicar que política e moral são duas ordens distintas e que, portanto, a prática mostra a distância entre elas, Kant defende a honestidade como valor fundamental da sociedade, afirmando que ela não é incompatível com a prática política. Kant disse: "Quando estas duas coisas não podem coexistir em um mesmo mandamento, há realmente um conflito entre a Política e a Moral, mas se ambas devem ser inteiramente unidas, o conceito do contrário é absurdo e a questão de saber como resolver aquele conflito não se apresenta mais como problema. Embora a proposição: a honestidade é a melhor política, contenha uma teoria que infelizmente, a prática com muita frequência contradiz, a proposição igualmente teórica: a honestidade é melhor do que qualquer política, está infinitamente acima de toda objeção, sendo mesmo condição indispensável da política" (Textos seletos, Petrópolis, 1985, p. 130).
O texto de Kant veio a calhar toca em dois pontos importantes. Primeiro, na vida política o comportamento moral é difícil, segundo, embora difícil a consciência honesta pode presidir qualquer ação social, inclusive na política. Portanto, é bem possível a um político ser verdadeiramente honesto e então descobrimos um Lula kantiano, não porque ele faz o que diz, mas porque afirma, como bom kantiano, que não há incompatibilidade entre a vida política e a honestidade. Ao confirmar a afirmação kantiana, Lula coloca nossa classe política numa situação complicada, pois não é um filósofo que diz que é possível ser honesto e político, é um político contemporâneo. Assim, os políticos pegos na mentira, além de responderem criminalmente pelo mal feito, cometem imoralidade. Devem se punir diante da própria consciência, o que exigiria, no mínimo, arrependimento, um pedido público de perdão e reparação do mal, para que pudessem pagar na cadeia por seus crimes, mas com a consciência redimida.
Além disso, a fala de Lula é importantíssima porque anuncia a necessidade da moral, ou do seu acirramento, num tempo em que os valores e a religião encontram-se em baixa. De fato, é preciso retomar a discussão sobre os costumes e seus fundamentos para assegurar que a sociedade possa bem viver. Sem moral não se pode esperar bom funcionamento do corpo social, pois é a constrição da consciência de cada um que o obriga a agir corretamente: o motorista a levar responsavelmente seus passageiros, o médico a operar com excelência, o eletricista a bem ligar a eletricidade e assim sucessivamente. A retomada da moral como um importante agente do tecido social é talvez o que de mais importante ficou do episódio do ex-presidente.