sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Existência e cultura. José Mauricio de Carvalho – PPG/PSIC UFJF e NUPES .

 





O capítulo segundo de O Homem e a Filosofia (Porto Alegre, MKS, 2018, p. 47- 63) examina os conceitos existência e cultura. Tratam-se dos conceitos nucleares daquele livro porque com eles se examina a realidade humana, atualizando e ampliando uma discussão anterior que descrevia o homem a partir da dialética genética e ambiente. Os dois conceitos escolhidos são mais amplos e agregam novos elementos procurando responder à clássica questão antropológica: o que é o homem? Com existência tratamos da circunstância quotidiana da vida singular e com cultura consideramos a presença histórica e consolidada dos valores da sociedade. O homem ao nascer age apenas por instinto, mas como não tem como viver em sociedade apenas obedecendo seus instintos, à medida que cresce aprende valores e adquire conhecimentos que guiam suas escolhas.

Os dois conceitos, existência e cultura, são fundamentais pelo que definem, mas devem ser entendidos não apenas isoladamente mas pela interação sujeito e circunstância. (p. 47) “O estar no mundo, no meio das coisas, é realidade do homem. A vida humana é situada, ou circunstanciada, se quisermos usar a categoria de Ortega y Gasset. Trata-se de relação inseparável que interfere na forma de compreender o entorno e de responder a ele.” Isso nos chama atenção para o fato de que a existência humana não se dá apenas no ambiente natural, mas nesse ambiente natural modificado pela cultura.  É nesse espaço modificado pela própria ação humana durante a história que o indivíduo vive uma relação dialética (p. 49): “entre a consciência e os produtos do espírito.” E sua consciência funciona sempre no sentido fenomenológico identificado por Husserl, é uma consciência cheia de objetos do mundo, não é um pensamento vazio.

A existência (entendida como vida singular que se atualiza nas ações diárias) não está fora de um ambiente cultural, mas pode afastar-se dele (p. 50): “por alguns momentos. O indivíduo se aparta do entorno enquanto tece seu projeto.” Em outras palavras, enquanto transcende a situação vivida e examina o que vai fazer na circunstância em que se encontra, o homem se auto direciona. E a situação do homem contemporâneo é singular pelos desafios que enfrenta, viver numa sociedade de massas hedonistas e ansiosas, pouco dedicadas ao cuidado com a vida singular e com aqueles talentos ou vocação singularíssima que diferencia uns dos outros.

O entendimento de cultura como objetivação de valores é uma tese consagrada pelo culturalismo brasileiro, notadamente por Tobias Barreto e Miguel Reale. Esse último construiu com sua teoria da cultura a base filosófica da versão que deu ao tridimensionalismo jurídico. No entanto, essa teoria da cultura ganhou um complicador quando os valores ocidentais foram confrontados com sociedades como a islâmica num processo de globalização cultural. Isso não significa que Reale deixou de ter razão, mas mostrou que o reconhecimento dos valores não é feito sem embates e não tem o reconhecimento definitivo que ele anunciou. Por sua vez, o embate cultura e natureza tematizada por Tobias Barreto ganhou novas nuances com as recentes alterações climáticas (p. 53): “A luta contra a natureza tanto se refere a domar a força dos instintos no íntimo de cada pessoa, como ele (Tobias) explicou quando disse que se a escravidão é natural é cultural que ela não exista, como em submeter as leis da natureza exterior e que são entendidas como antítese da cultura. Se a vida pessoal em nossos dias favorece olhar os instintos como parte da condição humana, algo que integra a circunstância de existir, o olhar para o mundo exterior mudou com o reconhecimento daquilo que Miguel Reale denominou valor ecológico, por ele considerado um novo valor. É com esse reconhecimento que a natureza deixou de ser percebida apenas pela antítese da cultura para se tornar um novo valor que dá suporte à vida humana.” Portanto, o conceito de cultura não significa, hoje em dia, simples antítese da natureza, é um valor a ser cuidado.

Quanto à noção de existência, ela foi enriquecida pelos existencialistas e por Ortega y Gasset, pois passou a representar não somente o entorno, mas tudo o que foi vivido pelos indivíduos, mesmo suas perdas. Circunstância diz (p. 54): “não apenas o que precisamos para viver como: alimentos, carinho, roupas, moradias, aparelhos, utensílios, crenças, sonhos, mas também o que está ausente e cuja expectativa reclama esforço aquisitivo. O amor perdido pede um esforço de reconquista, o que está falho solicita correção, o que obstrui o desenvolvimento demanda remoção. Tudo isso constitui o entorno e mais as esperanças cultivadas com zelo parecido ao da mulher grávida, que antecipa em cada dia da gestação, o momento em que terá o filho nos braços.”

Uma das contribuições mais interessantes dessa forma de tratar o assunto é nos livrarmos de uma espécie de determinismo neurótico, isto é, de achar que somos assim por causa da circunstância. Se elas nos limitam (ibidem): “o existente é o ser que não tem como abandonar a criação do seu modo de ser. Dele faz parte o reconhecimento de valores, por isto o seu modo de ser inclui um dever ser, como dizia Miguel Reale. Dependendo das escolhas que faz ou deixa de fazer sua existência tomará um ou outro rumo.  A sua vida ganhará um ou outro sentido, uma ou outra direção, nexo e significado.”

Entre os valores identificados na cultura, o homem é o maior deles por que é o centro e o condicionante dos demais. Constitui aquilo que Miguel Reale denomina de invariante axiológico. Essa escolha do valor nuclear não é arbitrária (p. 61): “ela traduz o entendimento da pessoa como valor que amadureceu na herança judaico-cristã através da meditação filosófica”.

Se somos educados e modificados pela cultura e seus valores também a modificamos com nossa ação singular (p. 62): “Fazemos cultura aproximando nosso destino do dos outros homens, ainda que nunca deixemos de ser nós mesmos ao fazê-lo. Essa é a ambiguidade inalienável que temos que viver; somos únicos e parte do grupo.”

A relação entre a vida singular é complexa e envolve todas essas nuances. Queremos destacar mais uma: “Apontou-se que a singularidade existencial ganha compreensão no confronto com a cultura, quando incorpora elementos da subjetividade fenomenológica. Os valores estão na cultura, mas não se impõem sem a adesão pessoal e mesmo quando ela existe não esgota a construção do sentido. Mesmo sendo referência para o sentido, a existência permanece aberta como possibilidade de ressignificar o futuro e conjecturar sobre o mundo, em meio aos limites que o homem não pode superar: de conhecer e do viver.”

Todo o restante do livro consiste num aprofundamento e esclarecimento de diversos assuntos humanos a partir da relação dialética entre existência e cultura. Alguns dos temas tratados nos outros capítulos são: a política, a história, a ética, a religião, a ciência, a finitude humana.


 

 

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