quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ano novo: entre o tempo cíclico e a progressividade. José Mauricio de Carvalho - Prof. do IPTAN

Estamos, conforme a tradição, nos aproximando do ano de 2016 contados do nascimento de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Cristo. Observe-se que não sabemos a ocasião exata do seu nascimento, 25 de dezembro foi uma data simbólica escolhida pela Igreja Romana, no século IV, para sobrepor-se às festividades do Deus Sol cultuado entre os romanos. Igualmente não sabemos se o nascimento de Cristo se deu exatamente no ano que a tradição estabeleceu. Esta data foi inicialmente calculada por Dionísio, o pequeno, com base em outras datas de referência do Império Romano (fundação de Roma, governo de imperadores, etc.). Os cálculos iniciais de Dionísio estavam errados e foram corrigidos posteriormente. Chegou-se então ao ano aproximado do nascimento de Cristo, tomando-se como parâmetro os governantes do Império Romano mencionados nos evangelhos. Com base nesses cálculos Cristo deve ter nascido entre três e seis anos antes da data estabelecida. Assim estaríamos, de fato, um pouco além dos 2016 cuja entrada vamos comemorar, mas isso importa pouco para o que destacamos, o olhar cíclico do tempo.
Para esse olhar cíclico, o solstício de Inverno (22 de dezembro no hemisfério norte) tomado como referência para o nascimento de Cristo e que era para muitos povos antigos símbolo do recomeço e do renascimento, significa uma nova era na história humana. A festa do solstício de inverno, desde os tempos da antiga Babilônia, também representava na consciência daqueles povos a ideia de que as coisas se renovam de tempos em tempos. Assim, quando comemoramos a entrada de 2016 estamos marcando um novo ciclo, um recomeço para nossas vidas. Essa ideia de renovação cumpre um papel psicológico importante num ser cuja experiência de viver é marcada pelos limites e pela dor das perdas. De fato, a nossa existência é transpassada pelo sofrimento, pela morte e pela culpa, realidades que fez os filósofos existencialistas falarem de um mundo quebrado para traduzir os limites e o fato de que as coisas em nossa existência não se encaixam bem. Na passagem para o ano de 2016 temos a oportunidade de lidar melhor com o que não conseguimos mudar e de mudar o que podemos para viver ainda melhor. Viver mais de acordo conosco, com nossas possibilidades, com aquilo que desejaríamos para nós, é saber a que se ater e a dedicar a vida.
Embora a ideia de renovação acompanhe a vida, pela possibilidade de refazer para melhor, as escolhas que temos que fazer, o próprio cristianismo que popularizou a ideia de renovação periódica do viver, também difundiu a ideia de tempo como um ir ao futuro. Este tempo por vir é o tempo em que o Senhor Jesus, que vive na Glória, estenderá seu Reino por toda a terra. E essa ideia de uma vida que no presente vive com os olhos no futuro é aquela que mais precisamos cultivar. Podemos sempre procurar ser melhor e recomeçar quando as coisas não vão bem, não é preciso datas especiais, temos o desafio de construir uma vida mais de acordo conosco, pois o que deve guiar nossa existência é um sentido de vida construído individualmente na meditação diária e, se possível, no autoconhecimento vindo da psicoterapia. Estar em paz conosco pelo caminho que escolhemos, superar as culpas pelo que não podemos mudar e não incorrer em novos erros é uma boa direção a seguir. Se conseguirmos tirar de nossa existência o melhor que ela pode dar, teremos um ano novo melhor do que aquele que passou e ajudaremos a sociedade a ser melhor do que foi. Esse é o desafio de viver quando olhamos a vida como um caminhar para o futuro, a vida é direção a um sentido. O modo de existir implica em não só saber enfrentar o que nos acontece com atitudes e valores que se formam na esfera da moralidade, mas também em ter um sentido de futuro pelo exercício consciente da liberdade.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL - NASCIMENTO DE JESUS.






https://letras.mus.br/andrea-bocelli/1610268/

                           Entrada da Igreja dos Anjos - Belém


Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi,
para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida.
Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo:
hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor.
Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência {divina}. (Lucas 2:4-14)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O SACRO EM RENÉ GIRARD. Selvino Antonio Malfatti.




René Girard nasceu em Avignon em 1823 e falece nos Estados Unidos em 2015.  Inicia sua carreira acadêmica como paleógrafo de inspiração medieval analisando a vida privada do século XV, em torno de 1923, num ambiente de Paris da Liberação. Logo, porém, muda-se para os Estados Unidos onde encontra acolhimento cultural como professor de literatura francesa e constitui uma família.
O arcabouço de seu pensamento reside na teoria do mimetismo, origem da violência. Esta faz um duplo trabalho: estrutura e desestrutura as sociedades. Por sua vez, esta dinâmica fundamenta o sentimento religioso mitológico.
A tese, que é pano de fundo de seu pensamento, é a descoberta do desejo mimético. É desejar o que o outro deseja de uma forma triangular entre o objeto do desejo, o outro desejoso e o sujeito desejoso. Há uma convergência de desejos e isto provoca a violência. Para superá-la é preciso encontrar uma “vítima”, um bode expiatório que assuma a culpa da violência de todos e assim abre caminho para a convivência pacífica. No entanto, este processo não se extingue, mas cada vez se renova e por isso sempre é necessário uma nova vítima para sacrificá-la em nome de todos.
De posse desse arcabouço teórico inicia a elaboração da gênese da religião, iniciando com a mitologia. Depara-se como ato inicial o ocultamento que disfarça a violência. O sacro absorve a violência através do sacrifício. Desta forma o “bode expiatório” imanta os desejos de violência, concentrado nele como único culpado e por isso possibilita a convivência. Temos então o mimetismo quando todos desejam a paz, cada um renunciando a violência, depositando-a no “bode expiatório” e o sacrificando.
Para Girard no novo testamento há uma nova forma de “vítima”. Aquele Jesus histórico se transmuda na vítima que assume a unanimidade da violência para depositá-la na sua pessoa e possibilitar viver em paz. Jesus não só substitui o bode expiatório como o neutraliza. A violência não é mais física, mas simbólica. Não há necessidade de um sacrifício cruento físico, mas de fé.
Girard se dá conta que de que o “Cordeiro de Deus”, vítima, emerge de sua passividade reguladora e o homem percebe a transformação da violência, o religioso a própria imanência e Deus a transcendência. O Jesus de Nazaré é a “vítima” perfeita e inocente que coloca a marca de uma história de responsabilidade. Diante disso o homem reencaminha a violência, o divino se torna imanente e junto com Deus atinge a transcendência.
Não por nada que o cristianismo é a única religião que previu seu próprio fim como está escrito no Apocalipse.  Neste a palavra de Deus é enérgica, repudia os erros e as culpas humanas as quais no fundo são violências. Na mesma proporção que persistimos nos erros a voz de Deus se torna mais forte, emersa da devastação da violência. Esta tem por fundamento nossas diferenças quando de fato a ênfase deveria ser na identidade. A diferença, na verdade, é o sacro corrompido, representado na figura de Satanás, causa de todos os males e de todos os extremismos. Este procura sempre o conforto e quem o segue em vez de buscar o melhor, opta pelo pior. 
É considerado o Darwin das ciências humanas.
Algumas obras:

