sexta-feira, 3 de julho de 2015

FEIRA DE ECONOMIA SOLIDÁRIA. Selvino Antonio Malfatti - UFSM




O evento, "Feira de Economia Solidária",  no centro do Rio Grande do Sul, Santa Maria, Brasil, extrapola as fronteiras e estende-se para a América Latina e chama atenção para o resto do mundo. O aontecimento vem acontecendo desde 1994.
A idéia é abrir um espaço de articulação, debate, intercâmbio de idéias, experiências, em relação à Comercialização Solidária e Direta dos produtores da agricultura familiar, agroindústrias familiares, catadores, indígenas, trabalhadores do campo e cidade como uma alternativa ao modelo econômico capitalista.Qual o fundamento teórico desta experiência?
Pelo menos duas grandes orientações das igrejas cristãs proporcionaram a seus fiéis em relação aos bens materiais: o ascetismo e o solidarismo. Existem outras, como o misticismo, mas foge da relação propriamente dita com a economia, pois é tipicamente claustral.
Ao anunciar a Boa Nova, Jesus trouxe ESPERANÇA para os pecadores, pobres, doentes, enfim, a todos os que sofriam. Era a ESPERANÇA que cativava,encantava e atraía as multidões. E como podiam ter ESPERANÇA? O cristianismo inicial dava ênfase nas boas ações, fazer o bem, isto é praticando a caridade. Disso decorre que a salvação residia preponderantemente no fazer.
Com o advendo do protestantismo, deslocou-se o eixo da ESPERANÇA. Passou a ser a fé. "A tua fé te salvou". E uma das minfestações concretas da fé, foi a doutrina da Predestinação, do Calvinismo. Dela surgiu uma ética em relação à posse e aquisição de bens através da atividade econômica. Foi o ascetismo.
A ética do ascetismo econômico, de origem protestante, está calcada na idéia de Predestinação em relação à salvação após a morte. Tudo está decidido. Limitava-se a crer. A partir disso, os crentes tentaram encontrar “provas” da eleição. Identificaram-na no sucesso da atividade econômica, isto é, ser bem sucedido nos negócios era uma “prova” de ter sido escolhido por Deus para a salvação eterna.
Mas como chegar ao sucesso econômico? Através de um ethos de vida. Nada de gozar a vida com o dinheiro ganho ou os bens adquiridos. Gastar somente o necessário para sobrevivência. A orientação era ser prudente e diligente. Afastar a preguiça, pois tempo é dinheiro. Se o credor, dizia-se, o vir ou ouvir trabalhando até altas horas da noite ou cedo de manhã, ficará descansado. Cultivar um bom nome, pois isto facilita o crédito e este leva ao investimento e reinvestimento. “Crédito é dinheiro”, dizia o calvinismo. O dinheiro é procriador fértil. Ele gera dinheiro e seus rebentos geram mais dinheiro e assim ao infinito vai acumulando capital. Como diz o ditado, um bom pagador é senhor da bolsa alheia. Quem criar a fama de bom pagador pode pedir quanto dinheiro precisar ou quiser que todos o emprestarão. Esta ética de ascetismo deu origem ao capitalismo, o qual dá ênfase ao sucesso econômico individual e da soma das individualidades advirá o bem de todos, acreditava-se.

Resultado: produção + acúmulo = capital

O ramo do cristianismo que dá ênfase à caridade também deu origem a uma ética na posse e aquisição de bens: a ética da partição. A economia solidária é uma de suas manifestações concretas. Os antecedentes podem ser encontrados, primeiramente em Aristóteles que fala sobre a justiça corretiva. No entanto, estão com os escolásticos os fundamentos cristãos do catolicismo, quando Santo Tomás fala em justiça comutativa, no sistema de trocas a qual deve igualar as vantagens e desvantagens nas relações intercambiais entre os homens, tanto voluntárias, como involuntárias. E os fundamentos próximos da doutrina podem ser encontrados nas encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII de 1891 e Quadragesimo Anno ddo papa Pio XI de 1931. Nelas é garantido o livre mercado, de ideologia liberal, a caridade e justiça social, da doutrina da Igreja, e sindicatos, de orientação socialista.
A ética do pensamento da economia solidária teoricamente objetiva assimilar os excluídos, minimizar o desemprego, proporcionar uma melhor distribuição de renda, fora do sistema capitalista. Este também persegue os mesmos objetivos só que por outros métodos. Cada um se move por uma ética diferente.
A ética da economia solidária, isto é, a produção, consumo e distribuição de bens visam a comunidade como um todo. Não basta um só crescer, ter bens, mas todos conjuntamente crescerem e disporem dos bens. O trabalho não se fundamenta em aumentar a quantidade de bens individuais, mas produzir bens em abundância que favoreçam a todos.
Os locais onde se dá a economia solidária são as associações e cooperativas de produção, consumo, comercialização e crédito. Esta forma de produção e consumo, se afasta tanto do individualismo capitalista, como do coletivismo socialista. 

Resultado: produção + distribuição = social

No capitalismo só o indivíduo sobressai e no solidarismo o todo. A economia solidária quer resgatar a esfera individual e comunitária introduzindo a idéia de pessoa. O bem estar do comunidade ou do grupo redundará no bem estar pessoal.

Por isso, a Feira de Economia Solidária se apresenta como um local onde se possa concretizar na prática a doutrina do solidarismo. Nela os diversos segmentos de uma economia primária e artesanal podem expor e vender seus produtos e os lucros são compartilhados  entre todos.

AVALIÇÃO: A proposta do solidarismo parece que deve ser entendida não como uma substituição ao capitalismo - o que parece atualmente improvável- mas uma alternativa, uma experiência paralela ou complementar.