sexta-feira, 19 de julho de 2013

O País da Cocanha. José Maurício de Carvalho





A história do homem é expressão de seu desejo de mudar o mundo e fazê-lo mais do seu jeito. Toda a criação cultural é tentativa de produzir um espaço melhor onde se possa viver mais favoravelmente do que no ambiente natural. E esse esforço se origina em sua vitalidade, mas precisa se concretizar com esforço e também com inteligência e arte, para tornar real aquilo que se deseja. Esforço necessário não só para mudar a natureza sem destruí-la, mas imprescindível para tornar qualquer desejo uma coisa concreta, real.
O momento pelo qual passa nosso país é especialmente intenso no desejo de mudança. Não é que o país não venha se modificando e melhorando nas últimas décadas, conseguiu estabelecer um forte sistema democrático, mas nossos partidos políticos não funcionam bem; conseguiu melhorar a vida da classe média, mas há ainda milhões em grande pobreza e é enorme a desigualdade social, melhorou o nível de escolaridade, mas nossa escola não tem resultados excelentes. Fez uma tentativa de universalizar os serviços de saúde, mas esse serviço não tem qualidade. Diante da promessa recente dos governantes de que íamos para um tipo de vida semelhante ao das nações mais ricas e desenvolvidas e isso não aconteceu, vive-se momento de frustração, questionamento, manifestações e protestos. Será ótimo se este desejo de renovação se converter em esforço para mudar as coisas, será magnífico se se cobrar do Estado uma atuação mais eficiente. No entanto, nada representará se a sociedade não dialogar direto com as instituições e não tiver metas realizáveis e cobráveis dos gestores públicos.
Os protestos da semana liderados pelo sindicalismo tupiniquim, agressivo e inconsequente, com o propósito de revogar uma muito tímida reforma da previdência social feita em 2003 está entre a irrealidade e a ficção. Todos os países sérios do mundo estudam estabelecer um tempo de trabalho maior para conceder a aposentadoria e nos próximos anos na Europa quase inteira se acordou estabelecer uma idade mínima para aposentar não aos sessenta, mais aos sessenta e cinco anos. Há países como a França que adotarão sessenta e sete anos como idade mínima nos próximos quatro anos. Aposentadoria cedo significa redução dos benefícios. Precisamos pensar esse assunto de forma séria para não mergulharmos na fantasia do país da cocanha. É lamentável que muita gente não tenha entendido que o que se quer é uma mudança para toda a sociedade e não benefícios insustentáveis: ônibus de graça, hospital de graça, tudo de graça. Mas, o que é o país da cocanha?
Na Idade Média, em pleno século XII, em meio às enormes dificuldades existentes: alimentação deficiente, doenças terríveis sem tratamento, brutal diferença social, circulou um poema que anunciava um país imaginário. Era uma terra de abundância onde queijos caiam do céu, havia freiras jovens e bonitas sempre dispostas a oferecer sexo gostoso a todos que desejassem. Esse era o país da cocanha. Nesse país não se envelhecia, não se adoecia  e, que delícia, além de não precisar trabalhar ou se esforçar, as casas, não se sabe como, eram feitas de doce e o vinho nunca acabava. Com a descoberta da América, muitos europeus pouco ilustrados julgaram que os ameríndios viviam num lugar assim.
O que a maioria dos brasileiros deseja hoje em dia é um país onde o Estado funcione: onde os serviços de saúde atentam quem o procure, a escola seja eficiente em sua missão de ensinar, a água distribuída tenha qualidade e os esgotos sejam tratados antes de lançados na natureza. Espera-se que os últimos vestígios do patrimonialismo sejam erradicados para que nossos governadores não achem normal ir de helicóptero oficial para casa de praia, que as políticas de preservação ambiental e do patrimônio funcionem, que os órgãos públicos sejam eficientes. Tudo isso só será possível se cobrarmos resultados dos governantes, trabalho, mas não um país da cocanha, que é um lugar de sonhos onde se goza sem limite.