Mensonge romantique et vérité romanesque (1961)
Dostoïevski : du double à l'unité (1963)
La Violence et le sacré (1972)
Critiques dans un souterrain (1976)
Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978
Le Bouc émissaire (1982)
La Route antique des hommes pervers (1985)
Shakespeare : les feux de l'envie (1990)
Quand ces choses commenceront (1994)
Je vois Satan tomber comme l'éclair (1999)
Celui par qui le scandale arrive (2001)
La voix méconnue du réel: Une théorie des mythes archaïques et modernes
Le sacrifice (2003
Les origines de la culture (2004
Anorexie et désir mimétique (2008).
Mimesis and Theory: Essays on Literature and Criticism, 1953-2005.
La Conversion de l'art. (2008)




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Pessoa Humana, um caminho para a convergência humana no novo milênio. José Mauricio de Carvalho




Quando o ISIS (Islamic State of Iraq and ash-Sham) iniciou suas atividades em 2003, o novo milênio estava nascendo em meio a sonhos de paz, deixando para traz um século com duas Guerras Mundiais e o genocídio de seis milhões de judeus. E desde então as bombas do ISIS explodindo nas cidades ocidentais, os assassinatos e sequestros de pessoas de outra fé, as decapitações de ocidentais, tornaram o grupo temido e o século XXI um novo tempo de brutalidade. Não há novidade na brutalidade, o homem sempre foi um animal perigoso. O ISIS tem contribuído, com louvor, para manter viva a consciência dessa brutalidade, demonstrando com o uso da violência extrema e da irracionalidade completa a face mais perversa de nossa animalidade. E a disposição cega para a guerra e o sacrifício demonstrada por seus membros tem na raiz a interpretação radical da lei religiosa islâmica e o desconhecimento da noção de pessoa humana. E não parece que as ações do grupo consigam mais do que promover o medo e o pavor da maioria do povo da região. Diante dos atos criminosos dessa minoria fanática, as pessoas da região fogem apavoradas do regime de terror, lançando-se ao mar bravio em embarcações sem segurança. Preferem a morte no mar, os desafios de uma vida de miséria na Europa, colocam em risco a segurança de mulheres e filhos para não ter de suportar a tirania de uma vida na escravidão. É esse Deus e essa fé que oferecem aos homens e mulheres da região. É essa a vida que consideram seja boa.
 Sem reconhecer a dignidade da pessoa humana, eles tratam os homens como fieis e infiéis, ficando o segundo grupo subtraído de qualquer respeito humano. Aliás, a forma como aplicam a lei religiosa aos fieis também não revela respeito. Ao lado de interesses políticos  anacrônicos (implantar um califado), esses homens veiculam a imagem de um Deus rigoroso e perverso, que submete os fieis ao mais restrito controle, ministra punições severas ante o descumprimento das regras religiosas.
Além de não demonstrarem qualquer interesse por estudos teológicos que acenam para um Deus misericordioso, o diferencial do grupo é o completo desrespeito à condição humana. Essa realidade parece o aspecto mais importante que vivem, o completo desrespeito à dignidade humana que foi reconhecida nos direitos humanos e ainda antes na consciência ética do ocidente. Ações como as conduzidas pelo ISIS demonstram que eles estão fora do consenso que levou à criação dos direitos humanos, mas especialmente que desconhecem o caminho percorrido pela filosofia ocidental nos últimos quinhentos anos. E reforçam a consciência do que a ignorância e ausência de reflexão filosófica podem provocar. Sem Filosofia não se reconhece o valor do esforço para a perfeição, não se entende o sentido da liberdade com responsabilidade e que não se toca no essencial: a humanidade do outro pede para tratá-lo com o mesmo respeito com que desejaríamos ser tratados. A situação é ainda mais grave para quem diz ter uma fé que nos identifica como criaturas do mesmo Deus, qualquer que seja o nome pelo qual o cultuemos.
A brutalidade e a ignorância são contrárias à condição humana, humanidade significa dignidade ou valor. A realidade humana veiculada pelo cristianismo e difundida entre os povos europeus na Idade Média acabaram reconhecidos pela consciência humana como conquistas importantes. Pensadores como Kant e a maioria dos filósofos ocidentais reconheceram o caráter racional da moralidade cristã e do valor da pessoa.

O desconhecimento dessa tradição provoca um grande mal ao convívio humano no momento em que a humanidade caminha para construir relações globais na economia, desenvolve modos parecidos de vida e estabelece novos padrões de convivência. Nesse novo milênio nada parece mais valioso do que ensinar que a raiz da moralidade é o valor da pessoa humana. Só as bombas não acabarão com o ISIS é necessário mostrar porque eles merecem ser combatidos. Estamos diante de desafio de popularizar a Filosofia e a racionalidade já que temos lições diárias de para onde leva a ignorância e a irreflexão.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Uma Década com a Chanceler Frau Angela Merkel. Selvino Antonio Malfatti.


Em 2005 toma posse pela primeira vez como chefe de governo, no cargo de chanceler – na Alemanha equivalente a primeiro ministro - a senhora Angela Merkel, tendo como legado nada mais e nada menos do que Konrad Adenauer. A partir de então, por dez anos consecutivos timoneia os rumos da política alemã com desdobramentos na Europa, no ocidente e outras partes do mundo. Neste primeiro decênio, em meio a crises de todo gênero ela conseguiu colocar uma Alemanha destroçada pela guerra como líder do Velho Continente.
Com efeito, após o fim da II Grande Guerra a Alemanha foi dividida em oriental e ocidental em 1949, porém, pouco a pouco, cada uma delas iniciou uma vida política própria. A oriental praticamente se tornou satélite da URSS, subordinando-se às decisões superiores de Moscou. A ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica da economia social de mercado.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permaneceu hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
Do mesmo modo que em outros países da Europa, a partir da década de sessenta, começa o período de decréscimo em termos eleitorais dos democratas cristãos, embora com momentos de recuperação.  A queda maior, porém, ocorrerá a partir de 1998, com a vitória do partido social-democrático e de seu candidato Gerhard Schoeder. Finda então a era de Helmut Kohl, chanceler desde 1982.  E, em novembro de 1999, eclode o escândalo dos “fundos negros”, após a descoberta de uma colossal evasão fiscal. Parte teria ido parar na CDU, liderada por Helmut Kohl. O acontecimento colocou em xeque o próprio partido, deixando dúvidas sobre sua sobrevivência.

