sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

AS ENCHENTES DO RIO DE JANEIRO E MAQUIAVEL - Selvino Antonio Malfatti







No Rio de Janeiro, ambientalistas, geógrafos e técnicos de todas as especialidades há muito tempo alertam para a eminência de uma catástrofe. Na região serrana a densidade da camada de terra firme sobre as rochas é mínima e por isso a capacidade de absorção é baixíssima. Se esta camada for encharcada inevitavelmente ocorrerão deslizamentos.
Na natureza chega um momento em fatores, os mais distantes, convergem e a catástrofe é inevitável. Foi o que aconteceu com as cidades serranas do Rio de Janeiro como Petrópolis, Nova Friburgo, Teresópolis, São José do Vale do Rio Preto e Sumidouro. A Zona de Convergência conectou-se com uma barreira de contenção aprisionando as massas de ar em um único local. As nuvens acumuladas no alto das montanhas atingiram as nascentes dos rios, os quais, após as enxurradas, desciam ladeira abaixo numa velocidade de 150Kh. Toneladas e toneladas de lama rolavam serra abaixo arrasando e soterrando tudo o que encontravam pela frente. As cidades da região, com um sistema cloacal deficitário, logo foram inundadas pela correnteza de água, lama e barro.Uma reflexão sobre o acontecido se impõe.
Quando o povo elege alguém para governar tem em mente que: 1º solucione os problemas existentes e, 2º antecipe-se a problemas que poderão advir. Para tanto, conforme Maquiavel, o governante deve contar com duas variáveis: a virtù e a fortuna.A primeira diz respeito a preparação intelectual e moral do dirigente e a segunda, possíveis problemas que poderão acontecer do curso dos fatos. A virtù é uma qualidade que pode ser adquirida pelo estudo, treinamento e prática. A fortuna, porém, é uma possibilidade iminente que exige do governante uma pré-disposição de previsão, natural e inata, tal qual a capacidade para a música, para pintura e para arte de uma maneira geral. É a qualidade de ler o curso da ordem natural, social e política. Para bem entendê-la é preciso remeter-se ao sentido mitológico tomado por Maquiavel.
A deusa Fortuna – sábia, rica e poderosa – exigia que os pretendentes de sua mão não só cumprissem o que ela determinava como que previssem seus desejos e se antecipassem a eles. Para Maquiavel, assim deve ser o governante: não só solucionar problemas existentes, mas antecipar-se a eles para evitar que aconteçam. O próprio Maquiavel usa de uma metáfora, certamente extraída do que acontecia com o rio Arno que atravessa sua cidade de Florença. Diz que em tempos normais um rio sacia a sede dos humanos e animais, fertiliza os campos e serve de meio de transporte. Mas, se tal rio, sofrer uma enchente irá transbordar, matar homens e animais e arrastar consigo tudo o que encontra pela frente. O governante sábio deverá ler a fortuna e entender que este rio poderá transbordar a qualquer momento e para tanto tomar as providências para que sempre se mantenha dentro de seus limites e com isso ser útil aos homens, animais e plantas.
No Rio de Janeiro a iminência da catástrofe era conhecida de todos e com mais razão deveriam saber os governantes. Mas a mesquinha sabedoria não queria enxergar o óbvio. A natureza, porém, não perdoa e a catástrofe aí está. Mortos e soterrados por toda parte. Cidades destruídas. Infra-estrutura arrasada como ruas, encanamentos, fiação, estradas e pontes. Esta é a conseqüência da tragédia pela falta de virtù, diante da fortuna, de governantes inaptos, mal preparados e sem vocação para a política