quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O “CINQUENTA TONS DE CINZA”. Selvino Antonio Malfatti.





O cenário do romance de E. L. James passa-se em meio a chicotes, açoites, bolas, laptop e iPod. O “Dominador” Christian e a “Submissa” Anastásia entregam-se completamente aos prazeres do sexo. Ele, prisioneiro dos complexos infantis e juvenis, porta-se como Hórus. Ela, ora aprovada, ora desaprovada pelo interior e pelo inconsciente, é Vênus. Ambos mantêm um relacionamento sexual tenso e prazeroso. Em qualquer ambiente encontram motivos para novas experiências. No escritório, quarto, cozinha, restaurante, corredores, mas principalmente na Sala Vermelha da Dor o impulso sobrepõe-se às suas vontades e eles o satisfazem. Basta se entreolharem para mergulharem de corpo e alma nesta volúpia. E o fazem sem culpa nem remorsos.
Nestes momentos para eles o mundo ao redor se tornar etéreo e se deixam levar ao abismo pela voracidade. Às vezes tudo é lento, espontâneo. Outras, sofreguidão da abstinência. Um vácuo para ser preenchido com o tudo. Puro cosmos de deleite, ânsia do belo, do nada, infinito e eterno cabendo num átomo de segundo. Esfuzia-se a alma diante do esvaecimento do corpo. Aos borbotões jorra o prazer esquecido do sofrimento. É a morte que vive, revive, transfigura-se. Cada membro do corpo pode sentir e tocar a felicidade total. A alma se entrega ao inefável. Morre a lógica, vence a natureza. Os princípios se calam. Os sistemas se esfumam nas contradições. As teorias agonizam perante o viver da vida. Tudo rebrota e floresce. O universo se abraça à felicidade de provar o inalcançável. Quer-se escuridão porque a luz pode findar num segundo aquele momento desejado e repelido. O prazer desceu na esteira do raio e transformou-se em leito desnudo. Como é doce aquele morrer porque é por ele que se sente a vida palpitar no gemido do sofrimento gozoso. Por que não queria? Por que proibia? Quem proibia devia ser alguém ciumento por que queria guardar só para si toda a beleza da bondade. Que importa o castigo se a felicidade supera todo o sofrimento? Por que não fazer o mal se ele é tão doce à alma? A deusa fica vazia e repleta, ofegante, em repouso. Ela possui tudo e quereria não ter nada. Esta é a morte mais inebriante dos vinhos para a alma.
A mente está vazia de medo. Quer apenas aquele momento, único, esperado e amedrontador. A deusa queria e não queria. Hórus queria. O corpo consente e a alma deseja. Quem diz que carne é fraca? Ela convence a alma que não queria. Os dois, vitoriosos, se congratulam e festejam a vitória sobre a proibição. A provação passou. Agora é a hora da recompensa e do regozijo.
Por que se chama de queda esta suprema vitória da natureza? A taça espumante e transbordante chegou aos lábios sôfregos. Sorvida, entrou pelas moléculas do corpo fazendo-as estremecerem. Os instintos satisfeitos aquietaram a alma inquieta. Ela precisa de um lugar para repousar. Sua quietude está no corpo que carrega como um casulo. Em vão se debate na busca de fantasias. A felicidade está com ela, basta dá-la. A natureza não deixou longe o que a alma e o corpo precisam. Depositou neles. Basta apanhá-los. A alma inquieta procurando onde repousar e encontrou a paz no corpo. Mas isto é efêmero. Por que o efêmero não se torna eterno?  
Vênus ou Hórus, quem sobrepujará? O amor ou o sexo?