Naquela manhã de dois lustres atrás, quando Gerhard Schröder, que havia vencido as eleições dois meses antes, abriu o caixa-forte e entregou para Angela Merkel as chaves da chancelaria. Junto recebeu dois coisas: os presentes de Sílvio Berrlusconi ao seu predecessor e a reforma do trabalho feita por Schröder. Os presentes de Berlusconi tinham pouca importância, mas a reforma do mercado de trabalho foi sendo construído paulatinamente e com pertinácia por Frau Merkel. Como consequência a economia da Alemanha tornou-se uma potência mundial. A antiga garota trazida por Helmut Kohl, logo após a queda do Muro de Berlim, tinha duas qualidades essenciais para a política, aliás, previstas por Maquiavel: sorte (fortuna) e flexibilidade (virtù) com as quais pode resistir às investidas ao poder e tornar-se a líder mais longeva da União Europeia.
Ao mesmo tempo determinada, consegue manter o controle do sistema nervoso. É mais flexível que Schröder ou Helmut Schmidt. É provida de enorme capacidade física, apesar da condição de mulher, mas ao mesmo tempo afasta-se da prepotência, característica esta intolerável num mundo democrático.

Merkel foi forjada na crise. A de 2008 quando liderava um governo de grande coalizão com os sociais-democratas. A do euro e da Grécia em 2010 – 2011, como Chanceler de uma coalizão com os liberais. A de 2015 ainda com a Grécia de Tsipras e Ucrânia. A da massa de refugiados que chegavam à Alemanha, em torno de 850.000 em dez meses. Esta postura com os refugiados ao mesmo tempo lhe causou embaraços, mas também recebeu aplausos ao declarar que a constituição alemã garante aos refugiados de guerra, asilo político. Isto salvou a honra da Europa, mas criou divisões no governo e nos partidos de apoio. Tudo isso em meio a crises bancárias, caso OPEL da indústria automobilística, movimentos xenófobos, o escândalo da Volkswagen, viagens pelo mundo (347 fora das fronteiras), relações tensas com Obama e sobretudo com Putin. Mas ela, impávida, sempre clarividente e segura no que fazia conduzia a Alemanha que, do fundo do poço, chegou ao topo. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Novembro, tragédia em sangue e lama. José Maurício de Carvalho









As redes sociais e as mídias se ocuparam, nesses últimos dias, de nos afundar na lama de Mariana e de nos mergulhar no sangue dos parisienses. Duas tragédias com todos os componentes fundamentais: a capacidade da cena de provocar horror e a compaixão das vítimas. Assistimos, nesses dias, dois episódios que ceifaram vidas inocentes e ameaçaram outras tantas.
Do lado de cá do Atlântico, um mar de lama escoou de barragem mal fiscalizada, erguida para dar viabilidade econômica à exploração do minério de ferro e lucros exorbitantes a empresas globais preocupadas simplesmente em enriquecer; do outro lado, os tiros e as bombas lançados sobre jovens inocentes que se divertiam no final de semana. A justificativa da perversidade é o pecado da cidade condenado pelo fundamentalismo religioso. De comum aos dois episódios a quebra da tranquilidade e da felicidade que acompanha o homem em seus dias. A felicidade de estar em paz com a família numa pequena aldeia do interior do Estado das Minas, ou a de participar de um evento cultural numa das mais lindas cidades do mundo. Cada qual vivendo sua cota de felicidade, tocando a vida como lhe parecia melhor, cada homem com suas escolhas e caminho para a felicidade. Todos a perderam, ninguém a conservou, pois é próprio da tragédia a fugacidade da felicidade e a destruição do que não é estável; a vida mesma. Nos dois casos, inocentes estavam na linha do desastre e pagaram com a vida e bens, a negligência de uns e a violência bárbara de outros.
Houve quem enxergasse na especulação dos comerciantes de Valadares, que aumentaram o preço da água, um elemento surrealista no meio da tragédia. Explorar quem passa por uma tragédia é algo inimaginável mesmo para a plástica inteligência dos filósofos gregos. Enquanto a solidariedade se ampliava em Paris, a exploração da tragédia marcaria o lado de cá. No entanto, parece que a reação comum, ou humana, foi mesmo a solidariedade de lá e de cá. Solidariedade dos moradores que acolhiam pessoas perdidas e sem saber para onde ir na capital da França, dos motoristas de taxi da cidade luz que levavam os cidadãos sem cobrar a corrida e aqui de voluntários que com seu trabalho e doações encheram os ginásios de Mariana de donativos e solidariedade humana, em magnífica demonstração de apoio.
Essas tragédias nasceram não da quebra da ordem divina do mundo como um dia pensaram os antigos gregos, mas da negligência e imprudência de uns e da ignorância e brutalidade de outros. Nos dois casos foi o homem quem promoveu a desgraça, espalhou a dor, deu livre curso à perfídia. Foi a ação humana que alcançou a vida de inocentes e rompeu a ordem precária do mundo, ecológica aqui, política lá. Nos dois casos a mesma sensação amarga de que o desastre poderia ter sido evitado com algum cuidado.

Das tragédias uma única coisa se salvou, a solidariedade diante do desespero. A solidariedade capaz de mudar, pelo respeito à dignidade humana o aspecto terrível do que nos acontece. Da vida constata-se que certo são as incertezas que nos alcançam em qualquer parte e a qualquer tempo. Fica sempre um desafio depois da tragédia, superar o absurdo e o horrível que ela provoca e tentar impedir, parece que sem sucesso, que um novo desastre se repita. O que talvez possa resultar do cuidado é redução do número de tragédias que acompanham a história do homem. Alguma com certeza virá, em algum dia, quando menos estivermos esperando.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ANDRÉ GLUCKSMANN - O FILÓSOFO DO ANTITOTALITARISMO. Selvino Antonio Malfatti.





