sexta-feira, 24 de junho de 2022

POBREZA ABAIXO DO MARCO ZERO. Selvino Antonio Malfatti.

 




Pobreza. Como podemos descrevê-la ou identificá-la? Qual o marco referencial para uma discussão teórica? Esta, conjugada à fome, certamente seria uma discussão inóqua.Como dizia o sociólogo brasileiro Herbert de Souza: "quem tem fome tem pressa, não pode esperar." Por isso, fiquemos no plano teórico. 

Tomemos aleatoriamente como paradigma São Francisco de Assis. Um pedaço de pão e um copo de água ele dispunha na caverna de seu “convento”. Os irmãos tinham um abrigo e umas roupas para se vestirem. E só. E nada mais. Em tudo mais, os irmãos eram dependentes da caridade. Fixemos esta situação como marco zero da pobreza.

Numa das ausências de Francisco os irmãos quiseram sair deste limite da pobreza. Eles ergueram um abrigo, uma casa. Ao chegar Francisco indagou o que era aquilo. Os irmãos responderam que era uma casa para se abrigarem. Francisco lhes retruca:

- Vocês não entenderam nada da nossa pobreza. Nós não temos nada. Somos absolutamente pobres. Vivem como os pássaros do céu daquilo que o Senhor nos dá cada dia,

 Tentemos fixar a pobreza no marco zero em relação à fome. A partir daí pode-se escaloná-la para cima como menos pobreza, isto é, menos fome, ou para baixo, isto é, mais pobreza e mais fome. Com efeito, pode-se estar no limite da pobreza. Daí para cima menos fome e para baixo, mais fome.

Lancemos um olhar na história e para ver alguns exemplos de pobreza abaixo do marco zero. Com efeito, abaixo deste marco de pobreza a história registra alguns exemplos dos horrores da fome. O pároco de Andreis, na província de Udine em 1815 relata que a população comia espigas de milho moídas, temperadas com capim sem sal e em alguns casos com esterco. Por sua vez o estudioso Franco dela Peruta, dizia que os  habitantes das montanhas comiam as ervas dos campos como se fossem cabras. Na Antiga Roma costumavam abandonar os recém-nascidos ao lado de uma coluna e qualquer um podia pegá-los e tê-lo como escravo. E de lá para cá de dor em dor de revolta em revolta, de hipocrisia em hipocrisia a humanidade avançou na fome, até a idade média.

Nesta período melhora um pouco a fome pois o cristianismo introduziu a ideia de que o pobre  representava a figura de Cristo, através das Bem-aventuranças. Mas logo aparece o reverso da medalha da interpretação, conforme Elígio de Noyon: " Deus poderia ter criado todos os ricos, mas queria que os pobres existissem também no mundo, para oferecer aos ricos uma oportunidade de redenção de seus pecados”. Esta ideia perpassa a Idade Média e chega ao século XIX, em 1817: "No plano da Divina Providência, a pobreza é necessária para a Ordem do Universo".

Com Martinho Lutero a tese da pobreza e da fome merece outra interpretação: Os pobres teriam pacto com o diabo, impedindo esmolas. A ideia evolui no sentido de que os pobres se aproveitam da caridade dos outros. Isto chega aos monges franciscanos e eremitas com a tese de que: “fizeram da pobreza uma opção de vida".

A caça aos pobres segue sua escalada. As epidemias e as fomes fizeram com que enormes massas populacionais mudassem do campo para as cidades. O medo tomou conta das cidades e espalha-se a ideia da necessidade de separar os "os verdadeiros pobres" dos "falsos pobres". Sempre mais o cerco se apertava para o pobre e nesta escalada as mulheres levavam a pior. Bastava ser acusada de sem-teto ou desempregada que podia ser presa pela polícia no século XVIII. Ninguém mais que as mulheres sofreram tantas humilhações como as mulheres pobres neste período. Outra categoria social foram as crianças. Chegou-se a marcar com ferro em brasa no pé das crianças o “P”, de pobre. A mortalidade infantil chegou a ser de 92% na cidade de Pádua. 

Salta à vista de que a pobreza e a sina das mulheres e crianças andaram na história lado a lado.  Uma sina de choro, lágrimas e tormentos. E até mesmo quem se propunha ser um lenitivo para a dor endêmica era apenas um disfarce como da Pia Escola de Caridade que só aceitava:

"virgens, de pai e mãe honrados, honestos de costumes e fama".

Daí a conclusão a que chegava o historiador britânico Brian Pullan:

“Culpa dos pobres, concluiria amargamente, muito tempo mudos: cavar, cavar, cavar...”

 

 

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