sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

 



 ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

Nos dias atuais multiplicaram-se os encontros em formaturas, esportes, educação, ciência, profissão e dezenas de outros. Há um que chama atenção, de família. O motivo é óbvio. Os laços de sangue são os mais fortes. Por que agora? A resposta também salta aos olhos: tecnologia  da comunicação. Anos atrás, em torno de cinquenta anos, a comunicação teria que ser por carta ou a viva voz. Atualmente é instantânea. Isto tornou possível não só se comunicar como encontrar o parente. No passado quando alguém emigrava do local de sua família ninguém mais o achava. Hoje, ao contrário, os meios possibilitam encontrar alguém em qualquer parte do mundo.

Os encontros de família geralmente são na residência de um familiar, avós, pais, mãe, irmão ou primo. Nos encontros, o tradicional pai, mãe e irmãos se multiplicou atendendo ao mandamento bíblico. Agora são primos e primas, maridos e esposas, filhos destes e até netos. A minúscula família virou uma multidão.  Nem mais todos se conhecem. A pergunta mais frequente: tu és quem?

O lugar da festa é geralmente no interior, numa capela, casa ou na cidade num clube. No dia combinado todos se dirigem ao local. O momento é como um encontro de pássaros. Rebenta a festa. Todos gritam, cumprimentam, se abraçam, se beijam. Alguém aponta para um pica-pau que se gruda ao tronco da árvore, lembrando o melar dos matos. Outro para o “campanil” da igreja, recordando as travessuras de enrolar um pano no badalo. E outros para a ladeira onde se brincava de carrinhos de lomba. Tudo festa, abraços, beijos, risadas e choros.

Mas por que motivos os parentes sanguíneos  querem se encontrar? O que os move a procurar pais, irmãos, primos, tios ou avós? Num tempo em que a dispersividade  é o normal  o que nos move buscar os que compartilham o mesmo sangue? A resposta pode ser encontrada na aspiração existencial. E é nesta direção que iremos buscar as respostas.

O ser humano desde que despertou a consciência se pergunta quem ele é. E para saber a resposta pergunta-se de onde vem. A primeira confrontação se dá coma a família descobrindo certas identidades: traços físicos, modos de falar, histórias, valores. A partir daí procura reconstituir a própria história. Percebe que na fluidez da sociedade a família é a espinha dorsal que congrega os elementos dispersos. Com isso reconstitui a própria identidade.

O esforço na busca de saber de onde veio busca conectar o passado, presente e futuro, interligando-os. Ao deparar-se com o presente e passado, conhecendo avós e pais, conecta o tempo que cultura digital tende apagar, pois enfatiza só o presente. Com isso emerge a descoberta da continuidade no tempo através do laço sanguíneo.

Antes da vida racional experimenta-se a vivência afetiva. É através dos pais, irmãos e primos que se entra na vida adulta. O afetivo antecede o racional. O que eles me ensinaram? Quais os conflitos que se enfrentados? As ausências, rupturas e presenças que marcaram a vida. Buscar os familiares proporcionará reforçar boas experiências e superar as ruins.

Em alguns casos, de forma sutil e subliminar, transparece um desejo de reconciliação por problemas ao longo da jornada: separações, ausências de pai ou mãe, pobreza, preferências de filhos. Os encontros podem ser uma oportunidade de reparação e conciliação.

Menos influentes, mas ocorrem, curiosidades genéticas como doenças, comportamentos, aptidões cujos familiares, através de encontros, buscam respostas sobre si mesmos.

Pergunta-se: encontros de famílias são apenas capricho, momento de lazer, a saudade ou tem alguma justificativa mais profunda existencial e ontológica?

Em Aristóteles constatamos que o homem é um animal político cuja primeira experiência política é a família. Nela o homem é acolhido numa comunidade e aos poucos vai se preparando para a plenitude política que é o Estado. Cada encontro de família revive-se a vida gregária inicial podendo ser confrontada com as relações instrumentais e públicas.

Em Paul Ricoer encontramos ao que ele chama de identidade narrativa constituída de dois momentos: o idem - o núcleo permanente e o ipse – o adquirido ao longo do tempo. A família é o fio condutos que conecta os dois povos. Nos encontros volta-se ao tempo e experimenta novamente o ipse que é seu eu, presente na família.

Por sua vez, Zygmunt Bauman ao trazer o conceito de liquidez quer significar os vínculos frágeis e os de solidez. Como se vive mais os vínculos descartáveis as pessoas suspiram por vínculos sólidos. E estes podem ser reencontrados na família.

O mais humano dos grupos, a família, através da conexão dos laços e os vínculos se alimentam e se concretizam nos encontros.

 

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