 ANDRÉ GLUCKSMANN nasceu em 1937, filho de judeus austríacos e faleceu em Paris no dia 9 novembro deste ano. Estudou em Lyon na École Normale Supérieure de Saint-Cloud. Seu primeiro trabalho foi publicado em 1968 quando era assistente de Raymond Aron, na Sorbonne, Le Discours de la Guerre. Participou do Movimento Estudantil do ano em curso em Paris. Comunista, torna-se militante maoísta e defensor da Revolução Cultural Chinesa. Para ele o marxismo leva irremediavelmente ao totalitarismo, fazendo uma aproximação entre os crimes do nazismo e do stalinismo, sendo um contestador do regime soviético. No livro “A Cozinheira e o Canibal” diz que o marxismo não só se contradiz teoricamente como produz campos de concentração. Passa a partir de então a ser identificado como anticomunista e antitotalitário. Foi incluído no grupo denominado “Novos Filósofos”, juntamente com Bruckner e Bernard-Henri Lévy. No entanto, suas posições político-filosóficas não o impedia de aproximar esquerdistas e liberais como foi o caso de reunir Sartre e Aon para convencer o presidente Valéry Giscar d´Estaing a ajudar os refugiados do Vietnã.
Nem por isso deixou de defender posições polêmicas como a ocupação do Iraque, a política israelense em relação à Palestina e a intervenção ocidental na Sérvia para defender a minoria Kosovar.
Após a queda do comunismo russo, passa a atacar o autoritarismo de Vladimir Putin, postura esta que lhe valeu o afastamento de Sarkozy o qual o apoiara na sua candidatura.
Depois da queda do comunismo e o fim da União Soviética, o filósofo continuou a denunciar o autoritarismo do presidente Vladimir Putin. Sua crítica ao líder russo o afastou de Sarkozy, por não suportar a proximidade do ex-presidente francês com o dirigente do Kremlin. Glucksmann havia apoiado a candidatura de Sarkozy à presidência em 2007.
André Glucksmann tinha muitas facetas e podia ser visto e julgado por várias ações, algumas vezes contraditórias. Ora é um jovem que arregimenta jovens para um a formação de grupo de atuação política clandestina de esquerda, montando células. Ou um Glucksmann que faz crer que a cozinheira tinha razão contra os canibais, pois o olho do povo vê sempre a verdade e a justiça. Outras vezes assustava Raymond Aron sobre suas convicções de mudar radicalmente o mundo. Há também Glucksmann que deleita e encanta Michel Foucault comprovando seu axioma: no início não há poder, mas espírito de resistência. Foucault sorri e se alegra com a fúria de André. Há também um Glucksmann que renunciou à crença na solução pela via revolucionária, mas não abandona o furor, isto é, não se converte à democracia representativa. A cólera que para ele seria como que uma segunda natureza. Qualquer declaração, por mais banal que fosse, era acompanhada de anátema e furor. Em André caminhavam pari passu o Glucksmann estrategista frio e o enraivecido. Havia quase duas oxigenações: aquela do cérebro e aquela do coração, uma invadia a outra e ora se complementavam ora se estorvavam. Parecia a encarnação da alma de seus pais imigrantes pela Europa em chamas devastada pelos nazistas. Talvez aí estivesse a sua alma.
O Glucksmann radical quando se tratava dos direitos dos pobres, horrorizado com os pedantes que nada se preocupavam com o popular. Era uma contradição, pois ele mesmo não era popular, mas apresentava-se como tal. Com certeza não era safadeza, mas também não se dava conta da contradição. Inclusive diziam alguns que ele inventou um ”povo”, talvez os chechenos, para representar àquilo que sua ideologia se referia.
Principais obras:

Une rage d'enfant (2006)
Le Discours de la haine (octubre de 2004)
Ouest contre Ouest (agosto de 2003)
Descartes c'est la France (octubre de 1987)
Dostoïevski à Manhattan (enero de 2002)
La Troisième Mort de Dieu (marzo de 2000)
Cynisme et passion (enero de 1999)
Le Bien et le mal (septiembre de 1997)
De Gaulle où es-tu ? (marzo de 1995)
La Fêlure du monde (diciembre de 1993)
Le XIe commandement (enero de 1992)
Silence, on tue (octubre de 1986) con Thierry Wolton
L'Esprit post-totalitaire, precedido de Devant le bien et le mal (mayo de 1986) con Petr Fidelus
La Bêtise (marzo de 1985)
La Force du vertige (noviembre de 1983)
Cynisme et passion (octubre de 1981)
Les Maîtres penseurs (marzo de 1977)
La Cuisinière et le Mangeur d'Hommes, réflexions sur L'état, le marxisme et les camps de concentration (1975)

Discours de la guerre, théorie et stratégie (1967)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

JUSTO MEIO ENTRE A XENOFOBIA E A SUBMISSÃO CULTURAL. José Maurício de Carvalho





Ontem bateu à porta de casa uma simpática menina vestida de bruxa. Ao ser atendida soltou logo: trick or treat. Consegui entender que era a festa de Halloween. De início fiquei surpreso com a simpática bruxinha. Preferi dar os doces já que não conhecia seu poder de fazer travessuras. Depois comecei a pensar em quantas vezes em minha vida passei por situação semelhante nesta antes cristã cidade de São João del-Rei. Não foi preciso muito tempo para concluir que em meus quase sessenta anos de vida jamais passei pessoalmente por semelhante situação. Vi coisas assim nos filmes norte americanos. As crianças daqui se fantasiavam de anjos e seguiam as procissões durante o ano (31 de outubro é o dia de Nossa Senhora do Rosário) ou de índios, odaliscas, piratas e personagens como esses no carnaval.

E o que é a festa de Halloween da simpática bruxinha? É uma comemoração de origem celta com mais ou menos 2500 anos de existência. Segundo a crença celta, em 31 de outubro, os espíritos saem do cemitério para se encarnar nos vivos e voltar a vida, ocupando um corpo que não lhes pertence. Tem origem celta os britânicos, norte americanos e canadenses. Pois bem, conta a lenda que para assustar esses espíritos invasores (e desocupados do além) os celtas decoravam as casas com o que acreditavam seria capaz de espantar essas almas penadas: ossos, caveiras, abóboras enfeitas com ossos e/ou representando figuras assustadoras. As crianças entravam na festa se fantasiando de bruxas, dráculas e outras coisinhas semelhantes com o mesmo propósito de espantar os espíritos vagantes. Como festa pagã jamais entrou na Europa católica, sendo as pessoas acusadas de bruxaria mortas nas fogueiras. Foi um triste capítulo do catolicismo medieval a queima das bruxas, espetáculo de ignorância que não pode se repetir. Explica,contudo, porque a festa não chegou a Europa continental e nem em suas colônias, pois representavam crenças contrárias aos ensinamentos das igrejas cristãs. De todas elas. Porém, sobreviveu entre os povos de origem celta, apesar de se converterem ao cristianismo. Ficou como parte do folclore local, coisas de esquizofrenia cultural, que também ocorre em outros povos. No caso, a festa é mais comemorada nos Estados Unidos do que entre outros países de origem celta.

