sexta-feira, 17 de julho de 2015

A crise grega – menos Platão, mais Aristóteles! Ricardo Vélez Rodríguez - Professor da Faculdade Arthur Thomas (Londrina)



Em face da crise do euro, com os gregos querendo desembarcar da União Europeia, lembro-me de artigo muito pertinente escrito por meu amigo João Carlos Espada (A Grécia e as ‘infelizes dicotomias’ continentais, jornal Público, Lisboa, 6/7) em que ele identificava um problema: não foi imaginado pelos criadores da zona do euro um mecanismo de desembarque para as nações que, como os gregos hoje, não se sentissem à vontade nela. Ora, faltou esse mecanismo de desembarque. Se houvesse, não estaria passando a Europa unida por tantos sobressaltos.
É claro que eu, como meu amigo Espada, não tenho simpatias por Alexis Tsipras nem por seu grupo de esquerda radical, o Syriza. Baste lembrar que a primeira providência do jovem líder grego depois de eleito foi receber o embaixador do arquirrival da União Europeia, o czar Putin. É botar gasolina na fogueira.
Passo a refletir sobre a crise do euro à luz dos conceitos filosóficos, sendo fiel à minha profissão de professor de Filosofia. Falta à União Europeia, hoje, mais flexibilidade na gestão dos conflitos. Resumiria esse imperativo no título do meu artigo: menos Platão, mais Aristóteles.
Lembremos que, diante da crise que os gregos enfrentavam no século 4.º a. C., com Atenas perdendo terreno para a sua rival Esparta, a solução platônica consistiu em incrementar o modelo educacional ateniense, tirando o ensino das mãos dos sofistas, estrangeiros em geral, e passando-o às dos atenienses, sob o rígido controle do governo da polis. O modelo ateniense deveria ser incutido na mente das novas gerações pela pedagogia platônica, a Paideia, toda ela a serviço da construção da máquina do Estado, sob a previdente condução do rei filósofo. Ora, esse modelo funcionava em Atenas e em nenhum outro lugar. Quando Platão tentou sugeri-lo a Dionísio, tirano de Siracusa, foi posto em prisão e seus discípulos tiveram de fazer uma vaquinha para libertar o mestre.
Aristóteles não tinha origem ateniense, era um bárbaro macedônio civilizado, tendo estudado na Academia platônica. Mas tinha uma visão ampla do mundo e uma concepção política aberta à diversidade. Viajou pelo Médio Oriente, pelo Mediterrâneo Oriental e pelo Egito e escreveu sua obra sobre as constituições do mundo antigo, tendo identificado 158 formas diversas de governo. Formou nessa mentalidade aberta o seu pupilo, o jovem Alexandre, que seria o famoso conquistador do mundo antigo, construtor do primeiro império globalizado da época.
Dessa magnífica obra aristotélica chegou até nós a Constituição de Atenas, preservada do criminoso incêndio da Biblioteca de Alexandria por zelosos amanuenses bizantinos, egípcios e árabes, que a trouxeram até nós. Ora, o postulado fundamental da política em Aristóteles é que há duas condições para conquistar a estabilidade no seio do Estado: a primeira é que este se organize a partir das tradições em que a comunidade acredita e a segunda, que se estabeleça um regime que traduza a média da opinião, postulado que passou à posteridade, na Idade Moderna, pela mão, sobretudo, de François Guizot, o primeiro-ministro do reinado de Luís Felipe na França.
A comunidade do euro foi organizada mais pensando na unanimidade platônica (herdada por Hegel, que certamente influenciou muito a intelligentsia alemã e a chanceler atual, Angela Merkel). Faltou a média da opinião de Aristóteles.
Não foram criados mecanismos que possibilitassem aos países integrantes um eventual desembarque da zona do euro. Era isso o que justamente temia Margaret Thatcher quando foi posta em discussão a adoção pelos parceiros europeus da moeda única.
Lembremos parte do seu discurso pronunciado no Conselho da Europa, reunido em Roma em outubro de 1990, no qual a então primeira-ministra britânica desaconselhava a adoção da moeda única por seu país. A sra. Thatcher afirmava que os trabalhistas não teriam problema em entregar a soberania nacional. O Partido Trabalhista, dizia ela ironicamente, “talvez concordasse com a moeda única e com a abolição da libra esterlina. Talvez, sendo totalmente incompetente na administração da política monetária, ficasse feliz em delegar toda a responsabilidade a um banco central (europeu), como fez em relação ao FMI. O fato é que o Partido Trabalhista não tem competência para lidar nem com dinheiro nem com a economia” (Papéis de Margaret Thatcher, documento número 869, 30 outubro de 1990, http://www.margaretthatcher.org/document/108234).
Ora, a União Europeia, na rigidez dos seus princípios organizacionais, lembra mais Platão e o Bloco Continental imaginado pelo imperador Napoleão Bonaparte do que uma federação de Estados livremente unidos por um pacto flexível, costurado à sombra do bom senso aristotélico. Um banco central operante pressupõe mecanismos de união política que hoje estão ausentes da comunidade. Eis o cerne do problema. A ordem imposta de fora é problemática. “As baionetas”, aconselhava a velha raposa Talleyrand a Napoleão, “servem para muitas coisas, menos para sentar em cima delas.”

Voltando ao bom senso britânico, considero pertinentes as palavras com que João Carlos Espada conclui seu artigo: “As instituições sociais não são fabricadas especificamente por ninguém. Emergem de um longo e complexo processo de interação descentralizada que não é suscetível de comando central – mesmo que esse comando central seja exercido pela chamada Razão, ou mesmo pela Razão libertadora de preconceitos e tradições não racionais (...). Não pretendo com isto concluir que a criação do euro tenha sido necessariamente um erro. Mas foi seguramente um erro gigantesco ter criado o euro sem uma cláusula de saída ordeira. E é um erro gigantesco identificar a moeda única com a União Europeia. A moeda única deve ser apenas uma opção possível para aqueles países que queiram subscrevê-la”.