Nesses últimos anos, como forma de difundir a dominação cultural norte- americana, os cursinhos de inglês promovem entre seus alunos essa brincadeira macabra que nada tem a ver com a tradição cultural de nosso país e/ou com nossas crenças. Na internet houve uma reação tímida às comemorações do Halloween com referência ao dia do Saci. De fato 31 de outubro é o dia do Saci Perere, aquele moleque travesso criado pelo imaginário das tribos indígenas do sul do Brasil, que acabou sendo representado como negro, com gorrinho vermelho e cachimbo. Na transformação que sofreu o Saci perdeu uma perna jogando capoeira. O Saci é a encarnação do menino travesso que se diverte com animais e pessoas: queima o feijão da cozinheira, esconde objetos pelas casas, assusta crianças e animais, etc.

Achei criativa a lembrança do Saci, mas o foco, parece-me, deva ser outro. Não se trata de recusar tudo o que vem de fora, seria xenofobia. Nem queimar bruxas, seria fazer piada com um triste passado de que devemos pedir perdão. Porém é preciso receber os elementos culturais importados com crítica. Dos americanos, por exemplo, podemos aprender a limpeza, o amor ao trabalho, a seriedade nos compromissos, a  cidadania, o respeito aos símbolos nacionais. Seria ótimo. Eles têm também filósofos como Ralph Waldo Emerson, Ernst Nagel, Eric Voegelin, John Rawls e escritores criativos como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Trumam Capote e John Hersey. Todos merecem ser lidos e estudados. Há também músicos e cantores de talentos como Nat King Cole, Whitney Houston e Sinatra que podemos apreciar. Nesse sentido, conclamo o cursinhos de língua inglesa de nosso país a divulgar essa face universal da cultura americana, além da língua inglesa, que é importante veículo de comunicação. Universal é aquilo que atinge o mais alto e nobre do humano, para além da circunstância em que foi produzido. Quanto a festa de Halloween melhor deixar os espíritos vagantes dos celtas para lá. Temos coisas mais interessantes para aprender e viver.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A INVERSÃO DO REAL E O VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti




No transcurso dos tempos houve uma contraposição entre imaginação e o real, entre a ficção e o real e atualmente entre o virtual e o real. A tendência atual é de confundir o real e o virtual. O real tornou-se diáfano e o irreal concreto.
Você pode estar na multidão e estar só. Não é apenas anônimo, mas literalmente só. E, ao contrário, sózinho e imerso num mundo virtual.. Neste momento, por exemplo, estou só em meu gabinete de trabalho. Eu e uma máquina. Esta está conectada à rede de internet. Posso falar com quem eu quero em qualquer parte do mundo. E vice-versa, os outros podem falar comigo. Mas se estou no meio da multidão, desprovido desta tecnologia, estou só. Num coletivo, ônibus, metrô, ninguém fala com ninguém, apenas olham para as mãos e movimentam os dedos. Pode-se estar em casa com a família e, no entanto, estar só. Se estiver a milhares de quilômetros dela pode estar entre os familiares e conversar. Vive-se um mundo paralelo, um real e outro fictício, mas que é também real. Vive-se um mundo imaginário onde todos se comunicam, mas ninguém se reconhece.
A questão do real e virtual. Alguém pode dizer que tem um milhão de dólares. Mas onde está? Se acessar sua conta você verá que tem este valorconsta, embora ele concretamente não exista. O real tornou-se irreal e o irreal, real. O que não existe, existe e o que existe não existe. O espaço que necessariamente as coisas ocupavam, desapareceu e emergiu outro que antes era irreal, mas que agora é virtual e real.
O mesmo se dá com o tempo. Antes se falava em segundos, minutos, horas, anos, séculos. Agora um século é menor que um milésimo de segundo. A recriação do big bang entre França e Suíça demonstra que o tempo e o espaço praticamente foram neutralizados ou identificados. Large Hadron Collider - LHC) do CERN, é o maior acelerador de partículas e o de maior energia existente do mundo. Seu principal objetivo é obter dados sobre colisões de feixes de partículas, tanto de prótons a uma energia de 7 TeV (1,12 microjoules) por partícula, ou núcleos de chumbo a energia de 574 TeV (92,0 microjoules) por núcleo. O que acontecerá entre dois lugares em tempos diferentes?  Serão praticamente simultâneos e no mesmo local.
O virtual tornou o nada real. Se for ao mercado e comprar algo você não se dá nada em troca do que comprou. Apenas digita-se algo e pronto. E muitas vezes você compra sem comprar nada. Você adquire uma conta na internet, não existe nada concretamente. No entanto, aquilo que não existe, existe realmente. Pode trocar coisas por nada, nada por coisas e nada por nada.
Isso tudo parece sem importância. Mas vejamos as consequências. As categorias do saber na prática deixaram de existir ou de nada valem. A categoria de quantidade não existe mais a quantidade. Ela se esfumeou. É apenas um valor virtual, que existe e não existe. Qual a unidade de referência? Qual o parâmetro de um, vários, todos? Simplesmente desapareceram. O um é igual ao todo e vice-versa.
Onde está a qualidade? Aquela que aponta para a realidade, negação, limitação? Se o real é igual ao virtual, ao irreal, onde colocar o suporte do que é real ou a imaginação? Nunca tenho certeza de que algo é ou não é, pois ele pode ser e não ser ao mesmo tempo. Qual o parâmetro para o limite? Se não há critério para início e nem fim, como se pode saber o limite?
E quanto à relação? O que é essencial e o que é acidente? Quem é causa e quem é causado? O mundo virtual é a substância e o real acidente? Ou vice-versa? Em valores pecuniários ou bem realistas: que é mais importante: o montante mostrado pela internet ou as cédulas em caixa? E a relação entre ambos? Como influencia o virtual, que se tornou real, e o real, que se tornou virtual? Como posso saber em que dimensão eu estou? Na verdade parece o mundo dos mortos invadiu o dos vivos e trocaram de posições: mortos e vivos.
E por fim, a modalidade, isto é o que é possível e o que não é. Se eu estou na esfera da existência real ou virtual. Uma instituição financeira só reconhece meu número, senha, montante, débito, crédito. Eu concreto deixei de existir. Passei do real para o virtual. Sou apenas um valor atribuído. Para ser real novamente tenho que exibir o valor virtual.
E o moral, o ético o que são? Qual as relações, referências no qual se apoiam?





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ÉTICA CRISTÃ. José Mauricio de Carvalho (organização)




A ética é uma disciplina filosófica e sua origem histórica remonta à Grécia, sendo ali a contribuição mais clara o livro “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Este fez uma análise racional dos costumes das cidades - estados da antiga Grécia e assim, a ética consolidou-se na tradição ocidental, como reflexão racional sobre os costumes aceitos, considerados adequados e justos para promover a felicidade. O modelo ético aristotélico consolida-se dissociando se da política, o que não fora feito na filosofia platônica. Aristóteles valoriza a virtude para ser feliz, o que equivalia, para ele, ser bom cidadão na polis. A tradição ética, herdada dos gregos, estabeleceu um diálogo com a judaico-cristã, que no início da Idade Média já se tomara referência para o homem europeu. A moralidade judaica nasceu associada à religião e foi delineada no Pentateuco, no Velho Testamento. Sua base é o decálogo mosaico cujo registro remonta ao século VI ou V a. C. depois da volta do exílio na Babilônia.
Conforme lembra Jaspers na Introdução ao pensamento filosófico, o Decálogo é "maravilha de simplicidade para todos os tempos [...] pois, é de uma vez só revelado e capaz de convencer o homem enquanto homem" .
Conta a Bíblia Judaica que um pouco antes de 1200 a. C., um judeu criado na corte do faraó, de nome Moisés, liderou um grupo de escravos na fuga do Egito. O grupo de libertos entrou no deserto em busca de uma nova terra, para viver e a eles outras tribos nômades associaram-se nessa fé e esperança comum. Acreditavam que o Deus que os tirara do Egito lhes daria uma terra livre de dominação. Esse era Um Deus diferente dos encontrados na região, um DEUS vivo e poderoso que caminhava junto com o povo e ouvia seu clamor.
Propunha-lhes, em contrapartida, uma forma de viver sem a qual seria impossível sobreviver no deserto, e menos ainda organizar-se como povo na terra da esperança.
Ao conceder-lhes a liberdade política e lhes oferecer uma nova vida, DEUS deu-lhes regras capazes de assegurar a liberdade íntima e uma vida socialmente organizada. Independente de compartilhar a fé desse grupo, a caminhada pelo deserto e a instalação na nova terra somente foi possível porque os se submeteram à autoridade de Moisés e as regras que ele lhes deu em nome de Deus. E Moisés apresentou a regra para viver em grupo, uma regra em mandamentos também encontrados entre outros povos da região, mas não de forma tão simples e completa. Como não acreditar que aquela síntese proviesse diretamente do Deus poderoso que estava realizando o extraordinário prodígio de libertar o povo de um reino poderoso e levá-Io a salvo pelo deserto?
Assim entenderam os que seguiam Moisés. Eles tomaram a sério o código mosaico embora as regras pudessem parecer um código banal ou uma síntese
superficial. A história revelou que as regras não eram banais, o seu uso mostrou-se uma orientação maravilhosa para viver em sociedade. Em nossa cultura, distinguimos, portanto, duas tradições, a grega e a judaico-cristã, cada qual com seu propósito, mas que se entrecruzaram na formação da cultura ocidental. O cristianismo foi quem primeiro aproximou a herança grega da tradição judaica e abriu espaço para um diálogo entre a vida religiosa e filosófica. Contudo, não podemos entender que enquanto disciplina filosófica a ética esteja na dependência da religião, pois seu desenvolvimento seguirá caminho autônomo. O que se quer dizer é que os valores cristãos influíram na ética filosófica e na base da cultura ocidental, embora a tradição filosófica tenha se mantido autônoma.
O que foi dito no parágrafo anterior nos coloca diante de dois
aspectos fundamentais presentes nesse livro. De um lado, a ética filosófica, tem tradição própria e tem objetivos diversos da ética judaico-cristã. De outro, a última também possui história própria, mas elementos das duas tradições
se juntam na formação da chamada cultura ocidental. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CORRUPÇÃO POLÍTICA NO BRASIL E ITÁLIA. Selvino Antonio Malfatti


Sempre me convenço mais que há uma similaridade entre a corrupção política italiana, exposta a partir de 1990, e a corrupção política brasileira, esta, vindo a público a partir das denúncias de Roberto Jefferson, em 2005. Na Itália a ação foi deflagrada após a prisão de Mario Chiesa. Ambas têm muitos pontos em comum e, claro, outros divergentes. Comuns é o sistema multipartidário e diverso o sistema de governo. Na Itália, parlamentarismo; no Brasil, presidencialismo. Uma das características mais marcantes nos dois casos é o envolvimento de membros de quase todos os partidos. Vejamos.

1.    O sistema de poder italiano até a década de Noventa era multipartidário.  Um partido com maioria simples, coligado com outros partidos formava o governo. Faziam-se as eleições, o partido conquistava a maioria relativa, o Presidente da República nomeava o Presidente do Conselho e este deveria fazer as coligações para apresentar um ministério com a confiança das duas câmaras. O eixo da política italiana girava em torno do partido, que até então compunha um governo num sistema de coligações. O partido de liderança, na Itália, era a Democracia Cristã.

2. O sistema político brasileiro também é multipartidário, com um partido de maioria simples que necessita coligar-se com outros partidos para conseguir maioria no Parlamento. O eixo da política brasileira gira em torno de um partido com suas coligações. Até aí nada demais. O problema começa a emergir tanto lá como cá com adoção do critério das coligações. Isto é, quando o critério passa a ser pecuniário que pode ser em espécie ou benefícios como ministérios, cargos, sinecuras e outros. O partido governo governista, no Brasil, é o Partido dos Trabalhadores.

3. A partir de Noventa na Itália emergem denúncias de corrupções. As tentativas para sanar eram sistematicamente neutralizadas pelos parlamentares. No Brasil ocorreu a mesma coisa. Até se ensaiou Comissões Parlamentares de Inquérito, mas a maioria deu em nada.

4. Na Itália o volume de denúncias foi colossal. Os crimes de Tangentopoli ou Mani Pulite podem ser classificados sob vários critérios. Seguimos o critério de Luca Ricolfi . Conforme este autor, as acusações de crimes podiam ser classificados em a) abuso de poder, b) econômico-fiscais e patrimônio, c) potencialmente de mera transgressão, d) Comportamentos violentos ( atentados, homicídios, seqüestro de pessoas),  e) associações ( mafioso, delinqüente, subversiva, militar, partido fascista), f) Opinião e informação ( revelações de segredos de ofício, instigação a desobediência às leis, difamação, vilipêndio de instituições, apologia ao fascismo, e outros),  g) Rixa e conflito, h) outros ( danos efetivos, comportamentos dolosos, atos provocativos).   Um sintético inventário dos inquéritos judiciais nos levaria a nada menos que 914 processos, envolvendo 179 tipos de crimes. Dentre estes, os mais citados foram corrupção inerente ao cargo ( 165), extorsão ( 167), divulgação de notícias falsas ou tendenciosas ( 170), falsidade ideológica, de informação e escrita  ( somadas as três:  511), Inobservância de ordens de autoridades ( 179), ameaças obrigando a cometer crime ( 169), acordo entre contribuintes para o não pagamento de impostos ( 162), atentados ( 156), homicídios ( 75),  enfim uma infinidade de acusações.   

5. No Brasil a situação é praticamente idêntica. Os partidos, uns mais outros menos, engalfinhara-se na luta por verbas O estopim tem início quando um funcionário dos Correios é flagrado recebendo propina. Desde então, até o presente, veio a público uma dezena de casos semelhantes. Os de maior repercussão foram acusações de crimes envolvendo parentes do Presidente Luís Inácio Lula da Silva - os denominados casos Lulinha e caso Vavá -, o saque de Roberto Marques - assessor e amigo do ministro José Dirceu -, Paulo Okamotto - pagador de contas do Presidente .- as movimentações milionárias em paraísos fiscais do publicitário Duda Mendonça, a violação de privacidade e gestão fraudulenta do ministro Antonio Palocci, as ações de Henrique Meirelles tentando liquidar os bancos Mercantil e Econômico, a duvidosa intervenção do Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos na tentativa de encobrir a violação do sigilo bancário por parte do ministro Antonio Palocci, a concordância da nacionalização dos bens da Petrobrás na Bolívia por parte do executivo brasileiro, as propinas recebidas através do Dossiê Dantas, as Comissões Parlamentares de Inquérito, sem falar no assassinato ainda não elucidado do prefeito de Sento André, Celso Daniel, e na renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (Carneiro, 2006). Comissões Parlamentares de Inquérito se multiplicam, atualmente já passam de uma dezena. Tiveram início com as dos Bingos, depois dos Correios, em seguida com a do Mensalão e continuaram com a da Imigração Ilegal, da Terra, das Armas, da 8iopirataria e do Extermínio do Nordeste. E novas estão surgindo, como a da Anatel e das Empresas de Telecomunicações, a do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, a que trata do Registro Nacional de Veículos Automotores - Renavam, CPI das Sanguessugas e outras. Atualmente a maior ação na justiça é o Lava-Jato que envolve o núcleo do poder, como o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e atual presidente Dilma Rousseff, além de deputados, senadores e políticos de primeiro escalão.

6. Tanto na Itália como no Brasil as tentativas para estancar a sangria da corrupção eram neutralizadas pelos próprios parlamentares. O efetivo julgamento e condenação dos acusados somente ocorrem quando se iniciam os processos judiciais processando políticos de liderança nacional de envolvimento com o mundo da criminalidade, da corrupção, do tráfico de influência e do crime organizado levando-os à prisão.

7. A situação atual, na Itália, praticamente o processo está concluído e no Brasil está em andamento.


sábado, 17 de outubro de 2015

Relacionando. José Maurício de Carfvalho




Aprendemos a lidar com o mundo a partir da experiência que formamos dele. O modo como o mundo aparece para mim é a forma que ele parece verdadeiramente ter. Nós, modernos ocidentais, aprendemos a tratar as coisas dessa forma ou a acreditar que assim é. O mundo parece ser algo para mim. Acabamos convencidos de que nossa forma de entender o mundo o representa bem. Acreditamos nisso. Uma forma que vai além da percepção individual e tem elementos objetivos e compartilhados. Esse modo de pensar foi uma construção histórica.
Os historiadores do pensamento ocidental encontram a raiz da formação da consciência subjetiva ou subjetividade no final da Renascença. O filósofo francês René Descartes foi quem conseguiu expressar o que o homem do seu tempo vislumbrava, tudo quando via, tudo quanto sentia, tudo aquilo que ouvia e que chegava a sujeito não era simples exterioridade, como se pensou durante séculos. De fato, muitas gerações que se sucederam na história, desde os tempos antigos até o século XVII imaginavam que assim era. Parecia-lhes que  as coisas existiam fora de nós e de alguma forma vinham para dentro de nós. Descartes mostrou que era problemático ter alguma certeza se ficássemos em tal entendimento. O processo podia não acabar bem e o mundo não se mostrar adequadamente. Então Descartes fez da consciência pessoal o lugar da certeza. Enquanto o homem antigo estava voltado para fora, Descartes passa a tratar da pura intimidade como o espaço da certeza. Penso, e, no mais íntimo de mim, descubro-me como ser no mundo. E como ser no mundo posso me relacionar com as coisas e com as outras consciências.
Essa descoberta extraordinária reorganizou o modo como tratamos as coisas e os outros. Porém, essa descoberta maravilhosa, esse ponto de transformação na compreensão da realidade, que não pode ser desconsiderada depois de descoberta, acabou levando a  exageros pelas gerações que seguiram Descartes. O próprio corpo já não era algo que podia ser pensado como outro, o que se sabe dele é uma ideia, uma representação do que ele verdadeiramente é. Saber como essa consciência forma a compreensão de si e das coisas e o modo como lida com o mundo ocupou gerações de pensadores. E pelo processo de exageração do que encanta porque é nos mostra o que é maravilhoso, a própria vida e tudo o que nos rodeia se reduziu-se a pensamento. Descartes não entende que o mundo pode enriquecer a consciência, ao contrário, ela fica isolada. E o resultado do isolamento é a solidão, adquire-se consciência da singularidade ontológica, isto é, de sermos únicos e diferentes de tudo.
Se essa descoberta nos legou grandes coisas, se aprendemos que nosso saber do mundo refere-se ao nosso próprio modo de conhecê-lo e lidar com ele, se a experiência da solidão ontológica de alguma forma parece válida hoje em dia, o homem moderno também aprendeu que não podia reduzir o mundo aos conteúdos da consciência. E esse processo e as relações que ele contém tem muitas implicações e capítulos. Não é preciso descrevê-lo detalhadamente. Basta registrar que, de todos os modos, esse grande eu que tanto cresceu até se tornar Absoluto, no idealismo de Hegel, teve que ser reduzido a sua real dimensão pelos filósofos que o sucederam. Somos um mundo, experimentamos o entorno e o colocamos na borda do eu. Vamos nos abrindo e descobrindo que aquilo que existe não cabe no que pensamos. Contudo, isso que está além da consciência subjetiva nunca se revela integralmente a ela, porque tem aspectos que a ultrapassam, embora apareçam como parte da consciência.
Estamos aprendendo a conviver com isso, o mundo parece algo para nós e somente o entendemos assim, mas ele tem aspectos que não se limitam à fenomenalidade da consciência, tem algo que vai além dela.
E entre muitas coisas que ultrapassam o que pensamos, que está além do que imaginamos, está o outro. Este outro que é mais do que somos capazes de pensar, que nunca se enquadra no que esperamos. Contudo, esse outro sujeito não é um absolutamente outro, como é a matéria em sua composição íntima. A matéria  escapa a nossa apreensão, embora possamos dela ter uma representação. Esse outro que não sou eu, mas que tem algo comum comigo pode me ensinar muitas coisas.
Quando viemos ao mundo integramos uma comunidade, nascemos numa família, pertencemos a uma sociedade, isto é, nascemos nos relacionando. Logo na infância muitos de nós experimentam o desagradável aperto nas bochechas, especialmente se são vermelhas e redondinhas. É nossa entrada na sociedade, o aperto na bochecha é a forma moderna de iniciação social. É o outro que emerge para apertá-la como sinal de nosso reconhecimento com membros de um grupo. É o outro que também presenteia, que sorri, que afaga, que se alegra com nossas peraltices.
À medida que crescemos os relacionamentos ganham significado. Os outros deixam de ser fonte de satisfação ou insatisfação, classificados conforme aliviem nossas necessidades, nos distraiam ou aborreçam. Os outros têm nome, estabelecem relações e ensinam a lidar com o entorno. Aprendemos a nomear as coisas, aprendemos a pensar com o grupo, aprendemos a usar as referências linguísticas da sociedade para descrever o que se passa conosco e a nossa volta.
A descoberta do outro é momento fundamental da nossa relação com o mundo. Descobrimos que ele nem sempre responde nossas expectativas, nem sempre faz o que esperamos e muitas vezes faz o que não entendemos. O outro é liberdade e ação, ele é diferente das coisas que funcionam com regularidade. Se ligamos um computador ele oferece os programas instalados, os relógios marcam as horas, a lâmpada se acende quando apertamos o interruptor e o filtro purifica a água. Se essas coisas não funcionam como delas se espera é porque seu mecanismo se corrompeu. No entanto, o outro não é assim, ele pode fazer algo diferente de nossas expectativas sem se ter corrompido. Quão difícil é lidar com isso que somos no outro, como é difícil aprender que os outros também têm um roteiro singular de existência. Aprendemos a chamar isso de liberdade, uma experiência que também vivo.
E assim, quando nos distanciamos da relação simbiótica com os pais e adquirimos autonomia, descobrimos que esse outro não atrapalha nossa existência com sua liberdade, ao contrário, ele ajuda a me conhecer. Ele me ensina a ter paciência, pede que supere o meu egoísmo e permite que eu construa minha singularidade nesses relacionamentos.
Esse outro é sexuado, ele é homem e mulher. Refiro-me apenas ao modo como ele se sente e se apresenta para não entrar na desnecessária polêmica da homossexualidade, que nada muda no que aqui falamos. É que homens e mulheres, embora tenham papéis sociais que se definiram no desenvolvimento das sociedades, adquiriram comportamentos singulares que lhes parecem naturais. Assim é o capricho feminino na ornamentação do corpo e do lar, a dedicação da mulher aos filhos, ou o esforço masculino de desenvolvimento da técnica e controle do mundo. Pois bem, não interessa tratar dessas relações como subordinação ou exploração, que ocorreram em períodos históricos definidos, mas realçar que no encontro com esse  outro vive-se a maravilhosa experiência do amor. Essa é uma das mais importantes dimensões do relacionamento, a descoberta do outro como objeto de amor.
Com o amado ou amada surge uma comunidade de afetos, desejos, projetos e sonhos, com ele ou ela a vida ganha gosto e alegria. Nos últimos anos esse núcleo central de amor social vem mudando de perfil, mas não importa as transformações pelas quais passa a família. Ela pode ter menor número de filhos, os parceiros podem muito se preocupar com o desenvolvimento pessoal e profissional, eles podem ter filhos de outras relações, se viverem uma comunidade de amor, o amado ou amada oferecerá as mais importantes experiências humanas de tolerância, dedicação e entrega. E há ainda a alegria dos filhos que surgem desse amor, esses outros que não são extensão de nós, nem de nossos projetos, mas que não deixam de ser uma parte de nós diferente de nós. Os filhos ensinam melhor que todas as outras lições da vida, que os relacionamentos humanos não são completamente estranhos, embora não se limitem ao que pensamos que sejam. O amor aos filhos é um bom começo do amor que podemos desenvolver para com os outros homens. Jesus disse que mesmo quem pratica o mal consegue dar boas coisas aos filhos. E assim é, com os filhos é possível fazer boa experiência de amor.
E as relações familiares trazem a presença desse outro. Se seus desejos podem entrar em conflito com os meus, é esse outro o que mais profundamente muda a minha existência e o rumo dos meus instintos. Ele não é só quem integra minha família, ele forma comigo uma comunidade de destino. Ele constrói páginas de futuro quando juntos escolhemos o devir do nosso grupo. Ele permite viver a experiência da transcendência, só possível porque partilhamos uma humanidade comum. Podemos construir relacionamentos concretos, pessoais e diretos que nos mantenham em nosso sentido pessoal, sem nos fechar egoisticamente em nós mesmos.
E entre os outros que existem no mundo pode-se descobrir um Outro extraordinário. Aprendemos como sociedade a chamá-lo Deus (não importa a forma de entendê-lo) porque Ele não é como os homens e mulheres que conhecemos. Contudo, a experiência bíblica e nossa razão mostra que somente chegamos a esse grande Outro, através dos homens e mulheres que encontramos.Talvez Deus seja, como a matéria, um verdadeiramente Outro, porque nossas semelhanças são insignificantes dada a sua transcendência.
Os relacionamentos humanos possuem muitas dimensões, a jurídica, a política e a esportiva, por exemplo. Contudo, é a experiência de amor que dá às relações pessoais sua realidade mais alta. Porque o amor rompe com as regras escritas e acordadas para facilitar a vida, o amor revoluciona os relacionamentos como revoluciona as regras. Por isso, Jesus de Nazaré foi rejeitado na sua sociedade porque seu amor aos outros não cabia nas regras que os homens criaram para viver e se sentir confortáveis.